O Pastor e a Política

Se a Igreja faz Política, então os pastores da Igreja também fazem Política. A questão é: como o pastor faz Política? Acredito que há diferentes maneiras de responder essa pergunta. Minha intenção com esse texto é oferecer uma, a qual procede dos textos anteriores que postei aqui no blog.

Primeiramente, é necessário reconhecer que “fazer Política” não é algo próprio nem da Igreja nem dos pastores. Isto porque a função da Igreja e dos seus ministros (pastores) é administrar o Governo Espiritual de Deus. Especificamente, o poder e função dados por Deus à Igreja e seus ministros é de “pregar o evangelho, perdoar e reter pecado, e administrar e distribuir os sacramentos” (Confissão de Augsburgo, XXVIII). Em outras palavras, a tarefa de criar e prescrever leis para a sociedade e tudo o que envolve assuntos seculares não faz parte do que foi comandado como parte da função e poder da Igreja e dos seus ministros. Como expliquei anteriormente, essa tarefa e poder pertence ao Governo Temporal e seus ministros—isto é, reis, ministros, presidentes, governadores, etc. Estes são os responsáveis por fazer Política no sentido de cuidar e proteger tudo e todos, promovendo o bom funcionamento da sociedade e do mundo como um todo.

Quando estes dois Governos estão funcionando de acordo com a vontade de Deus, tudo vai bem na criação. Isso porque em um contexto em que os dois Governos agem de acordo com a vontade e comando divino, tanto a Igreja como o Estado fará sua função de maneira sábia e justa, o que significa que a Igreja irá pregar o evangelho, perdoar e reter pecados, e administrar os sacramentos de acordo com a vontade de Deus. Similarmente, o Estado irá governar de maneira justa, criando e promovendo leis que protejam todos os habitantes, e tudo isso sem opressão e corrupção.

O problema é que muitas vezes há corrupção e abuso nestes Governos. Nos últimos tempos, temos visto muitos casos de corrupção e abuso no Governo Temporal, especialmente no Brasil. No entanto, há também muitos casos de corrupção e abuso no Governo Espiritual, onde a Igreja passa a pregar outra mensagem que não é o evangelho, ou coloca empecilhos para perdoar e reter pecados, ou ainda administra os sacramentos de uma forma não comandada por Deus. Quando isto acontece, o Governo que está sob corrupção e abusos precisa de ajuda, e o responsável de apoiar o Governo em necessidade é o outro Governo. O que exatamente quer dizer isso? Eis um exemplo: se o Governo Temporal está sofrendo com casos de corrupção, é parte do dever do Governo Espiritual prover o apoio necessário. Isso definitivamente não quer dizer que a Igreja deve aprovar a corrupção do Estado. Isso seria um absurdo e completamente contrário à vontade divina. Pelo contrário, é parte da tarefa da Igreja como Governo Espiritual prover correção e orientação ao Governo Temporal para que este possa voltar a funcionar de acordo com a vontade divina.

Considere o seguinte caso: digamos que o prefeito do seu município usa um projeto da prefeitura local para desviar dinheiro e fundos públicos. Esse é um exemplo claro (e infelizmente comum) de corrupção e abuso do poder do Governo Temporal. Diante de tal situação, o que a Igreja e os seus pastores devem fazer?

Se o que eu tenho explicado em meus textos até agora está correto, o pastor daquele município deve criticar, denunciar, corrigir, e oferecer orientação ao prefeito que se envolveu com tal caso de corrupção. Por quê? Primeiramente, porque o prefeito desse município está abusando do poder dado a ele como líder do Governo Temporal nesse município. Ao invés de usar o poder conferido a ele para o bem comum e o bom funcionamento de todo o território que ele supervisiona, ele usou tal poder para fins próprios que afetam toda a população. Ao mesmo tempo, o pastor deve fazer isso porque faz parte do seu ministério. Como assim?

