Niilismo e Cristianismo: A Irrelevância de Deus na Sociedade

Há dez dias eu publiquei um texto aqui no blog sobre a famosa frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “Deus está morto.” (Clique aqui para ler o texto.) Um dos aspectos centrais dessa observação feita por Nietzsche é a crescente irrelevância de Deus na sociedade. Isto é, o papel e a função ocupados por Deus antes da Era Moderna agora passam a ser ocupados pelo ser humano moderno em sua busca por propósito e sentido.

Essa semana eu conversei novamente com o Pr. Lucas Prando sobre o tema da morte de Deus na sociedade moderna. Nesse vídeo, nós refletimos sobre as implicações ou consequências de uma sociedade sem Deus. Ao mesmo tempo, refletimos sobre possíveis maneiras que Deus pode tornar a ser relevante para uma sociedade que já se acostumou a existir sem a presença de Deus. Especificamente, a pergunta que guiou nossa conversa foi, “Como Deus pode ser relevante em nossa sociedade atual? Como nós (cristãos/Igreja) podemos agir e pregar de uma forma que Deus se torne novamente relevante para os dias que estamos vivendo?” Clica no vídeo abaixo e confere o que foi sugerido em nossa reflexão.

Podcast Instante com a Palavra. Clique aqui para assistir o vídeo no YouTube.

Como menciono no Podcast acima, um dos aspectos centrais de uma sociedade onde “Deus está morto” é o desenvolvimento do “Niilismo.” Nietzsche definiu niilismo como um contexto onde os maiores valores se desvalorizam. Isto é, valores como “Verdade,” “Razão,” “Deus,” “Jesus Cristo,” “Alá,” etc. perdem o valor que eles uma vez possuíam na sociedade. Uma forma de explicar o niilismo é através da imagem de um Shopping Center. Isso porque um Shopping Center possui várias lojas que oferecem uma variedade imensa de produtos (valores). No entanto, não há um critério que diz que uma loja (ou os produtos de uma determinada loja) é melhor ou correta para os consumidores. Em outras palavras, um Shopping Center não define qual loja ou quais produtos são “os mais valiosos” para aquele local, mas sim os consumidores daquele Shopping Center que determinam esse valor. Alguém pode até argumentar que uma determinada loja é melhor para nós como consumidores, mas no fim do dia nós somos aqueles que escolhemos qual será a loja que vamos comprar o que queremos comprar.

Aplicando essa imagem do Shopping Center para a sociedade atual, vemos que “a loja” que oferecia aquilo que era “consumido” pelos membros da sociedade perdeu a sua posição de destaque. Isto é, os valores que davam sentido e propósito para toda a vida no mundo passam a ser apenas “um” dos valores disponíveis para aqueles que buscam consumir ou abraçar tais valores. Especificamente, não há um critério absoluto que dirá para nossa sociedade que “precisamos ter esse valor para nossa vida”. Todos os valores estão no mesmo nível. Não há mais um valor que seja considerado mais valioso do que outro. Alguém que adere a um determinado conjunto de valores pode argumentar que os seus valores são “os verdadeiros” ou “os melhores,” mas alguém pode usar o mesmo argumento a respeito de outro conjunto de valores.

Resumidamente, uma sociedade niilista olha para os valores que dão sentido e propósito para a vida sem distinguir entre os valores que estão sendo oferecidos. Se há um critério de escolha, este critério é o benefício próprio do indivíduo. Em outras palavras, “o valor que me beneficiar mais, este é o que eu escolho para mim.” Como resultado, hoje posso escolher viver de acordo com os valores cristãos, pois eles refletem aquilo que eu acho que é certo para mim; mas amanhã isso pode deixar de ser verdade, então escolherei viver de acordo com valores liberais-capitalistas, ou talvez de acordo com preceitos budistas, hinduístas, etc. dependendo de como eu estiver me sentindo. “Tudo é relativo,” se posso usar de um jargão popular. Se você quer acreditar em algo, bom para você. Isso é sua opinião, e não há nada que possa provar que você está certo ou errado.

Niilismo e Cristianismo

Tal situação tem trazido muitas consequências para o Cristianismo. Isso porque o niilismo tem influenciado a confissão de fé e a prática da vida cristã na sociedade atual. Por um lado, Deus deixa de ser o Deus Criador e passa a ser um “amigão” ou um “camarada” para aqueles que creem nele. Isso é refletido em uma postura “cristã” onde Deus se torna nada mais do que um amigo que me aceita do jeito que eu sou, alguém que está sempre lá para me ajudar e me apoiar. Como explico no vídeo acima, isso é um reflexo da domesticação de Deus por parte dos cristãos, os quais transformam Deus em um objeto de sorte ou alguém que eles podem contar com o apoio para seus projetos pessoais na vida. Assim, Deus não é mais aquele que dá propósito e sentido para a minha vida, o Senhor e Criador do universo, mas sim apenas alguém que pode me ajudar se eu estiver triste, doente, ou mesmo precisando de ajuda para ser promovido em meu trabalho.

Por outro lado, o discurso e a vida cristã passam a refletir idealismos ou filosofias que refletem mais a vontade do ser humano moderno do que a vontade divina revelada por Deus. Basta olharmos para as redes sociais de cristãos e percebermos que o conteúdo frequentemente reflete discursos humanos ao invés dos mandamentos dados por Deus em Cristo, especialmente relacionados ao amor ao próximo. Em outras palavras, cristãos refletem com frequência a vida de pecado da qual eles foram resgatados ao invés da nova vida recebida por meio de Cristo. Consequentemente, palavras e preceitos humanos tomam cada vez mais o lugar das palavras e preceitos divinos em nossa sociedade atual, até mesmo em cristãos.

O resultado disso e de outros aspectos da sociedade niilista após a morte de Deus que vivemos é a crescente irrelevância de Deus. Dentre os vários aspectos que podemos observar, alguns comentados no vídeo acima, um que tenho observado em nossa Igreja é o silêncio diante de eventos atuais que estão repercutindo o mundo todo. Uma das razões para esse silêncio é a privatização do Cristianismo. Isto é, cada vez mais a fé cristã se tornou algo individualista, que é praticada em grupos privados da sociedade. Em outras palavras, a fé cristã passou a ser vista como “boa para mim” mas não “boa para todos,” resultando em um discurso que se aplica para aqueles que frequentam igrejas ao invés de ser aplicável para toda a sociedade. Assim, passamos a ver a função da Igreja como “falar a palavra de Deus para o povo de Deus” ao invés de falar as palavras de Deus para todas as criaturas de Deus. Isso é problemático, porque aquilo que Deus tem para falar precisa ser falado. Se a Igreja não for o instrumento pelo qual Deus fala aquilo que ele tem para falar para o mundo, quem irá ser a voz de Deus para o mundo?

Sendo Igreja

A Igreja precisa ser novamente o instrumento que anuncia a voz de Deus não apenas para aqueles que frequentam os nossos templos mas sim para todos aqueles que estão no mundo, pois a mensagem de Deus em Cristo não inclui apenas os que creem mas orientam toda a criação de acordo com a vontade divina do Criador. Isso significa não ficar em silêncio diante de abusos, injustiças, ou situações difíceis que o mundo está vivendo. Novamente, aquilo que Deus tem para falar precisa ser dito. Mesmo que isso signifique dizer algo que seja polêmico ou “politicamente incorreto,” a Igreja precisa ser a voz de Deus para o mundo. Se a Igreja fica em silêncio, ela torna a si mesma irrelevante e até mesmo o próprio Deus, pois ela cala a voz de Deus para o mundo ao invés de ser um instrumento pelo qual essa voz é ouvida. De fato, estou convencido que o silêncio da Igreja diante da sociedade é um dos principais motivos para a atual irrelevância de Deus e do Cristianismo no mundo.

