Insetos são a comida do futuro?

Chegou o momento de mudar a nossa alimentação. A comida do futuro será baseada não em carnes ou em plantas, mas sim em insetos.

Esse é o argumento feito pelo jornalista Richard Godwin em seu artigo publicado no influente jornal The Guardian. Conforme Godwin, o consumo de insetos salvará o planeta da atual crise ecológica que enfrentamos.

Muitos especialistas reconhecem que não podemos continuar com os hábitos alimentares que temos atualmente como sociedade. Por um lado, a alimentação centrada em carnes e produtos animais gera um impacto muito grande no meio ambiente. Gás carbônico e gás metano são responsáveis por grande parte do aquecimento global, e a produção de alimentos de origem animal é responsável por grande parte da emissão desses gases nocivos ao planeta e a todos os seres que vivem nele.

Por outro lado, nossa sociedade cada vez mais consome alimentos que são muito processados ao ponto de deixar de serem aquilo que eles eram. Esse processo faz com que os alimentos se tornem nocivos para a nossa saúde, o que reflete em grandes taxas de obesidade, diabetes, doenças cardíacas, entre muitas outras que são causadas pelos hábitos alimentares da população atual.

O que especialistas não estão de acordo diz respeito à alternativa que deve ser adotada diante de tal situação. Muitos falam de adotar uma dieta mediterrânea, a qual se baseia em consumo de peixe. Outros defendem que deve ser cortado todo consumo de produtos animais. Outros ainda afirmam que a solução é apenas diminuir o consumo dos alimentos que já consumimos, substituindo produtos super processados por alimentos orgânicos e minimamente processados.

Mas, qual é a solução?

Eu não quero nem mesmo fingir que eu posso oferecer uma resposta para essa pergunta. Mas, quero comentar sobre a mais nova solução proposta para o dilema alimentar que vivemos atualmente: insetos.

Há alguns anos eu ouvi alguém falando que estávamos nos aproximando do momento em que seria inviável continuar a produção de carnes como estas são produzidas atualmente. Quando isso chegasse, precisaríamos achar uma nova fonte de proteína, afirmou o artigo que relatava a situação. E, a melhor alternativa, seria adotar o consumo de gafanhotos como “a proteína” das nossas refeições.

Eu lembro da minha reação ao ouvir isso. “Mas que baboseira é essa?” — pensei comigo mesmo. Por respeito à pessoa que havia comentado isso, não disse nada. No entanto, me lembro de pensar: “Será que gafanhotos seriam a única ou melhor fonte de ‘proteína’ para a nossa alimentação caso não houvesse mais carne bovina/suína/etc. para consumirmos?”

Embora eu tenha ficado abismado na época, lembro de pensar comigo mesmo: “Isso só pode ser um surto coletivo. As pessoas nunca considerariam isso. É um absurdo escrito para chamar atenção de pessoas para o site que publicou o artigo.”

Infelizmente, eu estava errado.

The Guardian: insetos vão salvar o planeta

O artigo do The Guardian afirma que “se nós quisermos salvar o planeta, a comida do futuro é ‘insetos’.” De acordo com Godwin, a produção insetos teria um impacto muito menor no planeta. A emissão de gases poluentes seria absurdamente menor, e ainda ganharíamos a “proteína que precisamos” como seres humanos.

Esse futuro seria bom não somente para o planeta, nem apenas para nós seres humanos, mas também (aparentemente) para os insetos. Isso porque a produção em massa desses insetos proporcionaria uma “vida feliz” para os insetos, uma vez que eles gostam de viver juntamente com outros milhares de insetos. Ou seja, se você ama os animais, consumir insetos é a sua opção alimentícia!

O que me revolta é a referência de comparação usada para afirmar isso. Todos nós sabemos dos maus-tratos e abusos feitos aos animais sendo criados para abate hoje em dia. Porcos são criados em uma jaula que não permite que eles nem mesmo se mexam, se virem, andem, cocem a sua pata, ou nenhuma das coisas normais e naturais que um porco faria se não fosse visto apenas como um recurso ou matéria prima para o mercado da carne.

O mesmo é verdade para a produção de frangos e gado. Esses animais são forçados a viver em ambientes apertados juntamente com outras centenas de animais, o que torna o ambiente não saudável para eles, e totalmente infeliz. Já é comprovado que esses animais sofrem com depressão antes de serem abatidos para chegar na mesa do consumidor.

Em outras palavras, os insetos são perfeitos para o método de produção injusto, cruel, e desumano que temos atualmente. Se queremos continuar produzindo muito a qualquer custa, insetos são o futuro. Podemos colocar todos eles em espaços inadequados para uma vida saudável e eles ainda assim “serão felizes.” Ou seja, diferentemente da produção de carnes bovina, suína, granja, etc. atual, a produção de insetos até mesmo dará uma ”consciência limpa e leve” para os produtores e consumidores — isso se esses consumidores ainda possuem uma consciência em relação aos animais criados nessas plantas de carne.

Claro, isso agrada até mesmo ambientalistas. Com a redução dos impactos no planeta, essa só pode ser a opção alimentícia do futuro.

Mas, será mesmo?

2 Problemas

Eu vejo dois problemas sobre essa possível “solução” para a questão alimentar que vivemos atualmente. Tenho aprendido muito com minha esposa, a qual está fazendo mestrado em teologia e trabalhando o tema “comida.” As reflexões espetaculares que ela tem compartilhado comigo me ajudam a apontar os problemas que seguem.

A “solução” oferecida por Godwin não é uma solução per se mas sim uma possibilidade de trocar um problema por outro. Da forma que eu vejo, um dos problemas atuais com a produção de alimentos é que a nossa sociedade reduziu alimentos a meros recursos.

Problema 1: Instrumentos para Capital Financeiro

Por um lado, alimentos são reduzidos a recursos que geram capital. Ou seja, o objetivo da produção de alimentos não é alimentar ou proporcionar comida mas sim gerar dinheiro. Empresas da área da alimentação raramente discutem se a qualidade do se produto é a melhor que podem oferecer mas sim quanto dinheiro o seu produto está gerando para a empresa. Comida não é mais comida, mas sim um instrumento de dinheiro. Se há uma forma de produzir algo da maneira mais barata que vai gerar mais dinheiro, essa é a forma ideal de produção.

O centro da industria da alimentação não é o alimento, mas sim o dinheiro. Logo, alimentos são reduzidos a recursos que geram dinheiro e não mais alimentos em si.

Problema 2: Recursos Nutricionais

Por outro lado, alimentos são reduzidos a recursos nutricionais. Carnes, por exemplo, são vistas como fonte de proteína e não um alimento que provém do animal. Da mesma forma, o leite da vaca não é mais visto como um alimento produzido pela vaca mas comumente vendido como “fonte de cálcio” ou “rico em vitamina D”, a qual é adicionada ao leite. Em resumo, alimentos são reduzidos a nutrientes, deixando de ser um alimento em si.

Isso é visto na produção de “insetos” apresentada pelo jornalista Godwin. Para ele e para a indústria de insetos, os insetos são reduzidos a recursos que geram dinheiro e nutrientes. Da mesma forma que vacas hoje em dia são máquinas de proteína, insetos estão prestes a se tornar máquinas de proteína e fibra, ao passo que irão gerar bilhões de dólares todos os anos.

ATENÇÃO GAFANHOTOS, GRILOS, LARVAS, E TODO TIPO DE INSETO:

fujam para as colinas!

O capitalismo está chegando até vocês!

Insetos são realmente a comida do futuro?

Eu não entendo. Será que estamos dispostos a comer insetos mas não a ter uma alimentação com base em plantas?

Godwin afirma que insetos reduzem a emissão de gases que contribuem para o efeito estufa, que não consomem tanta água para sua produção, e que são uma alternativa para criar “proteína” não depressiva para os nossos pratos. Reconhecendo que isso é verdade, será que realmente precisamos comer insetos para termos o que comer e manter uma alimentação saudável?

Não, simplesmente não. Não precisamos comer insetos. Com todo respeito a quem come insetos, mas me dá ânsia de pensar nisso.

Mas, a razão porque não precisamos comer insetos é porque já temos algo sendo produzido que é MUITO melhor e mais natural que insetos.

Plantas. Sim, isso mesmo. Plantas! Plantas são o futuro, da mesma forma que elas já foram o passado e já são o meu presente!

Talvez você não saiba disso, mas Deus criou o ser humano para se alimentar de plantas. Adão e Eva se alimentavam de frutas e grãos. Garanto que não faltava “proteína” para eles.

Quanto à questão ecológica que enfrentamos atualmente, uma alimentação à base de plantas solucionaria todos os nossos problemas. De acordo com o próprio jornal The Guardian, se cortássemos o consumo de produtos animais nós poderíamos reduzir 75% da quantidade de terra usada para a produção de alimento e ainda produzir alimento suficiente para todo o mundo! Ou seja, a solução para a questão ecológica não é trocar carne por insetos, mas trocar carne e insetos por plantas!

Quanto à questão nutricional, o mito que uma alimentação à base de plantas não proporciona o que o nosso corpo precisa para sermos saudáveis já foi desmentido há muito tempo. Há vários artigos de jornais gigantes e universidades muito respeitadas que provam isso. Ou seja, se a questão for “de onde tiraremos nossa proteína?”, a resposta não é “insetos” mas sim plantas! Embora eu não acredito que essa deva ser a nossa postura em relação à nossa comida, se essa for a preocupação da sociedade, a resposta é clara que plantas são a resposta para nosso problema atual!

Ah, sei que isso deveria ser claro, mas vou dizer aqui só para não ficar dúvida. A produção de plantas permite que os animais estejam onde eles foram criados para estar: na natureza, soltos e vivendo de acordo com o plano e intenção de Deus. Se “produzir insetos” permite que vacas, porcos, frangos, cordeiros, etc. não vivam em uma situação deplorável, plantas permitem não somente que isso aconteça mas até mesmo que os insetos vivam da forma que Deus criou eles para viverem.

Por isso, a comida do futuro não são insetos, mas plantas.

O que fazer?

Se você está preocupado com o planeta e a crise ecológica, troque sua carne por plantas e não por insetos.

Se você está preocupado com o bem estar dos animais, troque a sua carne por plantas e não por insetos.