No início desse texto eu expliquei que a função própria da Igreja e seus pastores é pregar o evangelho. Isso significa que a função do pastor é anunciar a vontade de Deus para a sua criação. Certamente, a principal ênfase desse anúncio feito pelo pastor é referente ao evangelho de Jesus Cristo—sua vida, ministério, morte, e ressurreição para a redenção e salvação de todo o mundo. No entanto, tal ênfase não impede e de forma alguma proíbe que o pastor aborde temas cotidianos que são de suma importância para a comunidade local. Em outras palavras, a vontade de Deus é sim que todos se arrependam, creiam, e sejam salvos através do evangelho revelado em Cristo. No entanto, reduzir a mensagem e vontade divina a essa parte é no mínimo problemático para a Igreja. Note que eu não estou dizendo que a pregação do evangelho da salvação por meio de Cristo deve ser substituída por uma mensagem de correção a líderes do Governo Temporal. De forma alguma! O que eu estou dizendo é que também faz parte da função do pastor abordar problemas e assuntos da sua comunidade porque Deus também tem algo a dizer a respeito desses assuntos. Assim, o pastor tem também o dever de pregar a vontade divina em assuntos relacionados a Política.

“OK,” você deve estar pensando; “talvez isso tudo faz sentido. Mas, você ainda não respondeu ‘como’ os pastores fazem Política.” Bem observado. De fato, ainda não respondi essa pergunta especificamente. No entanto, eu acredito que chegamos no ponto em que posso abordar esse aspecto mais diretamente.

O pastor faz Política de acordo com a vontade de Deus.

Essa afirmação é extremamente vaga, eu admito. Por isso, eu vou usar o resto dessa postagem explicando o que eu quero dizer com ela. Como vimos acima, faz parte do papel do pastor abordar assuntos do Governo Temporal; no entanto, ele faz isso à luz da revelação divina. Em outras palavras, o pastor aborda assuntos seculares da mesma forma que ele aborda assuntos espirituais: não de acordo com sua opinião ou idéias próprias, mas sim de acordo com a Palavra de Deus.

Assim como o pastor prega o evangelho, perdoa e retém pecados, e administra os sacramentos de acordo com a vontade e revelação divina, assim também ele aborda assuntos relacionados à Política. Isso significa que quando o pastor provê críticas, denúncias, correções, e orientações para o Governo Temporal, ele faz tudo isso expressando apenas aquilo que Deus revelou como sua vontade para o Governo Temporal. Em outras palavras, o modelo que um pastor usa para fazer Política é o mesmo que ele usa para pregar o evangelho: a Palavra de Deus.

O que isso significa?

Isso significa que pastores nunca pregam sua opinião própria.

Pregar a sua opinião pessoal não deve ser uma opção para ministros da Igreja. De fato, isso é inadmissível tanto em relação ao Governo Espiritual quanto em relação ao Governo Temporal. O que pastores falam deve refletir a vontade divina, e nada mais. No caso do Governo Espiritual, tal pregação usa Lei e Evangelho, pelos quais o pastor proclama o mandamento divino, condena pecados, chama pecadores ao arrependimento, e proclama a promessa do evangelho que perdoa, restaura, e salva aqueles que creem. No caso do Governo Temporal, tal pregação usa a Lei de Deus revelada para a sua criação, a qual reflete a vontade divina para o funcionamento de tudo o que ele criou e mantém. Assim, o pastor aborda assuntos relacionados à Política a fim de pronunciar a vontade de Deus. Isto guia o pastor a criticar líderes não porque ele não gosta dos atuais líderes do Governo Temporal, mas sim porque tais líderes não estão agindo de acordo com o mandamento de Deus para a sua função, bem como dar orientação para que os mesmos líderes tornem a fazer aquilo que Deus chamou eles à fazer.