O que devemos fazer? Precisamos ser a voz de Deus para o mundo hoje. Mesmo que seja uma voz clamando no deserto, a Igreja precisa ser o instrumento que Deus criou ela para ser. Considere os atuais eventos de injustiça e discriminação racial acontecendo no mundo todo. A Igreja precisa se posicionar sobre o que está acontecendo, refletindo o ensinamento bíblico que “Deus trata a todos de modo igual, pois ele aceita todos os que o temem e fazem o que é direito, seja qual for a sua raça” (Atos 10.34-35), e que “não existe nenhuma diferença entre judeus e não judeus” (Romanos 10.12), e ainda “não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Se a Igreja não falar para o mundo essa palavra de Deus sobre o que está acontecendo no mundo, quem poderá falar a palavra de Deus? A Igreja precisa continuar sendo a voz de Deus para aqueles que buscam orientação nesse momento. Falhar com a sua função de falar aquilo que Deus é falhar mostrar que Deus tem muito a dizer para o mundo a e sociedade que vivemos.

Em um mundo niilista e uma sociedade influenciada pela morte de Deus, a Igreja e os cristãos são chamados para ser instrumentos da palavra de Deus para o mundo. Ser um instrumento para Deus ter relevância em um mundo que rejeitou Deus não é uma tarefa fácil. Certamente não há uma fórmula mágica para que Deus torne a ser relevante na sociedade. Porém, esse mesmo mundo carece ouvir a voz do seu Criador. Em meio a tantas vozes que refletem ideologias humanas, a Igreja e os seus membros precisam ser a voz e instrumento da palavra de Deus. Que ele nos conceda o seu Espírito para sermos luz e sal para o mundo.

Foto: Gabriele T. L. Furst.

3 Maneiras de Amar o Próximo HOJE

O cristão é chamado para amar o próximo. Tendo sido redimido por meio do Batismo, o cristão já morreu para o pecado, e agora vive uma vida de acordo com a intenção de Deus o Criador para a sua criatura em meio à criação. No entanto, afirmar que o cristão deve amar o próximo pode ser algo muito abstrato ou mesmo genérico nos dias de hoje. Por isso, hoje quero oferecer três maneiras que você pode praticar esse amor ao próximo que Jesus ensinou como parte de ser um cristão.

1. Combatendo o Racismo

Você pode amar o próximo hoje se posicionando contra o racismo. Como já falamos aqui no blog, o racismo é um pecado. (Clique aqui para ler os textos sobre o assunto.) Isso porque o racismo vai contra a vontade divina de Deus para a sua criação, a qual declara que somos todos criaturas criadas à imagem de Deus que possuem igual valor para o Criador. De fato, o racismo vai contra o ensinamento bíblico que somos todos obra das mãos desse Criador, o qual declarou que toda a sua criação era “muito boa” (Gênesis 1.31).

O Novo Testamento reafirma tal ensinamento declarando que por meio de Cristo já não há diferença entre povos, mas que pessoas de todas as nações, tribos, raças, etnias, são unidas em um só povo de Deus em Cristo. Em outras palavras, Jesus o Filho de Deus derruba todas as barreiras que dividiam as pessoas desse mundo, e traz cada um de nós para ser parte do seu povo. Aquilo que nos separava de Deus e das pessoas ao nosso redor foi destruído por Cristo em sua obra. Assim, qualquer ato que manifeste tal divisão—tal como o racismo—rejeita a obra de Cristo e ensina um retorno para uma era quando não havia a obra salvífica que trouxe uma nova realidade para o mundo.

Infelizmente, a sociedade em que vivemos ainda carrega e pratica o pecado do racismo. Como os eventos das últimas semanas têm demonstrado, irmãos e irmãs ao redor do mundo têm suas vidas ameaçadas pelo pecado do racismo, e muitas estão perdendo a sua vida porque o mundo rejeita a obra de Cristo a fim de seguir suas próprias opiniões sobre o valor da vida das pessoas que se parecem diferente delas. Isto é errado, e você como cristão não pode se silenciar diante de tal situação.

Embora nosso Sínodo não tenha se posicionado sobre o assunto e todos os eventos relacionados a ele que temos visto ao redor do mundo, há recursos que você pode usar para se posicionar contra o pecado do racismo. Publique em suas redes sociais sobre isso. Fomente a conscientização que o racismo é pecado, que é contra o mandamento divino, e que como cristão você repudia tanto o pecado do racismo como também toda e qualquer ação racista.

Declarando para os seus amigos e pessoas ao seu redor que você é contra o racismo não somente é um testemunho da fé em Cristo, mas também uma forma de dizer ao mundo, “basta!”, que você não vai permanecer calado enquanto inocentes são mortos porque nasceram em um lugar diferente ou porque têm uma cor de pele diferente. Mais importante, você estará seguindo o mandamento dado por Deus de ajudar aqueles que precisam de sua ajuda.

Portanto, você pode amar o próximo hoje combatendo o pecado do racismo. Evite falar coisas preconceituosas. Evite piadas raciais. Como o Oitavo Mandamento orienta, se você não tem algo bom para falar sobre o seu próximo, não fale nada sobre ele. No entanto, não falar já não é o suficiente. Precisamos falar. Precisamos ajudar o próximo. Se você não sabe o que falar, compartilhe um dos textos escritos por outros cristãos. Ficar em silêncio não pode ser uma opção. De fato, ficar em silêncio não é uma opção. Tendo sido chamado a amar o nosso próximo, ouça esse chamado e ame o seu próximo. Você pode ser uma voz que iniciará uma nova realidade que reflete a obra de Cristo, ao invés de refletir a realidade de pecado do mundo atual.

2. Combatendo o Coronavírus

Você pode amar o próximo hoje combatendo a proliferação e avanço do coronavírus. Fique em casa. Não saia na rua se você não tem necessidade de sair. Ficando em casa, você evitará de ser um instrumento para o avanço desse vírus que está matando milhares de pessoas no mundo todo. Embora ainda não haja uma vacina para combater o vírus, nós já sabemos como agir para que o vírus não se espalhe com tanta facilidade. Como cristão, você tem o dever de tomar todas as precauções e seguir todas as orientações para que você não seja um instrumento de morte para o seu próximo.

Muitas pessoas não têm a opção de ficar em casa. Infelizmente, a desigualdade social e a miséria/pobreza no Brasil e no mundo todo impede que a maioria da população possa ficar em casa. De fato, pastores que eu tenho contato compartilham comigo a situação enfrentada pelos seus membros ou pessoas da comunidade local, onde ficar em casa não é uma opção, pois se essas pessoas ficam em casa os seus empregadores irão demití-las e logo a família estará passando necessidade. Portanto, se você tem condições de ficar em casa, faça isso. Se algo não for urgente, espere. Ficando em casa, você estará amando o seu próximo que não pode ficar em casa. Se você não pode ficar em casa, siga as orientações de lavar as mãos, usar máscaras, bem como o distanciamento social. Medidas como essa reduzirão o avanço do vírus, e você estará cuidando do seu próximo por não ser um instrumento de morte para ele.