Se você está preocupado com sua saúde e com uma alimentação rica em nutrientes, troque a sua carne por plantas e não por insetos.

Plantas são a comida do futuro, da mesma forma que elas são a comida do presente e sempre foram a comida do passado, iniciando lá no Jardim do Éden.

E você, o que você prefere? Comer insetos ou plantas?

Créditos da foto: The Guardian, publicação.

Pecar pelo evangelho

Pode parecer óbvio, mas nem sempre é. Por isso, é necessário dizer: pecar é pecado.

Em toda a história da humanidade e especialmente na história da Igreja Cristã, pessoas tentaram convencer a elas mesmas e outras que algum tipo de pecado não era pecado. Exemplo fácil foram as famosas e extremamente diabólicas Cruzadas feitas pela igreja a fim de “converter povos não-cristãos.”

Hoje em dia isso também é comum. Pessoas continuam tentando convencer a elas mesmas e outras pessoas ao seu redor que algum tipo de pecado não é pecado.

De coisas corriqueiras como “não é pecado fofocar” ou “não é pecado mentir” para outras mais sérias como “não é pecado juntar riquezas na minha conta do banco enquanto conheço pessoas passando necessidades” ou “não é pecado usar o meu corpo da forma que eu quero ao invés de usar ele com o propósito dado por Deus,” pessoas continuam convencendo a si mesmas e outras que está tudo bem pecar. Afinal de contas, alguns pecados não são “tão” pecados assim.

Porém, essa forma de agir e pensar está completamente errada.

Pecar é pecado. Pecar sempre foi pecado. E pecar sempre vai ser pecado.

Isso se torna ainda mais sério quando percebe-se em meio a teólogos e pastores da igreja.

Um exemplo disso é o reducionismo da distinção entre lei e evangelho. Tal reducionismo ocorre quando a lei de Deus é reduzida a um aspecto negativo, comumente entendida como se a lei só tivesse a função de condenar e apontar os pecados das criaturas humanas. Embora esse entendimento esteja correto em nossa relação à Deus no que se refere à salvação — isto é, não podemos ser salvos mediante a lei porque ela não nos salva mas sim sempre nos acusa —, esse entendimento é problemático quando nos referimos ao ensinamento da palavra de Deus como um todo para a sua criação.

Um dos resultados desse reducionismo é o conhecido “pecar pelo evangelho.” Mas, o que significa pecar pelo evangelho?

Desde o início da Igreja Cristã, mas especialmente desde a Reforma Protestante quando o ensino de lei e evangelho se tornou predominante, cristãos reconheceram a complexidade de interpretar corretamente a palavra de Deus. Concílios foram realizados e pessoas condenadas por falharem na sua tarefa de interpretar e ensinar a palavra de Deus de uma forma incorreta.

Como muitos teólogos atualmente comprovam, esse problema continua presente na Igreja. E muitos teólogos e pastores que sabiamente temem falhar no ensino correto da palavra de Deus buscam formas de evitar erros já vistos na história da Igreja. Um desses erros é enfatizar a lei de Deus acima do evangelho ao ponto que a lei seja apresentada como a forma que pecadores são salvos diante de Deus e não o evangelho.

Nesse contexto, surge o pensamento: se existe o perigo de pecar ao ensinar ou interpretar a palavra de Deus, é preferível pecar pelo evangelho ao invés de pecar pela lei.

Note que “pecar pelo evangelho” é reconhecido como algo errado e não desejado. Mesmo pastores e teólogos que afirmam isso reconhecem isso. No fundo, ninguém quer pecar em seu ensino da palavra de Deus. Todos aqueles que são responsáveis por ensinar e pregar a palavra de Deus sabem do compromisso e responsabilidade de fazer isso da maneira correta.

No entanto, existe esse problema de se convencer que pecar não é pecado quando se trata de ensinar o evangelho. A verdade, porém, desmente esse pensamento. Pecar é pecado, mesmo quando o assunto é evangelho.

Infelizmente, eu já perdi as contas de quantas vezes eu ouvi teólogos e pastores afirmando que está tudo bem “pecar pelo evangelho.” Desde a minha formação pastoral no seminário no Brasil eu ouço essa frase ser usada como se fosse a solução para uma correta distinção entre lei e evangelho.

No entanto, pecar pelo evangelho é pecar contra a palavra de Deus. Isso porque “Pregar o evangelho sem a lei é anular o evangelho.”

Se acreditamos e ensinamos que a palavra de Deus é lei e evangelho, então ensinar apenas um desses aspectos da palavra de Deus é conscientemente falhar em ensinar toda a palavra de Deus.

Eu entendo o medo de teólogos de acabarem sendo “legalistas” e deixar algum espaço para que pessoas entendam que podem ser salvas e aceitas por Deus através da lei.

Porém, a solução para isso é aperfeiçoar o entendimento e ensino de lei e evangelho, e NÃO deixar de pregar a lei de Deus.

Se deixamos de pregar a lei, nós deixamos de ensinar a vontade imutável de Deus para a sua criação.

Portanto, como falei no episódio do Teologia 18+, “A frase ‘pecar pelo evangelho’ precisa de lei, pois o teólogo precisa se arrepender.”

A solução não é pecar, nem mesmo quando o assunto é o evangelho de Deus, mas sim pedir que o Espírito de Deus nos dê sabedoria para pregar e ensinar a palavra de Deus como um todo, isto é, tanto lei quanto evangelho.

Que Deus dê coragem e discernimento para os seus teólogos, ministros, pastores, líderes, etc. a fim de que não pequem pelo evangelho mas sim preguem e ensinem lei e evangelho.

Voltando à Escravidão

Loucura? Tolice? Desespero?

O que levaria alguém que foi libertado querer retornar à sua escravidão?

Pensar sobre isso não faz muito sentido para mim. Não consigo entender o porquê alguém desejaria se tornar um escravo após ser libertado.

No entanto, isso acontece.

Um caso muito claro disso aconteceu no Êxodo do povo de Israel. Após décadas de escravidão, YHWH liberta o povo cativo através de sinais incríveis, os quais culminam na travessia do Mar Vermelho e a destruição do exército egípcio.

Conforme relatado no livro de Êxodo, logo após tudo isso acontecer e o povo ver o poder de YHWH para libertar eles, o povo reclama que Deus havia libertado eles, e desejam que nunca tivessem deixado de ser escravos.

O motivo? Na escravidão eles tinham acesso a um certo tipo de comida que no deserto eles não tinham.

Sim, um povo escravizado por gerações é libertado e um dos primeiros pensamentos que eles tiveram foi desejar voltar à escravidão.

Infelizmente, essa atitude não é vista somente na história do povo de Deus quando eles foram libertados do Egito. Essa atitude permanece presente até hoje em meio ao povo de Deus.

Assim como o povo de Israel, nós também nos encontramos escravizados pelo diabo, pela morte, pelo nosso pecado. Somente através da ação de Deus que podemos ser libertados e deixar de sermos escravos.

Esse ato de Deus aconteceu na morte e ressurreição de Jesus Cristo, e hoje se concretiza para mim e para você através do Batismo.

No Batismo, nós somos libertados da mesma forma que o povo de Israel foi libertado da escravidão do Egito. Isso porque da mesma forma que Deus trouxe liberdade e uma nova vida em comunhão com ele para o povo de Israel através da travessia do Mar Vermelho, assim também ele faz comigo e contigo por meio das águas do Batismo.

No entanto, o problema permanece: queremos voltar à nossa escravidão.

Assim como Israel quis retornar ao Egito, nós também queremos retornar para o poder do diabo, para o nosso pecado, e para o poder da morte.

“Como assim?”—você deve estar se perguntando—“Claro que eu não quero retornar ao poder do diabo e ser escravo dele! Como eu faria algo assim?”

Isso acontece quando somos libertados mas não queremos deixar a vida de escravidão que tínhamos antes de sermos libertados por Deus.

Gostamos da ideia de sermos livres, mas não gostamos da ideia de termos que desistir da nossa vida em pecado. Queremos continuar praticando aquele “pecado favorito do final de semana” que tanto nos satisfaz.

E, simples assim, rejeitamos a vida em liberdade conquistada por Deus em Cristo para voltar à nossa escravidão.

Tenham cuidado para não retornarem à sua escravidão sob o poder do diabo, da morte, e do pecado.

Vivam a liberdade que Deus conquistou e deu para vocês em Cristo.

Fica o convite para ouvir o Teologia 18+ para mais reflexões. É só clicar no link: https://anchor.fm/teologiadezoitomais

INACREDITÁVEL (Unbelievable): Reação e Reflexão

Foto: Divulgação, Netflix. Edição minha.

Sabe aquela lista gigante de séries e filmes que compõe a “minha lista” na Netflix, a qual parece aumentar mais do que diminuir? Então, eu tenho zilhões de títulos nessa lista na minha conta da Netflix, e frequentemente me pergunto se algum dia conseguirei assistir tudo o que está nessa lista. Não sei você, mas eu acho difícil que um dia isso acontecerá. No entanto, de vez em quando decido investir um tempinho para assistir algo que está nessa lista, e frequentemente sou presenteado com uma obra incrível da cinematografia atual.

Ontem foi um desses dias que decidi assistir algo que estava praticamente esquecido na “minha lista” da Netflix. Após uma breve consideração, minha esposa e eu decidimos começar a minissérie Inacreditável (“Unbelievable”). Assim que terminamos de assistir o primeiro episódio, nós sabíamos que não conseguiríamos ir dormir antes de acabar com todos os episódios dessa série original da Netflix.

Baseada em eventos reais, a história retratada em Inacreditável é de cortar o coração de qualquer pessoa que tem um coração. O tema geral da minissérie é estupro. Sim, o tema é pesado. Bem pesado. No entanto, assim como outras séries que retratam realidades duras e difíceis da nossa sociedade (tal como 13 Razões Porquê (“13 Reasons Why”), essa é uma série que todos nós deveríamos assistir e refletir na seriedade dos eventos retratados na série. Se você ainda não assistiu essas séries, eu recomendo assistir (considerando todas as recomendações de autoridades, claro.)

Para não dar “spoiler” para quem ainda não assistiu a série e está lendo esse texto, eu vou tentar me limitar a aspectos gerais da série, sem muitos detalhes. Quando tiver muito detalhe específico, vou avisar a possibilidade de spoiler hehe.