Outra forma de explicar como o pastor faz Política é refletindo como não se deve fazer Política. Como disse acima, um pastor não faz Política com base na sua opinião. Se tudo o que um pastor tem a dizer em relação à Política é sua opinião, que esse fique em silêncio! Isto deveria servir também em relação ao evangelho. Repito, não há espaço para opinião própria na pregação de um pastor. Como teólogo, um pastor pode considerar e dar opiniões sobre algo que não foi decidido ainda pela Igreja, ou assuntos não pertinentes à confissão de fé. No entanto, em relação ao que foi revelado, o pastor prega a vontade de Deus e não a sua própria vontade. Ponto.

Um pastor também não faz política partidária. Como expliquei em outro texto, política com “p” minúsculo não é feita pela Igreja. Isso porque a Igreja se preocupa com o comando dado por Deus ao Governo Espiritual, e quando necessário se preocupa com o bem do Governo Temporal como um todo—isto é, com o bom funcionamento da criação, com o bem comum das pessoas e ambientes (urbano e natural), etc. Assim, não faz parte da função da Igreja se preocupar se um determinado partido político está à frente do Governo Temporal. Da mesma forma, a Igreja e os seus pastores não se associam com um determinado candidato político, não importa quem ele seja! Nesse sentido, admito que sinto vergonha e muita frustração de ver pastores da Igreja se associando com certos candidatos ou partidos políticos. Muitos fazem postagens de apoio, postam fotos de si mesmos fazendo gestos associados a candidatos políticos, discursam ódio contra pessoas que discordam da sua opinião política—muitas vezes até mesmo contra seus membros da congregação ou colegas de ministério. Tal atitude é vergonhosa, contrária à postura cristã, ao ministério pastoral, e certamente à vontade divina. Pastores que fazem Política desta forma desonram o chamado que receberam para serem ministros da Igreja de Deus.

Isso não significa que pastores não possuem o dever de oferecer orientação para seus membros em assuntos Políticos. De fato, ficar em silêncio não pode ser uma opção. Como um ditado popular sugere, “quem cala, consente.” Por isso, um pastor não deve se calar diante de abusos e problemas no Governo Temporal. Conforme o chamado que recebeu para anunciar a vontade divina, se Deus tem algo a dizer sobre um assunto, tal palavra deve ser anunciada! O pastor é um porta-voz da Palavra de Deus, e se Deus revelou a sua vontade para o Governo Temporal, é dever do pastor anunciar esta vontade. Por vezes isto pode produzir um ambiente muito desconfortável na congregação cristã, ainda mais diante do contexto que vivemos em que assuntos relacionados à Política parecem ser proibidos dentro da Igreja. Certamente o motivo de tal postura são os frequentes erros de pastores e membros da comunidade cristã de abordar Política do ponto de vista próprio baseado em suas opiniões pessoais ao invés de considerar algo do ponto de vista da vontade divina. No entanto, é necessário retornar a um correto entendimento de como fazer Política a fim de que possamos falar e ouvir a vontade de Deus para o seu povo que vive em meio a sociedade.

O teólogo Joel Biermann aborda o que tenho escrito até aqui de maneira clara e concisa em seu livro Wholly Citizens. Ele escreve,

O que Deus tem a dizer deve ser dito, e isto precisa ser dito particularmente para o seu povo; esta é a vocação do pastor, e este é um tópico que merece ser abordado no púlpito. Naturalmente, os detalhes específicos de tal pregação variam muito de acordo com a época e o local para que esta pregação seja precisa. No entanto, o que é crítico sempre é que a verdade de Deus a respeito de um tópico seja anunciada para que o povo seja formado no correto pensamento sobre este e outros tópicos relacionados. Este não é o momento para o pastor expressar seu sentimento ou opinião pessoal—na verdade, é questionável se há algum momento em que isso seja aceitável no púlpito. Pelo contrário, o pastor fiel fala com confiança sobre a sabedoria e direção de Deus para o correto funcionamento do mundo e não hesita em apontar quando tal funcionamento é ameaçado ou violado por causa de ações, omissões, práticas, ou legislações do governo.