Imagino que você esteja cansado de estar de quarentena. Imagino também que você não gosta de usar máscara. Imagino que você deve criar todo tipo de desculpa para sair de casa com o argumento que é algo “essencial”. Salvo aqueles que não podem ficar em casa, nenhuma dessas desculpas é motivo para você colocar em risco a vida do seu próximo. Sem contar que você estará colocando a sua própria vida em risco. Talvez você esteja pensando, “Ah, eu estou seguindo as recomendações dos órgãos públicos da minha cidade.” Pois bem, você tem um bom ponto. No entanto, quero pedir que você que esta lendo esse texto siga não somente as recomendações dos órgãos públicos da sua cidade, mas também—e especialmente também—as orientações dadas por Deus para a nossa vida como cristãos. Por mais que a sua prefeitura local disse que é permitido ir ao shopping center da sua cidade, ou mesmo reabrir as igrejas para cultos presenciais, por favor, não façam isso. Por mais que vocês possam fazer isso, lembrem-se que tais atitudes podem ajudar a proliferação do vírus na sua cidade. Você estará colocando em risco não só você e a sua família, mas também a sua comunidade cristã e todas as pessoas da sua cidade que contam com o seu cuidado por elas para não serem contaminadas. Seja um exemplo. Seja um instrumento de testemunho em meio à pandemia. Ame o seu próximo evitando qualquer maneira que possa espalhar o vírus para aqueles que estão perto de você.

3. Cuidando do Meio Ambiente

Você pode amar o próximo hoje por meio de ações que cuidam do meio ambiente. Em meio à pandemia do coronavírus, quase esquecemos que estamos vivendo um período de uma crise ecológica que afeta tudo e todos no nosso planeta. Desmatamento, poluição do ar, da água, do solo, entre outros agentes que contribuem para o aquecimento global, continuam sendo instrumentos que trazem dor e sofrimento para muitas pessoas ao redor do mundo.

Há muitos estudos que apontam para os efeitos do descuido com o meio ambiente na vida de pessoas no mundo todo. No entanto, eventos do nosso dia-a-dia oferecem exemplos desse efeito na vida do nosso próximo. Por exemplo, ano passado houve dias em que um extensa fumaça cobria o céu de várias cidades do Mato Grosso enquanto eu visitava meus pais. Tal fumaça era fruto de queimadas em florestas locais que estavam sendo destruídas para dar espaço para agricultura e agropecuária. No entanto, além dos milhares de animais que morrem nessas queimadas, a diminuição de árvores aumenta a concentração de gás carbônico na atmosfera do nosso planeta, deixando a temperatura mais quente, por causa do efeito estufa. Tal efeito faz com que temperaturas acima de 50 graus Celsius sejam registradas em vário locais do mundo, temperatura que torna impossível que pessoas e animais sobrevivam. Além disso, o aumento de temperaturas aumenta o descongelamento de calotas de gelo nos polos do planeta, fazendo com que os níveis do mar aumentem. Há previsões que o nível do mar aumente até 3 metros até o fim do presente século, o que significaria que milhões de pessoas que vivem no litoral perderiam suas casas ou mesmo as suas próprias vidas.

Resumidamente, quando você cuida do meio ambiente hoje você também está cuidando do seu próximo e praticando o amor a ele ensinado por Cristo. Se você tiver interesse em ler mais sobre o assunto, entre em contato comigo. Eu ficarei feliz em fornecer artigos, livros, e estudos sobre o assunto.

Como você pode cuidar do meio ambiente e amar o próximo hoje? Há inúmeras formas que poderíamos responder essa pergunta. No entanto, uma opção cada vez mais enfatizada por ambientalistas é a redução do consumo de produtos animais. Hoje, o jornal The Guardian publicou um artigo que fala dos benefícios tanto para a saúde como também para o cuidado do planeta através da redução do consumo de produtos animais. (Clique aqui para ler o artigo do The Guardian.) Em outras palavras, a redução do consumo de produtos como carne e leite é uma das formas que você pode cuidar do meio ambiente, e dessa forma amar o próximo.

Ame o Próximo

Há muitas formas que podemos amar o próximo hoje. No entanto, essas são três maneiras concretas que podem ajudar você a amar o próximo hoje. A melhor parte é que você pode fazer ela aí mesmo na sua casa. Você pode se posicionar e combater o racismo através de compartilhamentos de estudos e posicionamentos de pastores e cristãos que afirmam que o racismo é pecado, e você pode optar por não ser racista ou mesmo fazer apologias ao racismo em sua rede social. Você também pode amar o próximo permanecendo em casa se você tem essa opção. Evitando meios que o coronavírus é transmitido para outras pessoas, você estará amando aqueles que estão perto de você, e testemunhando o amor que Jesus orientou o seu povo a ter pelos outros. Por último, você pode cuidar do meio ambiente e amar o próximo diminuindo o seu consumo de produtos animais. Note que eu não estou dizendo que você precisa cortar totalmente o consumo de tais alimentos. Claro, isso seria ideal! No entanto, já é comprovado que apenas a redução do consumo desses produtos já ajuda no controle de vários efeitos que causam dor e dano à pessoas no mundo inteiro.

“Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês amem uns aos outros. Assim como eu os amei, que vocês também amem uns aos outros. Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros.”

João 13.34-35 (NAA)

Photo by Branimir Balogović from “public domain photos” by Pexels.

Posicionamento da BCC sobre George Floyd

Nota: Este texto foi originalmente publicado pela Black Clergy Caucus (BCC) da LCMS (Igreja Luterana—Sínodo de Missouri) no Facebook. O mesmo foi traduzido e publicado aqui com a autorização da BCC.

“Nós temos andado sobre um caminho que tem sido regado com lágrimas;
Nós temos andado fazendo nosso caminho através do sangue dos que foram abatidos.”
James Weldon Johnson, “Lift Every Voice and Sing”

“Estou cansado, ó Deus; estou cansado, ó Deus, e exausto.”
Provérbios 30.1

“…para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado.”
Isaías 50.1

O ano era 1967. Há poucos anos atrás, a última universidade e seminário historicamente Preto restante que era dedicado ao treinamento de pastores Luteranos Pretos era fechado pelo Sínodo. A nação estava em agitação. A injustiça racial estava sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tinha negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estavam sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Lynn Blanding. Carl Cooper. Aubrey Pollard. Fred Temple. Tensões raciais se tornaram manifestações em Detroit. Como o tempo testemunharia, pastores Luteranos Pretos sabiam que “Detroit não era um caso isolado,” portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. Como o falecido Rev. Dr. Richard Dickinson, antigo Diretor Executivo do Ministério Preto, descreve, “Todas as cidades nesta nação… estavam fervendo com agitações, com o potencial de explodir em manifestações raciais a qualquer momento. Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” (This I Remember, 27). “Elas tinham absolutamente nenhuma confiança no escritório Distrital… nem mesmo para entender a natureza e o tamanho da crise, e absolutamente nenhum compromisso de tentar resolver ele.” Havia uma falta de representação. Não havia nenhum Luterano Preto no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não tinham pastores Pretos. Até aquele dia, nenhum Preto havia sido Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. “Não havia uma pessoa preta em posições de influência na administração Distrital ou Sinodal. Detroit estava pegando fogo, e o ministério preto naquela cidade não tinha nenhum lugar para procurar alguém com autoridade que poderia entender e trazer esperança e conforto.” (This I Remember, 28).

Avançamos rapidamente 53 anos depois da formação do Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) da Igreja Luterana.