Assistindo a Minissérie

O primeiro episódio é, na minha opinião, o mais difícil de assistir. Além de retratar cenas da violência sofrida pela vítima principal da história, esse episódio também retrata o descaso das autoridades diante da jovem violentada. Sendo completamente sincero com você que está lendo esse texto, assistir o episódio #1 dessa minissérie me fez entender ainda melhor o porquê mulheres vítimas de estupro muitas vezes não denunciam o ataque sofrido por elas para autoridades.

Sim, você leu certo. Eu já ouvi pessoas vítimas de estupro que falam que as autoridades normalmente defendem o estuprador e questionam a vítima, mas isso ainda era algo abstrato na minha cabeça. Ao assistir essa série, eu tive uma imagem vívida do que isso significa. Sim, ainda é uma imagem abstrata baseada em uma série da Netflix. No entanto, a forma retratada pela série me fez entender melhor o sentimento das vítimas de violência sexual, as quais sofrem não apenas nas mãos de psicopatas estupradores mas também nas mãos de péssimos detetives e policiais que ou são mal preparados ou são tremendamente machistas.

Esse episódio #1 me fez sentir raiva, nojo, revolta… me fez ter vontade de socar uma parede, e me fez chorar. Que mundo cruel e injusto que vivemos! As pessoas que deveriam proteger e trazer justiça às vítimas de psicopatas se tornam verdadeiros demônios ao desconfiarem da veracidade do testemunho de uma vítima de estupro, e violentam a vítima com mais um trauma. Pensar que isso é a realidade que nós vivemos me faz perder as esperanças e me afogar em desânimo.

Cena: Detetives interrogam e questionam o depoimento da vítima de estupro.

Felizmente, após o episódio #1 vem o episódio #2. Assim como uma mudança de água para o vinho, nós vemos uma mudança de 180 graus na postura e atitude das autoridades diante de um caso de violência sexual. Isso acontece ao sermos apresentados à duas detetives que investigam casos similares ao do episódio #1. A partir desse episódio (#2), a minissérie passa a retratar um exemplo daquilo que deveria ser a postura e atitude das autoridades diante de casos de estupro. A postura da detetive Duvall aquece o coração que havia sido quebrado no episódio #1 da série, e a esperança de que ainda há pessoas que realmente se importam e defendem as vítimas de estupro volta a existir. Ah! se todos os detetives e policiais tivessem a postura e o cuidado demonstrado na série pelas duas detetives que se tornam as personagens principais da minissérie.

Eu sei que você que leu até aqui já deve estar ficando cansado, e o texto está ficando grande. Assim, não vou mais dar muitos detalhes além dos que eu escrevi até aqui. Por isso, vai lá na Netflix e assiste essa minissérie agora mesmo. São oito episódios que têm a duração média de 50min. Vale a pena assistir cada segundo. Você não vai se arrepender!

Inacreditável na Vida Real

Note: possibilidade de spoilers a seguir.

Embora a série seja baseada em uma história real, eu não vou abordar esse aspecto da história aqui. Há outros blogs que já escreveram sobre a história real que serviu de base para a minissérie da Netflix. Pesquise no Google e você pode encontrar mais detalhes sobre isso.

Aqui, eu gostaria de refletir sobre várias mensagens incríveis que essa série nos ensina em relação ao contexto de violência sexual no mundo real em que eu e você vivemos. Em outras palavras, eu quero enfatizar alguns aspectos que me marcaram, especialmente aqueles que demonstraram que aquilo que estava sendo retratado na série não é ficção mas sim o que está acontecendo no mundo em que eu e você vivemos.

Em primeiro lugar, a série enfatiza o descaso de autoridades e do sistema policial em relação às vitimas de estupro. A presença de uma descrença nas delegacias e na postura de pessoas de alta autoridade no sistema de investigações diante dos testemunhos dados pelas mulheres violentadas é demonstrada com clareza na série. Alguns investigadores nem se permitem considerar que um homem com autoridade ou histórico de serviço militar/policial praticaria um ato de violência sexual, mesmo diante de um histórico onde esses já haviam abusado ou violentado suas esposas. Assim, a série retrata como o sistema de investigação muitas vezes protege não a vítima mas sim aqueles que são considerados “pessoas de bem” pelos policiais.

De fato, a ênfase se torna em descobrir se a vítima está falando a verdade, isto é, se ela “realmente foi abusada” ou se ela está inventando um estupro para chamar atenção. Ao invés de descobrir quem é o estuprador e prender tais psicopatas, detetives tentam descobrir se a vítima “realmente é uma vítima” ou apenas está fingindo.

Eu confesso que uma das partes que eu mais senti satisfação ao assistir a série [SPOILER ALERT — vá para o próximo parágrafo se não quiser ler spoiler!!!] não foi ver o estuprador sendo preso, mas sim ver a cara dos detetives que duvidaram e até mesmo processaram a vítima de estupro ao descobrir que eles fizeram um trabalho de merda, protegendo o estuprador ao invés da vítima através da postura deles. Pena que os mesmos não perderam o seu emprego. Até nesse ponto há injustiça, pois quem pratica injustiça não precisa arcar com as consequências dos seus erros. Aparentemente, basta ter poder e ser homem que nada pode te atingir. Alguma semelhança com a nossa realidade atual?

Diante disso, a série critica tal realidade através das duas detetives que lutam não apenas contra os psicopatas que estão foragidos por terem violentado várias mulheres mas também contra o sistema que não protege as vitimas da violência de tais psicopatas.

Cena: Detetive questiona postura de descaso de autoridades em relação à vitimas de estupro. Crédito na imagem.

Tudo isso me leva a uma das lições mais importantes e duras que Inacreditável retrata — a saber, que vítimas de violência sexual muitas vezes se encontram sozinhas, sem o apoio de amigos, familiares, e de autoridades que juraram proteger elas. Até mesmo as pessoas que dizem te amar acabam te abandonando.

Cena: Tutora de Marie falando que ela não tinha amigos quando todos duvidavam da veracidade dela ter sido vítima de estupro. Créditos na foto.

Em uma das frases que entraram no meu ouvido como um soco no meu estômago, a jovem vítima de estupro — que teve sua história desacreditada por TODOS — diz a uma psicóloga que as pessoas decidem não acreditar em você se aquilo que você está dizendo é muito duro ou difícil de acreditar.

Cena: Marie conversa com psicóloga. Créditos na foto.

Essa é uma das mensagens mais duras que eu encontrei na minissérie Inacreditável. Se você já passou por um momento difícil na vida, você sabe a importância de ter pessoas do seu lado apoiando e estando com você. Agora, imagina uma situação em que você passa por um dos piores momentos da sua vida, onde você é vítima de violência sexual, e todos duvidam de ti. Aliás, não apenas duvidam e se afastam de ti mas também atacam você como se você fosse a culpada pelo que está acontecendo.

“Ah! mas isso é coisa que só existe na Netflix. Afinal, isso não acontece na vida real, não é mesmo?”

Infelizmente, eu e você sabemos que isso não é coisa de ficção. Há poucos meses ouvimos o caso de uma jovem catarinense que foi abusada e teve a integridade da sua denúncia duvidada ao ponto do estuprador dela ser inocentado por “falta de provas.”

Falta de provas? Pelo contrário! A jovem apresentou testemunhas, vídeos, peça íntima com sêmem do abusador, etc., e a “justiça” declarou não haver provas suficientes para condenar o violentador, inocentando um estuprador que está à solta. E a vítima saiu como a culpada por ter sido estuprada, pois postava fotos de biquíni.

Que sociedade cruel que vivemos. Que mundo injusto. Que absurdo!

Em uma das frases de grande valor apresentadas em Inacreditável, o advogado da jovem vítima de estupro comenta que

“Eu sinto muito por isso, Marie. Ninguém questiona se alguém foi assaltado, se foi agredido fisicamente, mas quando é agressão sexual, questionam.”

Incrível isso, não é mesmo? Se você for assaltado hoje, ninguém questionará se você foi “realmente assaltado”. Se você for agredido por alguém fisicamente, não vão pedir se você foi “realmente agredido”. Mas, se uma mulher for estuprada, o sistema que deveria proteger e trazer justiça para ela questiona se ela foi “realmente estuprada”. Isso não é o maior absurdo que existe na nossa sociedade?

A minha pergunta é: quando isso vai acabar?

Se o que é retratado pela minissérie Inacreditável da Netflix reflete a realidade atual, o que está sendo feito para reverter essa situação?

Sinceramente, eu não tenho as respostas para essas perguntas. Eu só sei que estou cansado, com nojo, revoltado, e completamente decepcionado de saber que vivemos em um mundo que protege estupradores ao invés das vítimas de estupro. Especificamente, me entristece saber que nada é feito para mudar essa realidade, e que mulheres ainda hoje precisam decidir se “vale a pena” denunciar os abusos que sofreram, pois correm o risco de sofrerem e serem julgadas por uma sociedade influenciada por uma cultura do estupro.

Enfim, assistam a série Inacreditável. Eu gostei, e recomendo. Se você já assistiu, comenta comigo o que você achou. Valeu!

“Jericho March”: O Perigo da Idolatria entre Cristãos

Foto: The Associated Press

Sabe aquelas coisas que você vê cristãos fazendo e logo você entende o porquê pessoas criticam cristãos, o porquê elas não querem pertencer à Igreja Cristã, e o porquê muitos acham que a fé cristã é ou irrelevante ou hipócrita diante do mundo atual? Esse foi o meu sentimento ao ter conhecimento da “Jericho March” (=Marcha de Jericó) que aconteceu no último sábado (12 de dezembro de 2020) na capital dos Estados Unidos, Washington D.C.

Embora o site oficial da “Jericho March” descreva a sua “missão” como “chamar pessoas de fé para orar, jejuar, e protestar pacificamente em serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça” (to call upon people of faith to prayer, fasting, and peaceful protest in the service of God, and in defense of life, liberty, and justice), a prática dessa “marcha” foi um completo exercício de idolatria que contradiz a fé e o ensinamento cristão de tantas formas e em tantos níveis que uma análise muito mais profunda é necessária a fim de entendermos o que aconteceu.