Dessa maneira, Biermann continua,

As pessoas são guiadas a entender e apreciar melhor o governo de Deus sobre toda a terra e a responsabilidade da Igreja de falar a verdade de Deus para o mundo. Eles são encorajados a ver todas as suas vidas—inclusive os aspectos políticos das suas vidas no contexto da palavra e vontade de Deus.

Biermann, Wholly Citizens, 126. [Tradução livre.]

Em outras palavras, o pastor é guiado pela palavra e vontade de Deus, de acordo com a qual ele também guia e anuncia a mesma palavra e vontade de Deus para as pessoas encarregadas ao seu cuidado.

O importante em todo esse assunto—bem como todos os outros assuntos abordados a partir de uma perspectiva teológica cristã—é reconhecer o papel e ênfase na palavra e vontade de Deus. Tanto no Governo Espiritual quanto no Governo Temporal, é a palavra e vontade de Deus que reina e dita as regras. Quando consideramos a função específica da Igreja através da ação e discurso dos seus pastores, estes são guiados a falar e abordar assuntos em ambos Governos de acordo com esta palavra e vontade revelada por Deus. E é exatamente isso que eu quero dizer quando escrevo que o pastor faz Política de acordo com a vontade divina.

Antes de finalizar este texto, gostaria de dizer que não sou inocente a ponto de achar que esse tópico é simples e que todos os que irão ler o mesmo concordarão comigo. Eu entendo que este é um assunto que tem gerado muita polêmica e controvérsia em meio a pastores e Igreja como um todo. Assim, gostaria de dizer que cada aspecto que incluí neste texto merece atenção própria, isto é, ser desenvolvido mais a fundo. Eis que tenho a intenção de fazer isto. Meu intuito é apenas iniciar a reflexão para que esta possa ser desenvolvida, pois julgo ser muito necessária. Portanto, se você tem alguma sugestão ou gostaria de saber mais sobre algum dos aspectos deste texto, entre em contato comigo. Ficarei feliz de pesquisar e preparar outro texto explicando mais sobre algo que escrevi aqui. Teologia cristã se faz em comunidade, e ficarei feliz se você se dispor a fazer teologia comigo. Que Deus Pai, Filho, e Espírito Santo esteja conosco, hoje e sempre.

A Doutrina dos Dois Governos Continua Válida para o Contexto Atual?

Nas próximas semanas eu irei publicar sobre como a Igreja Cristã interage ou mesmo “faz” Política. No entanto, ainda julgo necessário desenvolver mais a base para tal interação antes de abordar tão questão. Este texto tem por objetivo exatamente isso—fundamentar um pouco mais a base que sugeri anteriormente para a relação entre Igreja e Política. (Clique aqui para ler o texto anterior ao qual me refiro.)

Após publicar o texto “A Igreja Faz Política?”, vi comentários que indagavam a validade da distinção teológica que usei para argumentar que a Igreja faz Política, isto é, a distinção dos Dois Governos desenvolvida pelo Reformador Martinho Lutero no século XVI. Especificamente, esta distinção ainda é válida para a sociedade que vivemos hoje? Eis uma excelente pergunta! E eis que tentarei oferecer uma resposta para tal questionamento.

Questionar a validade dos Dois Governos para a nossa sociedade atual não é algo novo. O teólogo luterano Joel Biermann dedica um capítulo do seu livro Wholly Citizens: God’s Two Realms and Christian Engagement with the World para considerar essa pergunta. Segundo Biermann, a pergunta que muitos teólogos fazem atualmente é se

O extenso conselho de Lutero sobre a correta relação entre a Igreja e o Estado—entre os ministros da Palavra de Deus e os servidores da espada—se aplica com a mesma força em todos os tempos e em todos os lugares, ou tal relação deveria ser claramente restringida e aplicada apenas para uma sociedade Constantiniana como a dele, ou no mínimo, para um contexto Ocidental “Cristianizado”?

Biermann, Wholly Citizens, 74-75.