O ano é 2020. Há poucos anos atrás, a última Faculdade e Universidade Historicamente Preta restante que era dedicada ao treinamento de professores Luteranos Pretos foi fechada pelo Sínodo. A nação está em agitação. A injustiça racial está sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tem negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estão sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Breonna Taylor. George Floyd. Ahmaud Arbery. David McAtee. Tensões raciais se tornaram manifestações em Minneapolis. Pastores Luteranos Pretos sabiam que Minneapolis não seria um caso isolado, portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. “Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” Podemos buscar ajuda no Distrito ou no Sínodo? Será que eles poderiam “entender a natureza e o tamanho da crise [e ter um] compromisso de tentar resolvê-lo?” Esta é a nossa autêntica esperança. No entanto, ainda não há Luteranos Pretos no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não têm pastores Pretos. Até a presente data, ainda não houve um Preto que fosse Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. Parafraseando o Dr. Dickinson, quando nossas cidades estão pegando fogo, será que o ministério Preto tem algum lugar para buscar alguém com autoridade que poderá entender e trazer esperança e conforto?

Em meio às manifestações de 1967, o Rev. Dr. Martin Luther King, Jr. disse que “Uma manifestação é a linguagem dos que não são ouvidos. O que é que a América falhou em ouvir?” É o momento para o Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) falar novamente.

George Floyd era conhecido como uma “pessoa de paz” (Lucas 10.6) pelo seu pastor. Firmado em sua identidade baptismal, George levaria a fonte batismal para uma quadra de basquetebol localizada a algumas quadras da sua igreja Luterana Preta. Como o Eunuco Etíope que disse, “Olhe, aqui há água! O que impede que eu seja batizado?” George preparou o caminho para pastores locais pregarem o evangelho. Mais tarde George foi movido para Minneapolis por causa de um programa de trabalho da igreja. Ele era um fruto da igreja. Ele era também um homem Preto. O filho de um homem Preto. O pai de um homem Preto. Eu também sou o filho de um homem Preto. Quando eu tiver filhos, meu filho será Preto. Mas, será que a identidade batismal dele em Cristo será asfixiada pelo mundo por causa da cor da sua pele? Será ele mais uma estatística para um mundo que nem mesmo conhece o número de cabelos da sua cabeça? Para muitos, o pensamento é esmagador, nascido de séculos de racismo. Nas palavras de Fannie Lou Hamer, nós estamos “enojados e cansados de estar enojados e cansados.” Graças a Deus nós não estamos sozinhos em nosso sofrimento. Pois a primeira interação entre Deus e o homem foi quando Deus soprou a vida para dentro de Adão. A última interação (antes da ressurreição) foi quando o homem sufocou Jesus, tirando o último fôlego do Filho de Deus. Jesus morreu de asfixiação na cruz. “Jesus deu um forte grito e respirou pela última vez” (Marcos 15.37). Nós devemos aprender como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de Jesus; então, nós devemos aprender a ver como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de George.

Quando nós vemos vidas sendo tiradas, nós lembramos do Quinto Mandamento, o qual declara, “Não matarás.” No entanto, nós minimizamos a nossa responsabilidade. O Catecismo Maior de Lutero dá dois discernimentos importantes. Em primeiro lugar, nós não devemos usar a nossa língua para defender ou aconselhar dano a alguém.” Se nós defendermos a violência, em redes sociais ou de qualquer outra forma, então nós estaremos violando o mandamento. Em segundo lugar, nós teremos violado o mandamento “não apenas quando fazemos o mal, mas também quando temos a oportunidade de… previnir, proteger, e salvar [o nosso próximo] de sofrer danos ou ferimentos corporais, mas falhamos em fazê-lo.” Nós todos carregamos a responsabilidade neste momento, pois todos nós temos a capacidade de responder a este momento. “Se você ver alguém que está sendo condenado a morte ou em um perigo parecido e não salvar esta pessoa mesmo que você tenha meios e formas de salvá-la, você terá matado essa pessoa. O uso da desculpa que você não participou da morte dessas pessoas por meio de palavras e ações não irá ajudar você, porque você roubou dessas pessoas a bondade pela qual a vida deles poderia ser salva.” Se nós temos a oportunidade de previnir mais vidas de serem perdidas, nós temos que agarrar tal oportunidade.

Agora é o momento. Como um cristão, se você não ajudar a por um fim a um sistema de injustiça que tira a vida de irmãos e irmãs em Cristo como George Floyd mas ao invés disso “usa a desculpa que você não participou da morte deles por meio de palavras e ações,” então “você terá matado essas pessoas.” “Porque embora você não tenha de fato cometido todos estes crimes, ao que diz respeito a você, você todavia terá permitido que o seu próximo fosse debilitado e perecesse em sua desgraça. É como se eu visse alguém perecendo em águas profundas… e eu pudesse estender a minha mão para puxá-lo pra fora e salvá-lo, e eu não fizesse isso. Como eu poderia aparecer diante do mundo se não como um assassino…?” (Catecismo Maior, V, 189-190).

Isso não é um “pensamento radical preto.” Isso é o Catecismo Luterano do tempo da sua Confirmação, quando você afirmou os seus votos batismais, marcando você como alguém reivindicado por Deus—e não o mundo. Amigos e colegas têm entrado em contato comigo, perguntando como aqueles que estavam ao lado do rio e perguntaram a João Batista, “Então, o que nós devemos fazer?” (Lucas 3.10). Desde o nascimento até a hora da morte, nós somos chamados para defender a vida. A vida não é uma prova de múltipla escolha. Ela é tudo o que foi dito acima. Ou você afirma tudo—ou nada. “Lembre daqueles que estão na prisão, como se você estivesse na prisão com eles,” as Escrituras exortam, e “olhe para as vítimas de abuso como se o que tivesse acontecido com elas tivesse acontecido com você.” (Hebreus 13.3). Quando nós não procuramos acabar com a instituição do racismo, o pecado original desta nação, ou pior ainda negamos que o racismo exista, nós não apenas falhamos em reconhecer a humanidade dos nossos irmãos e irmãs em Cristo que são pretos e pardos, mas nós também falhamos em reconhecer o Deus que está neles, o Espírito de Deus que deu fôlego e vida para eles.

Nós não temos sido os mais hospitaleiros. Desde o fechamento da Concordia Selma, a última HBCU (Historically Black College and University), o Sínodo reduziu o orçamento do Ministério Preto e saiu da Black Ministry Family Convocation (Convocação Familiar do Ministério Preto)—um encontro trienal para estudar a palavra de Deus e celebrar a perseverança de Luteranos Pretos. Sem a HBCU para apoiar Luteranos Pretos, nenhum Luterano Preto entrou no seminário esse ano. Nós não precisamos do Sínodo nos oferecendo pensamentos e orações. Oração é uma disciplina espiritual essencial; as banalidades não são. St. João nos lembra que no amor não é suficiente dizer a coisa certa, nós também devemos fazer a coisa certa: “Vamos amar, não em palavra ou da boca pra fora, mas com ação e em verdade” (1 João 3.18). As Escrituras nos admoestam que falar sem agir é sem sentido, ou pior, hipocrisia: “Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário, e um de vocês lhes disser: ‘Vão em paz! Tratem de se aquecer e de se alimentar bem’, mas não lhes dão o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” (Tiago 2.15-16). Quanto ao jejum, Deus diz, “Vocês não podem jejuar assim como fazem hoje e esperar que o clamor de vocês seja ouvido lá no alto. Seria este o tipo de jejum que escolhi, apenas um dia para que as pessoas se humilhem?” Humildade cerimonial não será o suficiente se quisermos que as nossas vozes sejam ouvidas nos céus. Ao invés disso, Deus diz, “Será que não é este o jejum que escolhi: que vocês quebrem as correntes da injustiça, desfaçam as ataduras da servidão, deixem livres os oprimidos e acabem com todo tipo de servidão?” (Isaías 58.4-6). Como irmãos e irmãs, agora é o momento de se unir em verdadeira oração. Verdadeiro jejum. Verdadeiro lamento. Verdadeira com-paixão. Verdadeiro amor.