De fato, tal análise foi feita e oferecida por alguns escritores cristãos americanos que assistiram a “Jericho March” no último sábado. Um deles é o escritor cristão Rod Dreher, editor chefe do site The American Conservative, o qual escreveu um extenso texto que analisa o evento que ocorreu no último sábado na capital americana. De acordo com Dreher, a “Marcha de Jericho” não refletiu a “missão” do movimento, mas sim foi

“um protesto em favor de Trump por cristãos (e judeus simpáticos) projetado para imitar a história bíblica do exército israelita marchando ritualmente ao redor da cidade murada de Jericó, tocando trombetas e observando enquanto Deus demolia as defesas da cidade para que os israelitas pudessem conquistar. A ideia da Marcha de Jericó é que os verdadeiros crentes circulariam as instituições corruptas do governo dos Estados Unidos, aquelas que promulgavam a farsa de que Trump perdeu a eleição.”

Dreher, “What I Saw At The Jericho March.” Tradução minha.

Em outras palavras, a ideia da “marcha” era circular ao redor das “instituições corruptas” americanas a fim de que assim como as muralhas pagãs de Jericó foram destruídas por Deus e o verdadeiro povo escolhido conquistou a cidade, assim também Deus destruiria os poderes pagãos do governo americano a fim de que o verdadeiro povo escolhido possa conquistar o governo — isto é, o ex-presidente Donald Trump.

Se você está achando isso tudo uma maluquice, você não faz a mínima ideia de tudo o que aconteceu. A tal “marcha” apresentou uma série de líderes conservadores (cristãos e não-cristãos) que assumiram o microfone e se dirigiram à multidão presente na capital americana. (Se você já se perguntou “mas o que essas pessoas estavam fazendo reunidas em meio à uma pandemia que está matando milhares de pessoas todos os dias nos Estados Unidos, parabéns: você está correto em se perguntar isso.) Esses líderes, no entanto, não chamaram as “pessoas de fé para orar, jejuar, e protestar pacificamente em serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça,” mas sim chamaram as pessoas para lutar até a morte se fosse necessário para defender a “clara eleição” do candidato republicano, Trump. Tal é a mensagem pacífica em “serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça.” Você consegue perceber a ironia?

Ou seja, a “Jericho March” mostrou-se uma marcha “cristã” que busca servir a Deus fazendo tudo aquilo que Deus reprova, e defendendo a vida através de lutas até a morte, da liberdade através do desrespeito à liberdade de quem votou de uma forma diferente, e da justiça através de desrespeitos a mais de 50 juízes e jurados que já rejeitaram os processos do ex-presidente americano. Sim, esse é o exemplo de “defesa da vida, da liberdade, e da justiça” dado por CRISTÃOS que apoiam o republicano Donald Trump. Você nota algo errado nessa postura e discurso?

Mas, o que isso tem a ver com você que está lendo esse texto no conforto da sua casa em plena quarentena no Brasil?

Se você acha que “nada,” você está muito enganado. Se você é cristão, você deveria se preocupar MUITO quando pessoas que se chamam “cristãs” passam a adotar uma postura igual a essa vista na “Jericho March.” Isso porque tal atitude NÃO É CRISTÃ. Nada — eu repito, NADA! — que você viu ou encontrou na “Marcha de Jericó” reflete a fé cristã. Ela não foi pacífica, mas sim promoveu um discurso de ódio; ela não foi em defesa da vida, da liberdade, e da justiça, mas sim em defesa de uma teoria conspiracionista; e ela não foi em serviço a Deus, pois toda a base e postura da “marcha” reflete uma idolatria contrária ao serviço e culto ao Deus Triuno — Pai, Filho, e Espírito Santo. Pelo contrário, ela foi em defesa e serviço a Donald Trump e ao “deus” do nacionalismo americano.

Quando essa postura começa a ser vista como “cristã” no mundo em que vivemos, isso significa que quando você confessa a sua fé em Cristo TODO MUNDO acha que você é um dos idólatras que participam de “marchas” que defendem e servem não a Deus mas sim a líderes políticos de estimação. E, consequentemente, vemos como Nietzsche estava realmente certo ao dizer que “Deus está morto,” e nós mesmos que matamos Ele.

Por outro lado, posturas como essa deveriam nos preocupar no Brasil porque não estamos distantes de uma idolatria parecida com a que já é observada claramente nos Estados Unidos. Há algum tempo eu vejo cristãos praticamente cultuando e servindo um certo líder político como se esse tivesse sido escolhido por Deus para salvar a nação. Esses cristãos — sim, eles estão dentro da igreja luterana também — acreditam que somente quem apoia esse certo líder político ama o país “de verdade.” Mais preocupante ainda, há pouco tempo vi sinais de pessoas falando que “cristãos de verdade” apoiam esse candidato, e qualquer crítica ao mesmo nada mais é do que falta de fé. Eu me pergunto: será que não estaremos vendo a mesma postura vista nesse final de semana nos Estados Unidos em cristãos na próxima eleição presidencial no Brasil daqui a 2 anos?

Repito: nada que é refletido nessa postura vista na “Jericho March” é cristão. Nada. Visões “divinas” que dizem que um certo candidato é o escolhido de Deus para salvar o país soam muito distoantes da fé confessada na revelação em Jesus Cristo e nos livros canônicos da Bíblia. Lutar até a morte por um líder político soa para mim como um discurso muito diferente do que encontramos em Cristo e os apóstolos. Mais especificamente, estes discursos soam MUITO diferente do discurso pró-vida pregado pelos mesmos cristãos algumas semanas antes destes estarem se armando para matar o seu próximo por amor ao seu político de estimação.

Não, isso não é cristianismo. Isso não é fé cristã. Isso é reduzir a fé cristã até o ponto que ela sirva as minhas ideologias políticas. Como Dreher escreve em seu artigo, nós precisamos rejeitar a visão que prega o alinhamento da nossa fé com nossa visão política. Isso porque o contrário deve ser feito! Nossa visão política deve ser moldada à luz da nossa fé. E é exatamente isso que o pastor Dr. Samuel Fuhrmann escreve em seu recente artigo sobre o tema. Vale a pena a leitura!

Em resumo, eu gostaria de deixar claro a minha visão e postura diante de tais eventos como a “Jericho March”, principalmente aos meus amigos não-cristãos:

A minha visão de mundo e do que significa ser cristão NÃO é a mesma dos participantes, líderes ou organizadores dessa “marcha” que aconteceu no último final de semana na capital americana. Honestamente, isso não é cristianismo, como enfatizei acima. Cristãos não pensam assim. Cristãos não agem assim. O Deus confessado pelos cristãos não pede e não apoia tal pensamento, tal postura, e tal atitude. De fato, o Deus revelado em Jesus Cristo e confessado pelos cristãos pede e aprova um pensamento/postura/atitude completamente diferente desses apoiadores do Trump. Cristãos são guiados e moldados pela Verdade revelada em Cristo, não mentiras inventadas por conspiracionistas que criam um ídolo à sua própria imagem ao invés de pregar o único e verdadeiro Deus — Pai, Filho, e Espírito Santo.

Uma última palavra: está na hora (de fato, já passou da hora) de começarmos a falar como Igreja e em nome da Igreja diante de tais mentiras comuns atualmente. Como já afirmei em outros momentos, quando a Igreja se silencia, ela não apenas se silencia a si própria mas também o próprio Deus que fala através da Igreja. Que Deus nos dê força para falarmos a vontade dEle, revelada em Jesus Cristo e nas sagradas Escrituras, e não a nossa vontade própria que reflete opiniões políticas ou sonhos conspiracionistas. Em resumo, que Deus nos conceda a graça de sermos cristãos à luz de Cristo, não de políticos de estimação.

Referências

Rod Dreher, What I Saw At The Jericho March. Disponível em (https://www.theamericanconservative.com/dreher/what-i-saw-at-the-jericho-march/). Acesso em 14 Dec. 2020.

David French, The Dangerous Idolatry of Christian Trumpism. Disponível em (https://frenchpress.thedispatch.com/p/the-dangerous-idolatry-of-christian?fbclid=IwAR13DLwKV6tr9IAw3gRdvFsBPYxmQGSL78x9Dy8mxmEiCRJDhk-sM8gybzs). Acesso em 13 Dec. 2020.

Samuel Fuhrmann, “A IGREJA ESTÁ NA PÓS-MODERNIDADE”: EM DIREÇÃO A UMA RESPOSTA LUTERANA AO RELATIVISMO ÉTICO. Disponível em (http://revistaigrejaluterana.com.br/index.php/revista/article/view/64). Acesso em 14 Dec. 2020.

Luther’s Hermeneutics in his Lectures on Genesis


By Alan D. Fürst

One of the most interesting tasks to a reader of Luther’s commentaries on biblical texts is to identify his hermeneutical principles for interpreting the Holy Scriptures. More than very interesting, creative, and valuable comments on the verses found in our Bibles, reading his Lectures can bring a great contribution for interpreters and theologians when considering his posture before the accounts given by the biblical authors.

This short essay considers Luther’s hermeneutical posture in his Lectures on Genesis as found in Volume 1 of the English Series of his works, which comprehends chapters 1-5 of the book of Genesis. All the quotations and references are taken from this volume published in 1958 by Concordia Publishing House, St. Louis, MO.

Submission to the Word

Early in his commentary, Luther presents his hermeneutical principle for interpreting the Holy Scripture which reflects and is firmly grounded in his understanding of the Word of God. Luther sees no reason to complicate the reading of the text beyond what is meant in the writing itself. The simpler, the better.

This leads him to make a strong case against an allegorical reading of the Scripture, which in his opinion leads the reader to an understanding of the text that is not meant by the biblical author. Responding to those who tried to find hidden meanings in the text, Luther writes that “this is toying with ill-timed allegories (for Moses is relating history); it is not interpreting Scripture” (p. 19). What Luther has in mind is that the biblical reader should not try to find some “deeper” meaning for what the text is describing. In fact, Luther continues to say that even if the text presents something difficult to the human mind to understand, the reader of the Scriptures should stick with the meaning of the text rather than find philosophical explanations for them that most often lead the reader astray. An example of such posture before the biblical text and difficult questions that were raised at the time is the creation of light in verse 3 of Genesis 1. Apparently many questioned what kind of light God had created in the first day, and due to such questions some preferred an allegorical reading of such saying, which meant to read some different and easier meaning into the words written in the verse. Before this, Luther writes that

“Although it is difficult to say what sort of light it was, nevertheless I do not agree that we should without reason depart from the rules of language or that we should by force read meanings into words. Moses says plainly that there was light, and he counts this day as the first of the creation.”