Em outras palavras, a doutrina dos Dois Governos se aplica apenas para uma sociedade formada por princípios cristãos, ou se aplica para todos os contextos e eras, tal como em meio a atual sociedade secularizada e “anti-cristã” que vivemos?

Há uma grande tendência de considerar a doutrina dos Dois Governos como inviável para o contexto atual, e razões para tal entendimento não faltam. De fato, a sociedade que vivemos não é mais a mesma que a sociedade “cristianizada” do século XVI. Por exemplo, vivemos em meio à democracia, o que difere extremamente do sistema monárquico da Idade Média. Ao invés de um Rei, a sociedade moderna é “comandada pelo povo.” Podemos dizer, então, que o entendimento e funcionamento do Estado já não é o mesmo, e por isso o entendimento do Estado desenvolvido por Lutero com base no sistema monárquico da Idade Média já não se aplica para os dias atuais.

As diferenças ainda vão além do entendimento do Estado. Em comparação à Idade Média, a Igreja Cristã possui um papel totalmente diferente na sociedade. A Igreja já não forma a moralidade da sociedade, e de certa forma se tornou apenas uma das influências morais e éticas no Ocidente. No século XVI, a Igreja era a fonte e norma de ética e moralidade da sociedade. O que isso significa? Diferentemente de uma sociedade formada basicamente por cristãos que eram familiarizados com a doutrina e fé da Igreja, a sociedade Ocidental é atualmente formada por ideais e crenças que em grande parte não fazem parte da fé cristã.

O resultado é um contexto que não tem nada a ver com a sociedade da Idade Média na qual Lutero desenvolveu a doutrina dos Dois Governos. Ao que parece, esta distinção não é mais válida para os tempos atuais.

No entanto, gostaria de refletir mais um aspecto antes de propor minha resposta. Embora Lutero tenha desenvolvido a doutrina dos Dois Governos durante a Idade Média, devemos considerar qual foi a base que ele usou para elaborar e desenvolver tal doutrina. Se a base para tal doutrina foi o contexto sociopolítico do século XVI, então estaremos corretos em afirmar que a distinção dos Dois Governos é válida apenas para uma sociedade “cristianizada” (popularmente conhecida como ‘uma sociedade cristã’). Assim, como já não vivemos mais em uma sociedade formada e comandada por princípios cristãos, então a doutrina dos Dois Governos já não se aplica ao contexto atual. Neste caso, precisaríamos de uma nova distinção e doutrina a respeito do relacionamento entre Igreja e Estado.

Se a base para a doutrina dos Dois Governos for o contexto sociopolítico da Idade Média, então estaremos corretos de considerá-la inválida para o contexto atual. No entanto, este não é o caso aqui.

No entanto, este não é o caso aqui; isto é, Lutero não usou o contexto sociopolítico da época como base para sua doutrina. Pelo contrário, Lutero aplicou a doutrina dos Dois Governos para o contexto sociopolítico do século XVI, doutrina essa com base nas Escrituras. Assim como comentei anteriormente em “A Igreja Faz Política,” o entendimento dos Dois Governos é encontrado já no relato da criação, onde Deus dá o comando para Adão e Eva de cuidar e proteger o Jardim. Nota-se que o Governo Temporal existe antes mesmo da queda em pecado, sendo uma referência ao meio pelo qual o Criador cuida e mantém sua criação. Tal Governo se torna ainda mais importante em meio ao contexto da queda em pecado. Tendo o ser humano caído em corrupção, o Governo Temporal de Deus estabelece leis para que haja ordem no mundo. Não só estabelece, mas também cobra que estas leis sejam cumpridas, castigando aqueles que desobedecem e prejudicam o bom funcionamento da criação.