A Black Clergy Caucus não fala por todos os pastores Luteranos Pretos; nós advogamos por eles. Eles têm a sua própria voz, seus próprios pensamentos, seus próprios ministérios. Nós não somos um grupo monolítico. Dentro da Igreja Luterana, nós temos uma diversidade maravilhosa de igrejas, pastores, diaconisas, e professores Luteranos Pretos. Conheça um deles. Ouça-os. O primeiro ato de amor é ouvir.

“Assim como o amor de Deus começa com o ouvir da sua Palavra, assim também o começo do amor pelos irmãos é aprender a ouví-los. É o amor de Deus por nós que faz com que Ele não apenas nos dê a sua Palavra mas também nos dê o Seu ouvido. Muitas pessoas estão procurando por um ouvido que irá ouvir elas. Elas não encontram isso entre cristãos porque estes cristãos estão falando onde eles deveriam estar ouvindo… Este é o início da morte da vida espiritual, e no final não resta nada além de tagarelice espiritual e desdenho clerical vestido de palavras piedosas. Alguém que não consegue ouvir longamente e pacientemente logo estará falando de forma irrelevante… Qualquer pessoa que pensa que o seu tempo é valioso demais para permanecer em silêncio eventualmente não terá tempo para Deus ou para seu irmão, mas apenas para si mesmo e suas próprias bobagens.”

Dietrich Bonhoeffer, Vida em Comunhão.

Eu encorajo você a ler mais, a aprender mais, a ouvir mais. A pastores e leigos Luteranos Pretos. A autores Pretos. A músicos Pretos. A empresários Pretos. A pessoas que você normalmente não lê, aprende, ou ouve. Com um coração que ouve a fim de entender. Tão frequentemente o que nos divide é um coração defensivo que nasceu do medo, da raiva, ou do orgulho. Mas como irmãos e irmãs em Cristo, Deus diz, “Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” (Ezequiel 36.26). Este mundo é incapaz de resolver os problemas que nos molestam, mas Deus é capaz de fazer isso. Este mundo pode procurar nos dividir, mas Deus é capaz de nos dar a paz “que excede todo entendimento” (Filipenses 4.7).

Às nossas igrejas Luteranas Pretas, eu digo isto para vocês: Obrigado. Obrigado por ser o Corpo de Cristo no mundo. Obrigado por demonstrar hospitalidade mesmo quando hospitalidade não é demonstrada a vocês. Obrigado por sua perseverança, porque nós sabemos que “perseverança produz caráter, e caráter produz esperança, e esperança não nos desaponta, porque o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo” (Romanos 5.4-5). Obrigado por amarem os nossos filhos e filhas. Obrigado por lembrá-los quem e de quem eles são—que eles são de valor irrevogável para Deus. Eu encorajo você a falar com o seu pastor ou diácono/diaconisa. Ouça a eles. Ore por eles. Trabalhe com eles. Deixe a igreja ser a igreja, especialmente em tempos como estes. E deixe Deus ser Deus.

E aos pastores Pretos da nossa Igreja Luterana, eu digo isto para vocês: “O seu trabalho não é em vão.” Continue a cuidar da sua igreja local. Ore por ela. Lamente com ela. Ame-a. Você é o pastor que a sua igreja precisa. Não outro. Você é o pastor que esse Sínodo precisa. Sua presença e dedicação para continuar continuando é o que nós precisamos nesse momento. “Você é importante para mim; eu preciso que você sobreviva.” Vamos nos unir, agora mais do que nunca, enquanto nos lembramos das origens do Black Clergy Caucus e continuamos a “equipar os santos para o trabalho do ministério, para a construção do Corpo de Cristo.” Saiba que não importa o que esse mundo possa fazer ou trazer, a sua “alma foi ancorada no Senhor.”

“Há um bálsamo em Gileade para tornar o ferido completo;
Há um bálsamo em Gileade para curar a alma adoecida pelo pecado.

Às vezes eu me sinto desencorajado e penso que o meu trabalho é em vão,
Mas então o Espírito Santo revive novamente a minha alma.”
Espiritual Afro-Americana

Seu irmão em Cristo,

Rev. Warren Lattimore, Jr.
Pastor: St. Paul’s Lutheran Church – New Orleans, LA
Presidente: Black Clergy Caucus da Igreja Luterana, Inc.

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Nietzsche: “Deus Está Morto”

Deus está morto. Friedrich Nietzsche afirmou esta famosa frase em seu livro A Gaia Ciência em 1887 (2a Ed.) no conhecido conto do “homem louco.” Mas, o que essa frase significa?

Essa semana eu conversei com o Pr. Lucas Prando em um podcast sobre o tema. No vídeo, eu mencionei que há muito desentendimento sobre o que se refere essa famosa frase do filósofo alemão, e tentei explicar que mais do que um convite para negar a existência de Deus, Nietzsche estava observando uma mudança drástica na estrutura da sociedade moderna da sua época ao dizer que Deus estava morto.

Podcast ICP via YouTube.

Ao afirmar, “Deus está morto,” Nietzsche estava observando que o papel e a função que o Deus do Cristianismo ocupava na sociedade até o século XVI já não era mais ocupado por Deus. Nietzsche tinha consciência que Deus era mais do que um ser que ocupava os pensamentos de pessoas religiosas. Ele sabia que Deus era visto como o Criador, o ser supremo que dava significado e propósito para a vida de todos e tudo na sociedade. Com o desenvolvimento da idade moderna, principalmente depois do Iluminismo, o ser humano passa a ocupar o centro das atenções, especialmente por causa da ênfase no indivíduo. Ao invés da vontade divina, a razão passa a ser o que define se algo é bom ou ruim na sociedade moderna. Deus passa a governar apenas o mundo metafísico, o mundo da religião, enquanto o ser humano governa o mundo material através da razão.

Quando chegamos na época em que Nietzsche escreveu sobre a morte de Deus, a sociedade ocidental já havia mudado completamente. Deus passa a ser o Deus do indivíduo ao invés do Senhor e Criador de todo o universo. Uma ilustração é o que ainda se observa com frequência em meio a cristãos. Quando perguntados sobre “quem é Deus?” muitos cristãos respondem que ele é o ser que provê apoio e ajuda sempre que eles necessitam. Em outras palavras, Deus deixa de ser o Governador e Mantenedor do universo para ser um bom camarada, alguém que você pede ajuda para conseguir superar os problemas da sua vida, ou para conseguir uma promoção no trabalho, etc.

Diante disso, percebemos que “Deus” já não é mais Deus na sociedade moderna. Ele passa a ser um ser que está no mesmo nível que nós seres humanos, só que mais legal e compreensível. Nesse sentido, o Deus confessado e crido desde o início da Igreja Cristã até o século XVI é morto pelo indivíduo moderno. Nos termos de Nietzsche, “Deus está morto, e nós o matamos.”

Isso significa que a frase de Nietzsche não é um convite para negar a existência de Deus e abraçar o ateísmo. Diferentemente daquilo que é mostrado no filme “Deus não está morto,” o centro da afirmação feita por Nietzsche não é que Deus não existe. Embora fosse um ateu convicto e tenha afirmado que a melhor coisa que poderia ser feita em favor do ser humano era se livrar da fé em Deus, Nietzsche estava mais que tudo observando que a sociedade moderna havia matado o Deus do Cristianismo reduzindo-o a um mero ser que existe para satisfazer o indivíduo que crê nele.