Lectures on Genesis, p. 19.

In other words, even though our minds might not understand fully what kind of light was created in that first day, we should not try to find a meaning that differs from such account given by Moses, as if he was trying to hid some deeper meaning into the word “light.” Such move will lead the reader away from the text into philosophical inquiry rather than true interpretation of the biblical account. For Luther, we ought to remain in the text rather than move away from it.

This he emphasizes also later on when clarifying his principle of interpretation of the biblical text in contrast with the philosophical theories about the heavenly bodies. For Luther, the interpreter of the Scripture has to surrender and adapt himself to the terminology used by the Holy Spirit rather than trying to fit the text into the terminology of philosophy. He writes,

“Here I have considered it necessary to repeat the principle I mentioned several times above, namely, that one must accustom oneself to the Holy Spirit’s way of expression. With the other sciences, too, no one is successful unless he has first duly learned their technical language. Thus lawyers have their terminology, which is unfamiliar to physicians and philosophers. On the other hand these also have their own language, which is unfamiliar to the other professions. Now no science should stand in the way of another science, but each should continue to have its own mode of procedure and its own terms.

Thus we see that the Holy Spirit also has His own language and way of expression, namely, that God, by speaking, created all things and worked through the Word, and that all His works are some words of God, created by the uncreated Word. Therefore just as a philosopher employs his own terms, so the Holy Spirit, too, employs His.”

Lectures on Genesis, p. 47.

The point being emphasized here by Luther is the posture of submission before the Word of God written in the Scriptures. According to such posture, one does not look to subdue the biblical account to his or her personal vocabulary or capability of understanding, but rather allows him- or herself to be shaped by the vocabulary and account given by the Holy Spirit through the Holy Word. Otherwise stated, the reader adapts himself to the Text, not the other way around.

This posture presented by Luther towards the text reminds me of Hans Frei’s description of the “reversal of fit” in his classic bookmark, The Eclipse of Biblical Narrative. Specifically, Luther seems to represent the “premodern” hermeneutical principle that interpreted the world from the perspective of the Scripture instead of interpreting the Scriptures from the perspective of the world. An interpreter of the biblical text adapts himself to the text of the Scriptures, not adapt the text to his own “text.”

The Power of the Word

This submission and trust of the interpreter before the text of the Scripture also shapes Luther’s understanding of the trustworthiness of the Word of God as he considers the work of creation. While no mere human mind could grasp how God could create birds and fishes out of a common material — water — Luther nevertheless applies the above principle and insists that it is exactly that which happened. This because of the power of the Word of God. Even if it is beyond our understanding, God’s Word accomplishes what it says. As Luther states,

“Therefore we must take note of God’s power that we may be completely without doubt about the things which God promises in His Word. Here full assurance is given concerning all His promises; nothing is either so difficult or so impossible that He could not bring it about by His Word. The heaven, the earth, the sea, and whatever is in them prove that this is true.”

Lectures on Genesis, p. 49.

There is nothing too difficult or impossible for the Word of God. Even if the creation of an entire universe seems impossible for our modern minds to grasp or believe, we ought to trust that the Word spoken by God not only informs but also does what it says. The same creative and all-powerful Word that created the whole universe in the beginning also creates a new creation now through Word and Sacrament, and it will also create new heavens and new earth in the Last Day. This might be beyond our understanding, but it is not beyond the power of God’s Word.

This very same principle leads Luther to affirm the work of the Trinity in the creation of heaven and earth, especially the creation of man. When the Scriptures say, “Let Us make man,” Luther rejects the understanding of the Jews and the Turks who interpret this passage as if God is inviting the angels or the earth to make man. Instead, he is certain that “within and in the very Godhead and the Creating Essence there is one inseparable and eternal plurality” (p. 58). God is One and Three. The reason for such certainty is found in his posture towards the biblical text, which once again shapes Luther’s understanding of the text in hand.

“But among us the authority of Scripture is too great [to question the intention of God’s phrase “Let Us make”], especially since the New Testament points this out even more clearly. The Son who is in the bosom of the Father (John 1:18), teaches us the same fact much more clearly; and not to believe Him is the utmost blasphemy and eternal death. Therefore away with those utterly blinded corrupters of the divine doctrines until the time of their judgment!”

Lectures on Genesis, p. 59.

Luther does not question the clear message given in the biblical text. For him, as to the heirs of the Lutheran tradition even today, it is better to trust the Word of God found in the Scriptures than to trust in the theories invented by men. Since only God creates, it is clear that he is speaking among himself about the creation of the human creature. Luther considers this a reference to a conversation between Father, Son, and Holy Spirit. If the text accounts for that, why should we not trust it?

Genesis: History or Allegory?

In regarding the words of text in Genesis as allegorical or historical, Luther makes it clear that he considers this account to be history. Such emphasis is given in order not to be confused by the allegorical readings of the fathers of the Church. As we read,

“These, then, are all historical facts. This is something to which I carefully call attention, lest the unwary reader be led astray by the authority of the fathers, who give up the idea that this is history and look for allegories. For this reason I like Lyra and rank him among the best, because throughout he carefully adheres to, and concerns himself with, the historical account. Nevertheless, he allows himself to be swayed by the authority of the fathers and occasionally, because of their example, turns away from the real meaning to silly allegories.”

Lectures on Genesis, p. 93.

The prove of such historicity is found not only in the account given in Genesis but the very continued work of God in creation even today. Luther insists that the effectiveness of this Word of God remains until today in the midst of his creation. The spoken Word God uttered when he created the animals continues to create the animals today; the Word that created Adam also created me; the Word of blessing spoken over the creatures remain effective today over the creatures. All these Luther brings forth from his understanding of the creative Word of God in its power to accomplish what it say, specially while insisting that God does not abandon or leaves His creation on its own. Instead, God remains ever active in creation, and His Word continues to create just as it did in the beginning.

“God rested from His work, that is, He was satisfied with the heaven and earth which had then been created by the Word; He did not create a new heaven, a new earth, new stars, new trees. And yet God works till now — if indeed He has not abandoned the world which was once established but governs and preserves it through the effectiveness of His Word. He has, therefore, ceased to establish; but He has not ceased to govern. … Almighty, therefore, is the power and effectiveness of the Word which thus preserves and governs the entire creation.”

Lectures on Genesis, p. 75.

The Creator of the universe is not only He who created once and stopped creating and keeping what was created. Instead, the Creator continues to create and govern this creation through His Word.

Trust and Idolatry

Luther’s deep reverence to the text of the Scriptures leads him to argue that whoever gives up the Word of God and follows his or her thoughts becomes a idolater. This is true even if such person does not worship any idol of wood or stone. The reason is because they make their own thoughts a god and believe themselves rather than the revealed Word of God. In such a case,

“[F]aith has been lost, there follow unbelief and idolatry, which transfer the glory of God to works. Thus the Anabaptists, the Sacramentarians, and the papists are all idolaters — not because they worship stones and pieces of wood, but because they give up the Word and worship their own thoughts.”

Lectures on Genesis, p. 149.

This gives shape to the manner the Reformer deals with his opponents in theological matters. Earlier on his commentary, Luther states that one should deal with the interpretation of the fanatics as to someone who wishes to distort the text in order to blaspheme against God and his Word. Luther writes,

“This is a useful rule whenever one must carry on a discussion with fanatics. For the unwary are deceived when cunning men, according to their habit, switch from the parts to the whole, make use of the fallacy of composition and division, or fail to cite passages in their entirety.”

Lectures on Genesis, p. 108.

On a specific aspect of such idolatry in interpreting the biblical text, Luther observes that the fanatics tend to make use of a particular text without citing the entire passage in order to support their fallacy. By contrast, one should go from the whole to the parts, considering the entirety of the text in order to understand the parts of the same. This hermeneutical principle is commonly seen in difficult passages where much uncertainty remains to the meaning of that particular passage. Instead of applying a fallacy to such difficult passage and move to the whole, a good interpreter of the Scriptures will read and interpret this particular text in light of the whole — that is, in light of other passages that help finding the meaning of an obscure passage.

Final Considerations

Luther presents a deep reverence to the Word of God that reflects a submission to the text written in the biblical account. Such hermeneutical principle led him to adapt himself to the text rather than adapting the text to his personal/human perspective. Such reverence and submission, as well as his trust in the effectiveness and trustworthiness of God’s Word, led him to read the account in Genesis not as fiction or poetry or even as an allegory that pointed to some deeper meaning of the creation of the world. Instead, he read the text as a historical account of how heaven and earth were created, account given by Moses to the uneducated people of his time. Today, this same hermeneutical principle continues to guide those who follow his tradition of biblical interpretation. Even if it is too much for us to understand, we ought to trust that what the Word described is the historical truth of what happened in the beginning of the world. In the midst of so many views that try to lead us away from such perspective and consequently away from the text, Luther’s posture before the Word of God is a good reminder to all theologians and biblical interpreters of how we should portray ourselves as readers of the Holy Scripture — that is, to trust God’s Word rather than our own human thoughts and knowledge. May God grant us such humbleness and wisdom.

4 coisas que o cristão precisa saber antes de votar

Esse texto se baseia em uma curta série de vídeos postados no meu canal do YouTube, e reflete brevemente sobre o conteúdo de cada vídeo de uma forma que ajuda o cristão a exercer a sua vocação de votar nessa próxima eleição.

As eleições est˜ão chegando, e mais uma vez o cristão é chamado a exercer uma das suas principais vocações cristãs em meio à uma democracia: votar. No entanto, a responsabilidade que cada cristão encontra ao votar é frequentemente desconhecida em nossas igrejas e círculos cristãos. Votar é visto como algo que fazemos como cidadãos, não como cristãos. Mas, será que o voto de um cristão realmente não tem nada a ver com a fé que confessada em Cristo?