Da mesma forma, o Governo Espiritual representado pela Igreja também funciona essencialmente para trazer o bom funcionamento da criação de Deus. Baseado em um entendimento da criação antes da queda em pecado, os seres humanos foram criados para terem comunhão com o seu Criador, algo que foi perdido com a queda. Por meio do Governo Espiritual, Deus re-estabelece a comunhão perdida pelo pecado, restaurando as criaturas à justiça diante dele. Assim, os Dois Governos servem o propósito estabelecido por Deus o Criador desde o início da criação do universo, isto é, o bom funcionamento e preservação da criação de acordo com a vontade divina.

Esta vontade divina não muda de um contexto sociopolítico para o outro, mas sim permanece até a completa restauração de toda a criação—novos céus e nova terra (Apocalipse 21-22).

De acordo com minha análise, a base usada por Lutero é a revelação encontrada nas Escrituras Sagradas, não em seu contexto sociopolítico. Dessa forma, a doutrina dos Dois Governos não é apenas um retrato cristão da sociedade do século XVI, mas sim “a correta apresentação da verdade eterna de Deus,” como Biermann escreve, definição que descreve corretamente a verdadeira teologia sistemática, isto é, a teologia que é “válida e aplicável em todos os lugares, em todos os tempos, e para todas as pessoas” (Biermann, Wholly Citizens, 79)

Portanto, chegamos ao ponto que podemos responder a pergunta sugerida para esse texto. A Doutrina dos Dois Governos continua válida para o contexto atual? Sim, certamente continua válida hoje, e se estou correto ela vai continuar válida até a realização completa da nova criação. Assim como no princípio, hoje também Deus o Criador cuida e protege tudo o que ele criou através dos Dois Governos que ele estabeleceu para a boa ordem da sua criação.

Hoje, a distinção dos Dois Governos continua sendo válida para entendermos como Igreja e Estado devem funcionar em meio à criação de Deus. Como Governo Temporal, o Estado continua sob o comando de cuidar e proteger a criação de acordo com a vontade divina estabelecida desde a criação do Universo. Ao Estado cabe criar leis e exigir a obediência das mesmas, ao que corretamente pune aos que infligem tais leis. De fato, quando o Estado pune os que transgridem tais leis é o próprio Deus que pune e traz justiça aos transgressores. Tudo isso ele faz para o bem da sua criação. Da mesma forma, a Igreja Cristã como Governo Espiritual continua sob o comando de denunciar pecados e chamar pecadores ao arrependimento, anunciando o perdão para os que se arrependem, e retendo tal perdão aos que endurecem o coração e não se arrependem. Assim como o Estado, quando a Igreja faz tal obra própria do seu Governo, o próprio Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo que chama ao arrependimento e, de fato, perdoa os que se arrependem. E, fazendo isso, Deus faz tudo para o bem da sua criação.

Eu reconheço que “nem tudo são flores” em nosso atual contexto. Como comentei acima, vivemos em uma sociedade que não é formada apenas por preceitos cristãos. Assim, a linguagem dos Dois Governos pode ser entendida com dificuldade pelas pessoas do nosso contexto sociopolítico atual. Porém, isso não significa que a distinção dos Dois Governos não permanece válida. De fato, ainda hoje os Dois Governos permanecem sendo a correta apresentação da eterna revelação de Deus para a sua criação. No entanto, o desafio continua sendo como afirmar a mesma verdade de maneiras diferentes. O que não pode acontecer de forma alguma é afirmar algo diferente da revelação divina simplesmente pelo fato de que as pessoas do nosso contexto já não entendem mais a linguagem utilizada para tal revelação. Eis o encanto de fazer teologia! “Teologizar” não seguir tendências mas sim refletir sobre meios para falar a revelação eterna em termos contemporâneos a fim de que todos possam entender a vontade do Criador para a sua criação.

A doutrina dos Dois Governos, portanto, continua válida hoje, e assim também continuará nos dias que estão por vir. Há muitos desafios que precisamos estar cientes em meio ao uso desta doutrina, especialmente mal-entendidos. No entanto, não tenho dúvidas de que a doutrina dos Dois Governos deve ser a base para nossa interação com assuntos relacionados à Política.