“Deus” já não é o Deus Criador que governa, mantém, e dá propósito para tudo e todos no mundo moderno. Portanto, “Deus está morto.”

Entendendo o ensino de Nietzsche de forma correta nos mostra que não precisamos ficar na defensiva diante da frase, “Deus está morto.” De fato, nós podemos como cristãos até mesmo concordar com a frase e observação do filósofo. Isto porque negar a observação feita por Nietzsche é simplesmente se negar a ver a realidade que temos no mundo desde o fim do século XIX. Basta olhar para a sociedade ocidental que vivemos atualmente e percebemos que Nietzsche estava certo em sua observação. O ser humano moderno, bem como toda a sociedade moderna, não considera Deus como o ser que dá significado e propósito para as suas vidas. Leis são outorgadas e aplicadas em nossa sociedade sem conexão alguma com a vontade de Deus—tanto por cristãos como também por não-cristãos. O entendimento de bom e mal não consulta o que Deus considera ser bom e mal para sua criação. Mesmo em meio a cristãos percebe-se que o ser que governa e orienta a vida do homem moderno não é Deus e a revelação divina mas sim aquilo que os seres humanos consideram ser o melhor para eles próprios.

Portanto, a melhor resposta para Nietzsche não é afirmar que “Deus não está morto.” Tal afirmação demonstraria que não entendemos a observação feita por Nietzsche, bem como não entendemos a situação e contexto que vivemos atualmente. Pelo contrário, a resposta e postura que precisamos assumir diante da observação que Deus está morto é pensar em como continuar continuar fiéis e pregar de maneira entendível e relevante para uma sociedade influenciada pela ausência de Deus. O desafio dado por Nietzsche não é “como provar que Deus não está morto” mas sim “como pregar e proclamar o Evangelho para uma sociedade em que claramente Deus está morto.” Nesse sentido, Nietzsche se torna um aliado, pois seus escritos observam muito bem o mundo em que vivemos, e oferecem uma imagem clara do que podemos encontrar na sociedade moderna.

Resumindo, um entendimento correto do que Nietzsche estava afirmando com a frase “Deus está morto” nos permite até mesmo concordar com a observação desse filósofo, uma vez que ele nos ajuda entender melhor a mudança que ocorreu na sociedade ocidental e oferece uma boa descrição do desafio que é pregar o Evangelho hoje em dia.

Isto não quer dizer que ao concordarmos com Nietzsche que “Deus está morto” nós estamos negando a ressurreição de Cristo ou mesmo que Deus não existe. De forma alguma! Isso quer dizer que entendemos a sociedade que vivemos, a qual não é mais a sociedade do século XVI que por sua vez era completamente influenciada por valores cristãos. E, entendendo o mundo e sociedade que vivemos, podemos nos preparar melhor para a missão de pregar e anunciar o Evangelho de Cristo, o qual vive e reina hoje e sempre. Somente quando formos capazes de reconhecer o desafio e encarar a realidade que enfrentamos atualmente é que poderemos considerar meios para responder de forma correta e fiel ao chamado de anunciar a Deus Pai, Filho, e Espírito Santo. Que ele nos conceda sensatez e conhecimento para tal fim.

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O Gado, o Jumento, e o Pastor

Havia um rebanho de ovelhas que pertenciam e eram cuidadas por seu pastor. Entre as ovelhas, havia uma árdua discussão entre o que elas deveriam fazer em relação ao que estava acontecendo na pastagem onde viviam. Isso porque algumas ovelhas ouviram falar de um certo boi que dizia ser o melhor líder que uma ovelha poderia ter. Tal discurso fez com que algumas ovelhas acreditassem em suas promessas e discursos desse tal boi, o que levou elas a seguir este boi como se não fossem mais parte do rebanho mas sim parte do assim chamado “gado” daquela pastagem. Ao ver isso acontecer, outras ovelhas do rebanho criticaram tais ovelhas que passaram a agir como parte do “gado” que seguia e defendia o certo boi líder do grupo. Estas ovelhas argumentavam que as ideias e promessas desse boi eram falsas e erradas. Por isso, elas afirmavam que seria melhor seguir um outro líder que discursava pela pastagem. Este outro líder já havia ocupado o lugar que o boi ocupava atualmente, guiando as ovelhas de acordo com seus discursos sobre o que era melhor para a vida na pastagem. No entanto, ele era atualmente conhecido por ter sido um péssimo líder, o que levou as ovelhas que seguiam o líder boi e cabeça do “gado” a chamar este líder de jumento. De fato, as ovelhas que se tornaram parte do “gado” afirmavam que todos os que apoiavam esse antigo líder jumento eram aquilo que eles apoiavam: “jumentos.” Assim, as ovelhas do rebanho que pertenciam ao “gado” afirmavam orgulhosamente que “preferiam ser gado do que jumentos.” Essa situação trouxe discórdia e desunião ao rebanho. Mais importante ainda, o rebanho que originalmente pertencia a um pastor agora estava dividido entre “gado” e “jumento”, restando poucas ovelhas que continuamente imploravam para as ovelhas de ambos os lados a voltar ao rebanho ao invés de seguir outro líder que não fosse o pastor desse rebanho.

Essa história representa o contexto que tenho observado em meio à Igreja Cristã no Brasil nos últimos tempos. Diante do cenário sociopolítico brasileiro que encontramos desde a última eleição, muitos membros do rebanho de Cristo têm se dividido entre polos completamente separados. De um lado, há cristãos que ouviram a voz de um certo “messias” e decidiram seguir um líder que prometeu uma nova realidade para eles. Do outro lado, há cristãos que desaprovam tanto o líder que estes outros cristãos seguiram como também a decisão de seguir tal “messias” político. O resto da situação reflete o resto da historinha. Resumindo, enquanto alguns cristãos se identificam como seguidores e apoiadores de um líder político, outros se identificam com um antigo líder que se opõe ao atual líder político.

Qual o problema dessa situação? O problema é que ao invés desses cristãos serem o que eles foram chamados e, de fato, recriados para ser—criaturas redimidas de Cristo e ovelhas do seu rebanho—, a maioria dos cristãos se identifica como “gado” ou “jumento”. E, quando alguma das ovelhas do rebanho tenta chamar ambos os lados de volta ao rebanho de Cristo a fim de testemunhar a palavra do seu Pastor ao invés de discursos políticos de um “boi” ou de um “jumento,” estes ouvem respostas como:

“Prefiro ser gado do que ser jumento;”

ou

“Prefiro ser jumento do que ser gado.”

Para ir direto ao ponto, ambas atitudes estão completamente erradas. Quando ele estava ensinando sobre o perigo das riquezas, Jesus disse que “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas,” conclui Jesus (Mateus 6.24, NAA). Aplicando esse ensino para o assunto diante de nós, podemos dizer que

ninguém pode servir a dois líderes—ao boi e o Pastor, ou ao jumento e o Pastor; porque ou irá odiar o boi/jumento e amar o Pastor, ou irá se dedicar ao boi/jumento e desprezar o Pastor. Ninguém pode servir a Deus e a líderes políticos.