Nessa semana, eu postei uma pequena série de vídeos no meu canal do YouTube, e cada um desses vídeos trata de uma confusão comum entre cristãos em relação ao exercício de votar nas eleições.

1. Uma Vocação Cristã

A primeira coisa que um cristão precisa saber antes de votar é que ele estará exercendo uma vocação cristã diante da urna nesse próximo domingo.

Votar é uma vocação cristã | Cristão na Mídia — YouTube

Votar não é apenas algo que as leis do Brasil obrigam o cristão a praticar a cada dois anos. Ao invés disso, votar é uma oportunidade do cristão de cuidar da criação de Deus e amar o próximo que está em necessidade. E é por isso que votar é uma vocação cristã.

De acordo com a teologia luterana, principalmente vista nos escritos de Lutero, uma vocação é um chamado divino de Deus para as suas criaturas redimidas para servir o nosso próximo. Nessa vida, um cristão possui várias vocações ou chamados de Deus, tais como ser marido, esposa, pai, mãe, estudante, professor, etc. e, em cada uma dessas vocações, a ênfase não é o benefício próprio, mas sim o benefício do nosso próximo que precisa do nosso serviço. Assim, o marido busca o benefício da sua esposa e faz tudo o que ele pode na sua vocação como marido para amar ela e buscar o bem dela. O mesmo funciona para uma esposa em relação ao seu marido. Um professor ensina buscando o benefício do seu aluno a fim de que esse possa ser preparado para servir a sociedade em geral, enquanto um estudante cumpre a sua vocação de estudante ao se preparar da melhor forma possível a fim de servir o seu próximo em sua profissão no futuro emprego.

Ao aplicarmos isso para a prática de votar em eleições, o cristão reflete esse chamado de Deus para servir o próximo e cuidar daqueles que estão em necessidade. Especificamente, o cristão não vê o seu voto como algo sem importância, muito menos como algo que vai beneficiar ele mesmo durante os próximos anos. Mas, pelo contrário, o cristão entende que votar é uma vocação, isto é, um chamado de Deus para o benefício do nosso próximo.

Isso significa que o cristão irá buscar a sabedoria de Deus para exercer essa vocação.

2. Em quem eu devo votar?

Entender o seu voto como uma vocação ou chamado de Deus para amar o próximo e cuidar de tudo o que Ele criou evoca a pergunta sobre em quem eu devo votar. Afinal de contas, se eu devo votar de acordo com a vontade de Deus com a finalidade de beneficiar o meu próximo, em quem ou devo votar?

Em quem eu devo votar? | Cristão na Mídia — YouTube

Como eu falo no vídeo acima, escolher um candidato para confiarmos o nosso voto não deve ser algo feito de uma forma vaga ou mesmo sem a devida reflexão. O cristão não vota em alguém só porque é seu amigo ou conhecido; ele também não vota em alguém só porque os seus amigos vão votar naquele candidato; e o cristão não vota visando o seu benefício próprio.

Não. Escolher um candidato deve ser feito com base no seu plano de governo e ênfases para ajudar o próximo que está em necessidade.

Votar não é algo que o cristão faz com base na sua opinião pessoal, nem posição política, muito menos visando o seu benefício próprio.

Ao votar, o cristão olha para a realidade que ele encontra ao seu redor e se pergunta, “como eu posso ajudar o meu próximo por meio do meu voto?”

3. Cristão deve votar em candidato cristão?

Não. Embora um cristão possa votar em um candidato cristão, o motivo para esse voto não é simplesmente o fato que um candidato confessa a fé cristã, mas sim o fato que os projetos de governo e as ênfases desse candidato refletem a vontade de Deus para um governante desse mundo.

Cristão vota em cristão? | Cristão na Mídia — YouTube

Muitas vezes a falta de conhecimento sobre a vocação e chamado divino para votar leva um cristão a achar que a melhor coisa que ele pode fazer em uma eleição é votar em alguém que é cristão. No entanto, o fato de um candidato ser cristão não significa que o mesmo reflete a vontade de Deus para um governante. Especificamente, alguém que vai servir o bem comum, buscar justiça aos injustiçados, ajudar os que mais enfrentam necessidade, entre muitas outras coisas que são enfatizadas na vontade de Deus que encontramos nas Escrituras.

Infelizmente, eu reconheço que dificilmente um candidato irá refletir toda a vontade de Deus para a sua criação, e isso leva à tentação de pensar, “ah pelo menos esse candidato aqui é cristão!”

Eu entendo esse pensamento, mas devemos relembrar que votar precisa ser algo que refletimos à luz da vontade de Deus, e isso significa voltar à palavra de Deus e ver qual dos candidatos reflete mais aquilo que Deus quer para esse mundo.

No final, a decisão é pessoal, e a responsabilidade é de cada cristão. Por isso, ore para que Deus te dê sabedoria na hora de votar. Leia sobre os projetos de governo e ênfases dos candidatos. E escolha um candidato que você acredita que vai refletir mais a vontade de Deus no seu município, estado, ou país.

4. Cristão de verdade não vota na…

O quarto e último ponto que eu quero enfatizar nesse texto é em relação à muitas informações mentirosas e falsas que eu tenho visto na internet nos últimos tempos. Essas informações estão relacionadas à pergunta, “cristão vota na Esquerda ou na Direita?”

Cristão vota na Esquerda ou na Direita? | Cristão na Mídia — YouTube

Essa parte é um pouco polêmica. Isso porque muitos cristãos parecem estar convencidos que um “cristão de verdade” não pode votar em candidatos ou da Esquerda ou da Direita. No entanto, o que faz um candidato ser bom ou ruim não é ser de Esquerda ou de Direita, mas sim a intenção desses candidatos de servir os necessitados e cuidar da criação de Deus.

Como um irmão cristão afirmou essa semana em suas redes sociais, não acredite em informações que você recebe em grupos de WhatsApp ou mesmo notícias tendenciosas que estão em todas as partes das redes sociais atualmente. Ao invés disso, leia bons livros e se baseie na vontade de Deus que te chama para votar para o bem do seu próximo que está em necessidades.

Algumas sugestões para leitura:

Wholly Citizens, do teólogo luterano Joel Biermann — obra em inglês! — (https://www.amazon.com/Wholly-Citizens-Realms-Christian-Engagement-ebook/dp/B071Y46Y7R)

Espiritualidade da Cruz, do Gene Edward Veith Jr, disponível na Editora Concórdia (https://www.editoraconcordia.com.br/produtos/produto/id/2406/titulo/espiritualidade-da-cruz)

“Da Liberdade Cristã,” do reformador Martinho Lutero — disponível gratuitamente nesse link aqui — (https://issuu.com/unique-creations/docs/a-liberdade-crista-issuu)

Além dessas obras, há várias outras que dão uma perspectiva muito ampla sobre a vocação e vida cristã diante do voto eleitoral.

O que é importante ser destacado é que o cristão é justificado pela fé em Cristo, e o que faz ele ser um “cristão de verdade” não é votar para a Esquerda ou para a Direita, mas sim tudo aquilo que Cristo fez para a salvação e redenção do cristão. Ao pensarmos na vida cristã, o cristão reflete o comando de Deus de ser um sacrifício vivo que serve o próximo em tudo o que faz. E é isso que orienta o voto do cristão em uma eleição.

Palavras finais

Falar sobre a participação do cristão em assuntos Políticos é algo muito frágil na nossa igreja atualmente. Se alguém discorda de uma opinião sobre o assunto, é comum observar um cristão duvidando da fé do seu irmão. Parece que a base da fé cristão se tornou o voto para a Direita ou para a Esquerda. E isso é profundamente lamentável, e completamente errado.

Cada vez mais vejo a necessidade de falar sobre esse assunto, mas a cada palavra que eu pronuncio sobre o mesmo é uma comprovação que a igreja não está preparada para esse tipo de conversa. Parece que a posição política se tornou um novo ídolo que cristãos estão adorando hoje em dia ao invés de adorar o Deus que os criou e os redimiu por meio do seu Filho. E isso é uma realidade que eu não quero para a minha igreja, e algo que eu não desejo para os meus irmãos e irmãs em Cristo.

Ao abordarmos e refletirmos sobre esse assunto, precisamos lembrar que o objetivo não é estar certo, mas sim ser e permanecer fiel ao testemunho bíblico. Ser de Esquerda ou de Direita não faz alguém mais cristão ou menos cristão, muito menos faz alguém ser cristão ou não. O que torna e faz alguém ser cristão é a obra do Espírito Santo de matar o pecador e dar vida a uma nova criatura que vive pela fé em Cristo. Qualquer coisa além disso é ter um conceito errado sobre ser cristão.

Portanto, eu oro para que Deus dê sabedoria a todos os cristãos e todos os pastores para refletir sobre o assunto com sabedoria, seguindo a orientação do Espírito Santo e não a sua ideologia política. Não é algo fácil, mas é algo que certamente precisa ser feito diante do contexto que vivemos.


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A Bancada Evangélica Realmente Representa os Cristãos na Atual Política Brasileira?

A “bancada evangélica” é considerada por muitos como os representantes dos cristãos na política atual do Brasil. Mas, será que esses parlamentares realmente representam os cristãos na atual política brasileira?

No vídeo dessa semana eu abordo essa pergunta que, ao meu ver, precisa ser refletida por todos os cristãos no Brasil. Assista o vídeo abaixo, ou clique aqui para assistir no YouTube.

Vídeo sobre a Bancada Evangélica no Cristão na Mídia, YouTube.

Nesse vídeo, eu observo que desde a sua criação em 2003 a postura e função da bancada evangélica no Congresso Nacional não tem sido tão “cristã” como muita gente acredita. Isso porque os membros da bancada evangélica têm provado serem tão corruptos como qualquer parlamentar que não é evangélico. Já durante o primeiro mandato em que o grupo foi criado (2002-2006), vários membros da bancada evangélica foram condenados ou processados por envolvimento no escândalo do Mensalão e máfia das ambulâncias, além de vários outros casos de propina, desvio de dinheiro, formação de quadrilha, sonegação de imposto, entre outros vários crimes de corrupção.

Embora alguém possa responder que tal postura é apenas uma realidade do passado, a postura dos atuais membros da bancada evangélica tem mostrado que pouca coisa mudou. Por exemplo, o atual líder da bancada evangélica no Congresso, Sílas Câmara, já “foi acusado de apropriação indevida, de falsificação de documentos, de empregar funcionários fantasma, de corrupção passiva, entre outros.”

