Tempos de COVID-19

Foto: The Guardian

Imagens como esta estão cada vez mais populares em jornais, revistas, e redes sociais. Locais que costumavam estar extremamente cheios e tumultuados—como nas ruas do centro de Nova York (foto acima)—agora estão praticamente desertas. Tudo está diferente. Tudo mudou.

O COVID-19 trouxe uma realidade totalmente diferente para a maioria de nós. Quem ia para o escritório todos os dias, agora trabalha de casa. Quem ia para a faculdade, agora tem aulas virtuais. Quem visitava amigos e família todos os finais de semana, agora mantém contato por ligações de WhatsApp ou através de outras inúmeras plataformas que permitem manter contato com as pessoas que mais amamos. Tudo está diferente. Tudo mudou.

No entanto, esta nova realidade trazida pela pandemia não somente alterou o modo que fazemos algo, mas também trouxe ao fim muitas coisas que fazíamos. Infelizmente, muitos de nós que tínhamos um trabalho agora estamos desempregados; muitos que estudávamos, agora enfrentamos a realidade que talvez teremos aula somente ano que vem. Ainda mais preocupante, muitos que tinham uma fonte de renda para ter o que comer, agora enfrentam a realidade de não ter o que comer ou prover para sua família. Tudo está diferente. Tudo mudou.

Em meio à muitas mudanças e situações diferentes que o mundo inteiro está enfrentando, uma delas afeta também a forma que somos igreja. Desde o início da pandemia, cultos e encontros religiosos têm sido cancelados para evitar a proliferação do virus. Por isso, comunidades cristãs estão realizando cultos de forma online, e mesmo estudos bíblicos em grupos através de plataformas como Zoom ou Google Meeting. O Sínodo que faço parte, por exemplo, tem sabiamente recomendado que congregações evitem cultos presenciais para evitar o avanço do vírus em nossas comunidades. Algo muito sensato, ao meu ver. No entanto, mesmo em nossa prática religiosa vemos que tudo está diferente, que tudo mudou.

O resultado: estamos “exilados” em nossas casas, mais popularmente conhecido como quarentena. Nunca antes foi tão desejado poder sair de casa. Quem não tinha o costume de praticar exercícios físicos agora reclama porque não poder correr no bairro da sua casa. Quem “odiava” o seu trabalho, agora sente falta da rotina de ir trabalhar. Até mesmo quem não gostava de ir à igreja agora sente falta da opção de poder ir ao culto. Não restam dúvidas que esta pandemia e a quarentena que ela trouxe apresenta algo totalmente diferente para nós. De fato, tudo mudou.

Em meio a todos os aspectos diferentes que estamos encontrando durante a quarentena, algo me chama muito a atenção. Em meu círculo religioso, vejo muitos irmãos super ansiosos pela ausência de cultos presenciais, principalmente pelo fato de não estar sendo possível realizar o Sacramento da Santa Ceia. E, honestamente, entendo a preocupação dos meus irmãos cristãos. Isso porque há muito tempo que a tradição luterana tem entendido o Sacramento da Santa Ceia como o centro da vida de culto, bem como a vida cristã como um todo. Esse entendimento não surgiu com a Reforma Protestante, mas vem desde os primeiros séculos da fé cristã, estando presente também na Igreja Ortodoxa e Igreja Católica Romana. De fato, o lugar da Santa Ceia é central para a vida de culto de cristãos. Portanto, e repito, eu entendo a preocupação dos meus irmãos e irmãs sobre a realização e participação deste Sacramento.

Ao mesmo tempo, acredito que seja necessário entendermos o porquê deste Sacramento ter tal centralidade em nosso entendimento de culto e vida cristã. O Sacramento da Santa Ceia é entendido e confessado por cristãos desde o tempo dos apóstolos como um Meio da Graça. O que isso significa? Deus instituiu meios pelos quais ele entregaria os benefícios conquistados por Cristo em sua vida e obra. Estes meios são Palavra e Sacramentos, pelos quais a promessa divina é entregue e passa a ser nossa. Dessa forma, a Santa Ceia é um meio pelo qual Deus nos dá perdão dos pecados, nos redime e refaz, nos tornando uma nova criatura, declarados justos diante do Pai. Tudo isso significa que recebemos salvação e vida eterna quando participamos da Santa Ceia. Da mesma forma, o mesmo vale para os outros Meios da Graça. Em outras palavras, Deus nos dá todos esses benefícios através do Batismo e da Pregação da Palavra.

No Batismo, Deus vem até nos e nos faz dele. Somos feitos filhos e filhas de Deus, herdeiros da salvação e da vida eterna, e recebemos o Espírito Santo, o qual habita em nós e nos forma de acordo com a vontade do Pai. Assim também na Pregação da Palavra. Quando um pastor anuncia a promessa de Deus, aqueles que ouvem e creem pelo poder do Espírito recebem estes benefícios prometidos por Deus através de seu Filho, Jesus Cristo. Ou seja, pela Pregação da Palavra, também recebemos perdão dos pecados, promessa de vida eterna e salvação. Por meio da Pregação, Deus vem até os seus filhos e filhas e entrega todos os benefícios conquistados por Cristo em sua vida e obra.

Por que isso é relevante para esse período de quarentena que estamos vivenciando?

Por mais que não estamos podendo ir à igreja e participar da celebração da Santa Ceia, podemos estar certos que Deus continua vindo até nós por meio da Pregação da Palavra.

Quando a Palavra é proclamada e a promessa divina anunciada na Pregação, Deus entrega a cada um dos seus a sua Graça. Assim, quando um pastor perdoa os pecados confessados por meio de um culto online, os pecados são realmente perdoados! Da mesma forma, quando um pastor anuncia a graça de Deus em Cristo por meio da Pregação, os que ouvem e confiam realmente recebem vida eterna e salvação. Em outras palavras, a Pregação que ouvimos todos os domingos em nossas televisões, computadores, celulares, etc. nos reafirma e renova a promessa que recebemos no nosso Batismo: somos filhos e filhas de Deus, herdeiros da salvação e vida eterna, templos do Espírito Santo. Isso não é uma desvalorização da Santa Ceia. Na verdade, isso ressalta a realidade que temos na Santa Ceia, a qual realmente nos dá a graça de Deus bem como o Batismo e a Pregação da Palavra.

Tudo está diferente. Tudo mudou. No entanto, eu prometo a você que a bondade e a graça de Deus não mudou. Eu sei que tudo o que está acontecendo pode levar você a pensar que a quarentena tirou tudo de você, e que não há esperanças de melhoras, e que o COVID-19 privou você até mesmo de receber a graça de Deus no Sacramento. Mas, eu te digo: isso não é verdade. Mesmo que tudo se vá e que tudo mude, o amor e cuidado de Deus por você continua. Você pode até estar sendo privado de participar na Santa Ceia, mas Deus vem até você por meio da sua Palavra pregada e renova a sua promessa feita no Batismo: “você é meu!” Assim, Deus Pai te entrega todos os benefícios conquistados por Cristo, e derrama sobre você o Espírito Santo, renovando a sua fé, fortalecendo-a, e te entregando a promessa da vida eterna. Como o apóstolo Paulo escreve aos Romanos,

Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá nos separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Romanos 8.38-39 (NAA)

Nem tudo mudou. Enquanto tudo o que fazemos e como fazemos pode mudar, o amor de Deus não mudou em meio à quarentena. Ele continua vir até nós por meio da sua Palavra, e assim ele continuará fazendo até que tudo seja refeito.

Fique com a certeza que Deus Pai, Filho, e Espírito Santo está com você. Com COVID-19 ou sem. Hoje e sempre.

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