Claro que você pode levantar a objeção que uma correta distinção entre os Dois Governos permitiria que isso fosse possível. Você estaria parcialmente correto. Isso porque se fosse mantida uma correta distinção entre os Dois Governos o senhorio de Cristo não estaria ameaçado na vida das ovelhas do seu rebanho. O problema é que tal distinção não é mantida. Frequentemente vejo cristãos defendendo e apoiando seu líder político unicamente com base em seus idealismos políticos, ou mesmo utilizando argumentos teológicos para embasar sua posição política. Em outras palavras, cristãos usam suas lentes político-ideológicas para interpretar a sua fé ao invés de usar a sua fé como lente para interpretar e se posicionar politicamente. De fato, às vezes essas defesas são feitas com tanta veemência que surgem dúvidas se tais cristãos já fizeram ou fariam tal defesa com tanta veemência em relação à sua fé em Cristo. Com isso eu não quero dizer que alguém precisa defender com unhas e dentes a sua fé para provar que acredita em Cristo. O que eu quero dizer com isso é que cristãos agem de tal forma que demonstram fidelidade em assuntos políticos não mais ao Senhor e Salvador do mundo mas sim a um mero líder político que promete coisas vãs e vazias que se vão com o tempo. É como se cada um pudesse ter a fé que desejar, mas a posição política “tem que ser igual a minha”.

Mais importante, tal postura dos cristãos prova o nível de separação e estrago que tal polarização política traz para a Igreja Cristã. Assim como na história oferecida como ilustração no início deste texto, as ovelhas do rebanho de Cristo estão priorizando ser parte de um “gado” ou de qualquer outro grupo ao invés de fazer parte e agir como alguém que pertence ao rebanho do Pastor Jesus Cristo. Isso é errado e precisa ser corrigido.

Ignorar os problemas existentes em nossa realidade sociopolítica brasileira não é uma opção. Nesse sentido, eu entendo a frustração de muitos cristãos em relação a tudo o que está acontecendo em nosso país. No entanto, quando cristãos se pronunciam—seja em conversas ou postagens em redes sociais—eles refletem sua identidade não como “gado” ou “jumento” ou qualquer outro idealismo mas sim como ovelhas que foram compradas e redimidas pelo Bom Pastor Jesus Cristo. Assim, a preferência do cristão não é “ser gado” ou “ser jumento” mas sim ser parte do rebanho daqueles que anunciam as boas novas de Cristo.

Se você leu até aqui, eu gostaria de fazer um pedido a você, e eu oro para que Deus lhe conceda o Espírito Santo a fim de que você possa fazer isso:

Lembre-se da sua identidade como filho de Deus, comprado por meio do sacrifício de Cristo, redimido por meio do Batismo, o qual faz parte do rebanho daqueles que têm a promessa da salvação e da vida eterna.

Não se pronuncie contra um grupo ou o outro, mas ame aqueles que divergem de você do mesmo modo que o seu Senhor amou aqueles que o rejeitaram e o mataram na cruz. Não semeie o ódio de um grupo político contra o outro, mas semeie o amor demonstrado pelo nosso Deus a todo o mundo. Ao passo que pessoas testemunham em favor de um boi ou de um jumento, testemunhe em favor do Pastor Jesus Cristo, o qual te salvou e quer salvar toda a humanidade, tanto os que se identificam como esquerda ou direita.

Por fim, siga o Pastor e se identifique como ovelha do seu rebanho. Não seja “gado;” não seja “jumento.” Seja aquilo que Jesus Cristo te fez através da sua obra: uma nova criatura redimida, ovelha do seu rebanho, luz para o mundo, e uma imagem presente do amor de Deus para todos aqueles que estão ao seu redor.

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Racismo: Como Lidar com Isso

Nota: Este texto foi escrito pelo Rev. Dr. Leopoldo Sanchez e publicado no site Concordia Theology, o qual é mantido pelo Concordia Seminary de St. Louis. O texto é de Agosto de 2017, quando outro caso público de racismo havia acontecido nos Estados Unidos (Charlottesville, VA). A tradução é livre do inglês.

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Rev. Dr. Leopoldo Sanchez

Em um mundo pecaminoso, o racismo não desaparecerá. De tempos em tempos ele mostra a sua cara feia em público. Mas ao invés de falar o que parece tão obvio—racismo é um pecado—aqui estão algumas formas para confrontar o racismo de frente e lidar com ele.

Arrependimento

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para arrependimento. Não apenas um convite para outra pessoa se arrepender, mas para o meu arrependimento próprio. De fato, isso é mais difícil que condenar o racismo em geral porque isso faz do racismo meu problema pessoal. Aqui nós pecamos por comissão e omissão (isto é, por cometer e omitir o pecado).

Nossa carne pecaminosa encontra orgulhosamente maneiras de evitar pessoas de outras raças ou de olhar para elas de uma forma suspeitosa. Ou simplesmente falha em reconhecer o racismo como um problema real na nossa sociedade, ou mesmo a dor das pessoas que sofreram discriminação por causa da cor da sua pele e ainda sofrem regularmente. A resposta correta para tal situação não é afirmar que “não tenho nem sequer um só osso racista em meu corpo” nem apelar para a inocência ou ignorância do que é chamado de pecado original da América. Ganhar um argumento a respeito do racismo ser ou não um pecado pessoal ou sistêmico também não vai salvar ninguém.

A carne pecaminosa encontra todos as maneiras de evitar encarar e lidar com o racismo e etnocentrismo. Então, a melhor resposta inicial é simplesmente se arrepender: “Pecamos contra ti em pensamentos, palavras, e ações, pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer.” E então esperar pela resposta de Deus, confiando em sua misericórdia: “Eu perdoo todos os teus pecados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Neste ritmo cíclico de arrependimento, de contrição e absolvição, cristãos aprendem a viver diariamente debaixo da marca do seu batismo em Cristo, afogando a carne pecaminosa a fim de que uma nova criatura possa levantar todos os dias.

Vigilância

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para vigilância. Pecado não é somente um estado corrupto mas sim uma forma de viver no mundo. Esta é a razão pela qual não confessamos simplesmente que somos pecadores por natureza (corrompida), mas também que pecamos especialmente em pensamentos, palavras, e ações. Assim, racismo não é apenas a respeito de pessoas demonstrando em público o seu racismo pessoal, mas muito mais frequentemente pessoas pensando e falando sutilmente de maneiras racistas e etnocêntricas.

Ser vigilante é não fechar os olhos para o racismo, fingindo que ele não existe de verdade no meio de pessoas “boas” como nós mas apenas no meio das poucas “maçãs podres” lá fora. Ao invés disso, cristãos abertamente reconhecem que a vida é uma dura peregrinação no deserto, onde estamos constantemente vulneráveis às seduções do maligno, das quais se inclui a ideia que somos superiores aos outros de alguma forma. Se ter um complexo de superioridade não fosse um problema humano permanente, por que os cristãos teriam que ser lembrados constantemente de colocar os outros antes deles mesmos? Portanto, devemos ser cuidadosos para não nos tornarmos confiantes demais em nosso poder próprio de resistir a sedução da supremacia, a fim de que não nos tornemos uma presa fácil para ela sem mesmo notarmos isso.

Outra sedução comum que estamos vulneráveis é a ideia de que se lutarmos contra carne e sangue e matarmos os nossos inimigos (tanto literalmente quanto com nossas palavras), então nós faremos a nossa parte para erradicar da sociedade os mantenedores do racismo. No entanto, sabemos que o ódio apenas gera mais ódio. Aqui, cristãos devem evitar a sedução de imitar a linguagem do mundo, a violência de palavras (mesmo aquelas pronunciadas em nome da liberdade de expressão), as quais apresentam monstros ao passo que negligenciam o potencial dano à suas próprias vidas espirituais de um medo e distanciamento não reconhecido em relação à pessoas que se parecem diferentes de nós mesmos.