Outro exemplo de postura corrupta não-cristã ganhou repercussão nacional recentemente, quando a deputada Flordelis foi presa como principal suspeita de liderar o assassinato do próprio marido, o qual era pastor. Segundo várias fontes da internet, a deputada haveria afirmado que não podia se separar do marido porque isso traria desonra para Deus. Ironicamente, a deputada não acha que assassinar o marido traga desonra para Deus.

Posturas como essas refletem o que autores já apontaram em publicações recentes, como é o caso da jornalista Andrea Dip em seu livro Em Nome de Quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder, que os projetos desse grupo de parlamentares demonstram interesse não em apoiar ou promover valores e princípios cristãos, mas sim usar o apoio do eleitorado cristão para conseguir uma única coisa: poder. Como o historiador Guilherme Galvão observa,

“Ao analisarmos o comportamento da representatividade evangélica no Congresso Nacional, é possível constatarmos, de certo modo, que ela não faz jus às demandas deste importante segmento social. Majoritariamente ausente, de produção legislativa pouco relevante, infiel partidariamente, envolvida em diversos inquéritos e processos judiciais de naturezas diversas, financiada por grandes corporações, dentre elas a farmacêutica e a bélica , a atuação da bancada evangélica no corte temporal aqui representado (1982-2006) foi no sentido de enfraquecimento do papel do Estado diante das demandas sociais de seus eleitores, no caso, as camadas sociais menos favorecidas da população brasileira 9 10, posicionando-se contra programas de distribuição de renda e denunciando o “Estado paternalista”, apresentando propostas e votando favoravelmente à educação privada, planos de saúde, agronegócio, empresas de vigilância, sindicatos patronais, empresas de comunicação e ao lobby das indústrias farmacêutica, bélica, petroquímica e alimentícia.”

Lopes, 2015, p. 4.

O historiador conclui,

“De certo modo, podemos inferir que a maioria da bancada evangélica não defende os interesses de seus representados, mas os interesses de grupos alheios a este segmento, utilizando temas morais e religiosos apenas como pano de fundo para outras atividades.”

Lopes, 2015, p. 5.

Essencialmente, a bancada evangélica representa não a fé cristã ou aqueles que confessam essa fé, mas representam apenas o seu interesse próprio que é motivado por uma busca incessante de poder, pelo qual estes buscam não o bem comum de todo o país mas sim o bem de setores empresariais de renda multibilionário.

Não, a bancada evangélica não representa os cristãos. Eles não buscam implantar valores e princípios cristãos, mas sim trazem vergonha para a fé cristã e se tornam um desserviço à missão da Igreja Cristã no Brasil.

Assim, é importante lembrar que votar em um candidato cristão não significa que você terá um representante cristão no governo. Se você é cristão, você vai apoiar valores e projetos cristãos não candidatos cristãos. Esses dois aspectos podem até ser interligados, mas nem sempre é algo óbvio. Ser cristão em meio à atual realidade do Brasil não significa simplesmente apoiar cristãos nominais na política, mas sim pessoas que refletem princípios e valores cristãos para o bem comum da população e de toda a criação de Deus.


Referências consultadas:

“Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional.” (https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54010).

“Bancada Evangélica.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Bancada_evang%C3%A9lica).

“Vinde a mim os eleitores: a força da bancada evangélica no Congresso.” (https://veja.abril.com.br/politica/vinde-a-mim-os-eleitores-a-forca-da-bancada-evangelica-no-congresso/).

“Bancada BBB.” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Bancada_BBB).

Guilherme Esteves Galvão Lopes. “Por que os evangélicos não mudaram o Brasil? Análise histórica da atuação evangélica no Congresso Nacional (1982-2006).” (http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1434399809_ARQUIVO_PorqueosevangelicosnaomudaramoBrasil.pdf).

“Bancada Evangélica: qual a contribuição para a política nacional?” (https://comunhao.com.br/bancada-evangelica/).

“Silas Câmara vai liderar Bancada da Bíblia.” (https://www.dn.pt/mundo/silas-camara-vai-liderar-bancada-da-biblia-10734395.html).

“Em nome de Deus, a canalhice é santificada.” (https://www.metropoles.com/disse-mina/em-nome-de-deus-a-canalhice-e-santificada).

“Após veto, Bolsonaro convida parlamentares evangélicos para almoço.” (https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/09/15/apos-veto-bolsonaro-convida-parlamentares-evangelicos-para-almoco).

“Na primeira audiência do ano, Papa diz que é melhor ser ateu do que cristão hipócrita.” (https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/01/02/na-primeira-audiencia-semanal-do-ano-papa-diz-que-e-melhor-ser-ateu-do-que-cristao-hipocrita.ghtml).

Early Christian Creeds – J.N.D. Kelly | Book Review

Esse texto oferece um “book review” ou resenha do livro Early Christian Creeds do teólogo britânico John Norman Davidson Kelly. Embora tenha sido publicado há mais de 70 anos atrás, esse livro continua sendo citado em publicações teológicas e usado em salas de aula de teologia ao redor do mundo. Isso demonstra que esse livro é um “clássico” na área de teologia, além de ser um excelente recurso para qualquer cristão interessado em saber mais sobre a história do desenvolvimento e uso dos credos da Igreja Cristã.


Book Review no YouTube. (Clique aqui para assistir no YouTube.)

O livro Early Christian Creeds oferece uma análise histórica do desenvolvimento e uso dos credos cristãos nos primeiros séculos da Igreja Cristã. Esta análise inclui fórmulas confessionais desde o tempo dos apóstolos no primeiro século até as fórmulas oficiais da Igreja em uso no final do primeiro milênio da era cristã.

O livro inicia apontando para as fórmulas que são encontradas no Novo Testamento, aspecto de muita importância porque demonstra que as fórmulas trinitárias desenvolvidas e usadas até hoje nos credos não são meras invenções dos pais da Igreja mas refletem o ensino que encontramos em nossas Bíblias. Além da clássica passagem trinitária da comissão dos apóstolos no final do evangelho de Mateus, Kelly aponta para algumas passagens cruciais para o ensino da Trindade, principalmente nas cartas do apóstolo Paulo, tais como:

“[Vocês] foram lavados do pecado, separados para pertencer a Deus e aceitos por ele por meio do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus.”‬‬

1Coríntios 6:11, NTLH

Além disso, o livro também mostra que os primeiros credos usados na Igreja primitiva não eram “credos declaratórios” como nós temos hoje em dia, mas sim eram fórmulas usadas na instrução dos catecúmenos nos primeiros séculos da Igreja. Em outras palavras, eram confissões de fé usadas no ensino de pessoas que queriam se tornar cristãs por meio do Batismo. Assim, estas primeiras fórmulas confessionais eram relacionadas com ao rito do Batismo desses catecúmenos, onde apareciam em forma de perguntas, tais é relatado em um tratado teológico do quarto século, onde o autor lembra o seu leitor da fé na qual ele havia sido batizado dizendo,

“Você foi perguntado, ‘você acredita em Deus o Pai todo-poderoso?’ Você disse, ‘eu acredito’, e você foi imerso [na água], isto é, foi sepultado. Novamente, você foi perguntado, ‘você acredita no nosso Senhor Jesus Cristo e na cruz dEle?’ Você disse, ‘eu acredito’, e foi imerso. Então você foi sepultado juntamente com Cristo; pois aquele que é sepultado juntamente com Cristo ressuscita de novo com Ele. Uma terceira vez você foi perguntado, ‘você acredita também no Espírito Santo?’ Você disse, ‘eu acredito’, e uma terceira vez você foi imerso, de uma forma que a sua tripla confissão apagou as múltiplas falhas da sua vida anterior [ao batismo].”

De Sacramentis, citado em Early Christian Creeds, Kelly, p. 37. Tradução minha.

Em outras palavras, a fórmula confessional na igreja primitiva tinha a forma de perguntas sobre a fé no Deus Triuno, e uma vez que o candidato confessasse a sua fé em resposta a essas perguntas, elas então eram batizadas e recebidas como novos membros da Igreja.

Esse livro também mostra como estas fórmulas serviam como resumos da mensagem central da fé cristã, e dessa forma se tornaram as primeiras normas de ensino da Igreja primitiva, ajudando na formação do que foi chamado por pais da Igreja como Santo Irineu de regula fidei, isto é, a “regra de fé”, a qual era tida como sido entregue pela igreja desde os tempos dos apóstolos.

Um dos aspectos mais legais desse livro é, na minha opinião, que o autor dedica um capítulo do livro para apresentar várias fórmulas dos credos primitivos, tanto da igreja do Oeste como do Leste. Assim, esse livro te dá acesso a várias fórmulas de fé de igrejas locais que eram usados na Igreja primitiva, tanto em latim como em grego.

Uma dessas fórmulas é a escrita pelo Concílio de Nicaea em 325, a qual eu reproduzo aqui:

Early Christian Creeds, p. 215-216.

Esse aspecto faz desse livro um material muito rico, especialmente em relação à história do desenvolvimento dos credos que até hoje nós confessamos na Igreja.

Outro detalhe muito bom do livro é a contextualização de Concílios fundamentais na história da fé cristã, como é o caso do Concílio de Nicaea e a formulação do Credo Niceno. O livro desenvolve o que levou a igreja a convocar concílios e fixar credos oficiais para combater heresias como o Arianismo. Um detalhe legal dessa contextualização é que o livro explica a importância de termos como o termo grego homoousios (ὁμοούσιος) que significa “mesma substância”, o qual foi usado pelos 318 bispos reunidos em Nicaea para defender a divindade do Filho de Deus no concilio de 325.

O livro ainda continua mostrando como o Credo Niceno veio a ser usado como fórmula oficial da Igreja, bem como o surgimento do Credo Apostólico e o seu uso na Igreja de Roma como credo oficial.

De uma forma geral, esse livro é excelente! Eu recomendo ele para qualquer pessoa interessada em saber mais sobre os credos cristãos. Infelizmente, ele nunca foi traduzido para o português, e para tirar proveito de todo o conteúdo—como as fórmulas em latim e grego—você precisa ter pelo menos um conhecimento básico dessas línguas.

Se você gosta de patrística, esse é um livro que você tem que ter na sua biblioteca. Se você pensa em comprar, você pode clicar nos dois links aqui embaixo que vão te encaminhar para o site da Amazon no Brasil, que foi o único lugar que tem o livro à disposição para venda no Brasil.

Esse foi o meu review do livro Early Christian Creeds do John Norman Davidson Kelly. Obrigado por ler esse review e assistir o vídeo no YouTube. Até o próximo!

Suicídio: Como Ajudar, Identificar, e Prevenir?

O suicídio mata milhões de pessoas todos os anos no mundo, e muitas vezes aqueles que estão ao redor de pessoas com pensamentos suicidas não estão preparados para reconhecer ou ajudar essas pessoas que estão enfrentando problemas com o suicídio.

Nesse texto eu vou compartilhar algumas dicas sobre como identificar pessoas que estão considerando o suicídio, bem como maneiras de você ajudar essa pessoa. Em especial, esse texto pode ser de grande ajuda para pastores, os quais muitas vezes são as pessoas procuradas por aqueles que consideram o suicídio. Afinal, como podemos ajudar as pessoas ao nosso redor em relação ao suicídio?

Essa semana eu publiquei um vídeo falando um pouco sobre o tema. Clica e assista abaixo.

Setembro Amarelo | Cristão na Mídia, YouTube

Na descrição desse vídeo no YouTube você pode encontrar recursos para saber mais sobre como previnir e lidar com o suicídio.

Um desses materiais que está disponível em um dos links desse vídeo é um livreto da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o qual oferece muita informação sobre como identificar e ajudar pessoas que estão considerando o suicídio.

Um dos aspectos mais importantes que esse livreto da ABP destaca é a necessidade de ouvir e buscar entender as emoções, sentimentos, e tudo aquilo que está acontecendo com a pessoa diante de nós, a qual está buscando ajuda para a dor e o sofrimento que ela está sentindo. Dessa forma, vemos aqui um dos aspectos principais e ao mesmo tempo mais básico do aconselhamento pastoral (ou mesmo de um bom relacionamento humano), o qual é saber ouvir alguém com paciência, com atenção, com interesse, com carinho e amor.

Tal ouvir não é simples. Isso porque normalmente ouvimos as aflições de outras pessoas com curiosidade e não com a atenção necessária. Frequentemente, ouvimos outra pessoa com o simples objetivo de responder com algum comentário inteligente, ou mesmo a fim de oferecer uma solução para o problema que está sendo compartilhado conosco. Ouvir com atenção, paciência, e carinho, não segue esse padrão. Saber ouvir nesse contexto significa abrir bem os ouvidos e entender a dor, o sofrimento, a angustia, as expectativas, as frustrações, a esperança, a falta de esperança, etc. Em poucas palavras, ouvir dessa forma exige prestar atenção a toda a história da pessoa por amor a ela, não a nós mesmos.

Por que ouvir essa forma é importante? Porque ouvir e demonstrar que você realmente está ouvindo a fim de entender, cuidar, e ajudar a pessoa pode ser uma das fases mais importantes em ajudar alguém que está sofrendo e considerando o suicídio. Segundo a ABP, é através desse ouvir ou contato verbal que uma pessoa pode sentir alivio ou esperança que alguém pode ajudar, ou desistir achando que ninguém é capaz de trazer alívio. Como a ABP afirma,

“O manejo [de uma situação de suicídio] se inicia durante a investigação do risco. A abordagem verbal pode ser tão ou mais importante que a medicação. Isso porque faz com que o paciente se sinta aliviado, acolhido e valorizado, fortalecendo a aliança terapêutica.”

Suicídio: Informando Para Previnir, 29. (Clique aqui para acessar o livreto da ABP.)

A importância dessa abordagem verbal já foi ilustrada até mesmo em séries de TV com muita repercussão. Provavelmente a mais conhecida aconteceu na série “13 Razões Porque” (13 Reasons Why) da Netflix. Nessa série, uma jovem adolescente procura ajuda de um profissional terapêutico, o qual não ofereceu este ouvir com atenção que estamos nos referindo aqui. Devido à falta de abertura, a jovem acredita que não há nada a ser feito, e acaba se suicidando.

Por isso, saber ouvir é essencial na prevenção ao suicídio. Em meio à tanta correria do nosso dia a dia que dá uma impressão que não temos tempo para nada, nós precisamos “pisar no freio” e prestar atenção para as pessoas que nós amamos. Aliás, você já parou para ouvir atenciosamente alguém que você ama hoje? Não deixe para começar a fazer isso quando for tarde demais.

Além de ouvir, no entanto, há algumas dicas que a ABP oferece nesse livreto sobre suicídio e prevenção. Uma delas se refere a como investigar se alguém está sob o perigo de suicídio. Nesse caso, é necessário que eu deixe claro que as informações da ABP são para profissionais de saúde que podem não estar preparados para ajudar pessoas que vão até eles pedindo ajuda. Por isso, é necessário ter muito cuidado com informações como essa, especialmente se a considerarmos com uma postura incorreta.

Ao mesmo tempo, a abordagem oferecida pela ABP pode ajudar muito aqueles que encontram pessoas que consideram o suicídio, principalmente em identificar o perigo do suicídio e ajudar essas pessoas a buscarem um especialista que pode continuar a ajudá-las nessa situação. Especialmente, eu acredito que a abordagem oferecida pela ABP para médicos pode ser um grande instrumento para pastores em sua missão de identificar riscos de suicídio entre as pessoas da sua congregação. Isto porque pastores estão frequentemente envolvidos em aconselhamento, e as pessoas de uma congregação normalmente confiam muito em seus pastores. Assim, essas pessoas podem ser muito honestas sobre a sua intenção de suicídio para o pastor, o que exige do pastor ser capaz de ouvir com atenção e identificar o perigo do suicídio, sendo parte crucial na prevenção ao suicídio. Ao mesmo tempo, a ausência dessa identificação pode fazer com que a prevenção se torne mais distante, e o perigo do suicídio pode vir a crescer.

O trecho a seguir faz parte do livreto da ABP que fala sobre como identificar o perigo de suicídio por meio de algumas perguntas.

“O profissional de saúde não deve ficar receoso de investigar se aquele paciente tem risco de suicídio. O tema deve ser abordado com cautela, de maneira gradual. As perguntas devem ser feitas em dois blocos: o primeiro para todos os pacientes, e o segundo apenas para aqueles indivíduos que responderam às três perguntas iniciais que sugerem, pelas respostas, um risco de suicídio.
São seis perguntas fundamentais em cada consulta, sendo três delas para todos os pacientes:
1. Você tem planos para o futuro?
A resposta do paciente com risco de suicídio é não.
2. A vida vale a pena ser vivida?
A resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não.
3. Se a morte viesse, ela seria bem-vinda?
Desta vez a resposta será sim para aqueles que querem morrer.
Se o paciente respondeu como foi referido acima, o profissional de saúde fará estas próximas perguntas:
4. Você está pensando em se machucar/se ferir/fazer mal a você/em morrer?
5. Você tem algum plano específico para morrer/se matar/tirar sua vida?
6. Você fez alguma tentativa de suicídio recentemente?”

Suicídio: Informando Para Previnir, 29-30. (Clique aqui para acessar o livreto da ABP.)

Novamente, precisamos reconhecer que essas perguntas foram formuladas para ajudar profissionais de saúde a identificar pacientes com risco de suicídio a fim de poder auxiliá-los a buscar ajuda profissional de um terapeuta. Qualquer pessoa que não tem o treinamento necessário para fazer esse tipo de abordagem deve ser muito cautelosa ao tentar usar esse material.

No entanto, note a sutileza das três primeiras perguntas. Embora tenham sido preparadas para médicos, a genialidade das perguntas permitem que até mesmo pessoas que não têm treinamento profissional possam identificar se há ou não tendências suicidas em uma pessoa. Isso porque as perguntas podem ser feitas em meio à uma conversas diárias que temos com as pessoas que nos cercam. Especialmente, a primeira pergunta fala sobre os planos par ao futuro, e qual a esperança de vida daquela pessoa com quem estamos conversando. Eu não poderia pensar em uma maneira melhor de introduzir o assunto do que por meio dessa pergunta.

Note também que estamos falando sobre identificar o risco de suicídio a fim de ajudar alguém que está em risco de se suicidar. No entanto, identificar o risco por meio dessas perguntas é apenas parte do que precisamos fazer para ajudar alguém em risco de suicídio. Além disso, é necessário ajudar essa pessoa a encontrar ajudar profissional para que ela possa fazer um tratamento e se sair do risco do suicídio.

Isso é importante porque eu sei que eu não sou capacitado para ajudar alguém a sair do risco de suicídio. Como cristão e teólogo, eu posso e quero orar por alguém sofrendo com os riscos do suicídio, mas sei que somente um profissional da área da psiquiatria pode realmente ajudar essa pessoa com um tratamento específico para a situação. Por isso, se as perguntas podem nos ajudar a identificar alguém com riscos de suicídio, nós então precisamos ajudar essa pessoa também encontrando um profissional que pode ajudar ela.

Assim, há três maneiras que podemos ajudar em uma situação de suicídio:

👉🏼 Ouvindo com atenção, carinho, e cuidado;
👉🏼 Investigando por meio de perguntas que podem apontar para o risco de suicídio;
👉🏼 Encontrando alguém que pode ajudar a pessoa com riscos de suicídio.

Por meio dessas três maneiras, eu e você podemos ajudar na prevenção do suicídio, dando forças e alivio para quem vive ao nosso redor.

Espero que esse texto tenha ajudado você a entender mais e se preparar mais para previnir o suicídio e ajudar as pessoas que estão sob o risco de se suicidar. Não esqueça de conferir o vídeo acima, e visitar o mesmo no YouTube, onde você vai encontrar mais materiais sobre o assunto.

Observação: eu não sou profissional em psiquiatria e não tenho especialidade na área. Esse texto é uma apropriação minha de um material oferecido pela Associação Brasileira de Psiquiatria a partir de uma visão teológica, na qual eu tenho a intenção de ajudar outras pessoas na igreja a se prepararem e contribuirem para a prevenção ao suicídio.