É fácil ir atrás de malfeitores. E, de fato, quando vemos o mal, devemos chamá-lo pelo que ele é. Mas, vamos admitir: é mais difícil ser responsável diante de outras pessoas por nossa maneira de falar, evitando atitudes baseadas em esteriótipos e mitos mantidos por uma mídia sensacionalista em relação a pessoas de raças e etnias diferentes. Ninguém está imune destas seduções. Então, a resposta correta para o racismo é não negar nossa vulnerabilidade diante dele, mas sim ser vigilante e orar: “Não nos deixe cair em tentação,” e “Que o teu santo anjo esteja conosco, para que o inimigo maligno não tenha poder algum sobre nós.”

Sacrifício

Manifestações públicas de racismo oferecem uma oportunidade de serviço. Contrição e perdão carregam os frutos do arrependimento. Unidos à Videira que é Cristo, cristãos carregam os frutos do Espírito de Jesus em suas vidas. Racismo, por outro lado, carrega sinais claros das obras da carne. Racismo promove inimizade, conflito, ódio, egoísmo, discórdia, e espírito de divisão. Em meio a tais paixões e desejos pecaminosos, os cristãos ousam viver e andar pelo Espírito. Fazer isso nunca é fácil. Isso envolve sacrifício.

Onde há ódio, os cristãos demonstram amor. Onde há tristeza, alegria; onde há conflito, paz; onde há ansiedade, paciência; onde há grosseria, gentileza; e assim por diante. Nunca haverá excesso destas coisas em um mundo pecaminoso. Andar no Espírito não ocorre sem sacrifício pessoal. Ao demonstrar amor, nos tornamos alvo de ódio; quando compartilhamos alegria, ouvimos a tristeza de outros; quando pregamos a paz, conflitos vêm em nossa direção; quando ensinamos paciência, carregamos as ansiedades dos outros; quando demonstramos gentileza, pessoas grosseiramente nos ignoram.

Racismo é uma demonstração de egocentrismo. É o amor a si mesmo que ama apenas aqueles que se parecem comigo. É uma forma do que Lutero chamou de nosso ser curvado em nós mesmos. Serviço nos leva para fora de nós mesmos, para longe de um amor a si mesmo mal orientado, e para dentro do mundo dos irmãos que são diferentes de nós. Começamos a ver a vida em termos da dor dos outros, inclusive aqueles que raça e etnia fazem que sejam objetos de palavras e atos danosos, e ousamos falar em favor deles e defendê-los quando são apresentados da pior maneira possível ou quando suas vidas são ameaçadas de alguma maneira—mesmo que nós soframos ao fazer isso. Ninguém disse que ser cristão era fácil.

Hospitalidade

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para hospitalidade. Racismo é uma forma de exclusão e visa a alienação, um pecado que procura destruir a esperança humana de pertencer e ser aceito. Ele ensina que humanos podem justificar suas vidas—sua dignidade e valor—diante de outros com base na cor dos seus corpos e os privilégios que acompanham a identidade racial deles.

Em um mundo onde nossas igrejas e comunidades permanecem frequentemente segregadas de facto, começamos a nos acostumar com aqueles que se parecem e falam como nós. Temos dificuldades de atravessar fronteiras raciais, étnicas, culturais, e sociais para encontrar o próximo no outro lado. Talvez temos medo do desconhecido. Talvez estamos acostumados demais. Podemos chamar isso da forma que quisermos. Mas, seja qual for a razão, nós estamos perdendo algo. E se Deus nos surpreender no outro lado da fronteira e abençoar ricamente nossas vidas com vizinhos que se parecem e falam de uma maneira diferente?

Jesus era de Nazaré na Galiléia, lugar conhecido por nada de bom vir de lá. Por causa da proximidade deles com os gentios, os galileus eram vistos como menos que puros ou sábios. No entanto, Deus nos surpreende e opera a salvação que vem dele por meio de um galileu! E é dessa suspeitosa Galiléia que Jesus envia seus discípulos galileus para fazer discípulos batizando e ensinando. Aqui, novamente, Deus desafia as expectativas comuns do ser humano. Em seu ministério, Jesus imergiu na vida dos samaritanos, os quais eram estranhos e estrangeiros de uma raça mestiça e religião considerada inimiga de Deus. O Espírito de Jesus moveu Filipe em Atos dos Apóstolos a entrar também na terra dos samaritanos, onde o evangelista os recebeu no Reino de Deus através do batismo em nome de Jesus, e os samaritanos receberam o dom do Espírito Santo. A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

Nós também aprendemos a alcançar o próximo fora da nossa área de conforto. Alguém lida com o racismo convidando pessoas de raças diferentes para compartilhar a vida conosco em nossas casas, igrejas, e comunidades. Uma atitude acolhedora nos leva além do reconhecimento do outro ao passo que permanecemos em um universo paralelo. Hospitalidade atravessa fronteiras a fim de aprender e colaborar com novos vizinhos. Você tem tempo para tomar um café?

Devoção

Demonstrações publicas de racismo oferecem uma oportunidade para devoção. Quando pessoas de raças diferentes lutam contra si mesmas, ou mais provavelmente (e talvez mais problematicamente) mantém distância umas das outras, nós perdemos todo os respeito pela criação de Deus. Nós não mais reconhecemos que quando estamos diante de outro ser humano nós estamos diante da criação de Deus. E já que adoração inclui fé e seus frutos (amor), o racismo impede a correta adoração a Deus. Ele desrespeita tanto o Criador quanto sua criação.

A verdadeira adoração recebe com alegria os dons de Deus da criação e redenção. Quando dedicamos tempo para nos regozijar em tais dons? O dia do descanso era exatamente o momento para fazer isso. O povo de Deus manteve o Sabbath (Sábado) não apenas deixando de trabalhar, mas agradecendo a Deus pela obra das suas mãos, e por ter salvo o seu povo através do Êxodo. No entanto, o ponto mais abrangente do dia do descanso era tirar um tempo de qualquer dia em meio à vidas cheias de coisas para fazer e observar a grandiosidade desses dons divinos com ações de graças e louvor, alegria e celebração. Hoje em dia estamos tão ocupados que já não paramos para nos maravilhar na beleza da obra de Deus, inclusive no dom de ter vizinhos, e celebrar tal dom.

O racismo impede a correta adoração a Deus porque ele nega a beleza da criação, a qual vem de nenhuma outra forma a não ser por meio de várias cores. O racismo também nega o dom da igreja na qual Deus tem unido a si mesmo através de sua Palavra um povo de nações, raças, e linguagens diferentes. Fundamentados nas promessas de Deus de uma criação e uma nova criação, os cristãos aprendem novamente a olhar para o próximo de raças diferentes por meio dos olhos da fé e do amor—isto é, como criaturas preciosas do próprio Deus pelas quais Cristo entregou a sua vida. Eles também aprendem a dar graças e louvar a Deus pelas vidas e dons que novos vizinhos trazem para eles pessoalmente, bem como também para a igreja e para o nosso mundo. E sim, eles aprendem a se alegrar na companhia uns dos outros e viver em união.

Vem, Espírito Santo!

Portanto, como respondemos ao racismo, seja sútil ou grosseiro, não somente em público mas também em todos os momentos? Olhando para o espelho com olhos de arrependimento, para as nossas vidas espirituais com olhos de vigilância, para fora de nós mesmos com olhos de serviço, para o próximo excluído com olhos de acolhimento, e para o Doador de todos os dons com olhos de devoção. Esta imagem da vida é certamente um peso para qualquer pessoa cumprir por conta própria. Inevitavelmente, nós falharemos diante da tarefa de lidar com impulsos racistas e etnocêntricos.

No entanto, a graça de Cristo é abundante e ele nos dá o seu Espírito que providencia o que é necessário para a jornada. Se há falta de arrependimento, o Espírito irá matar o pecador em nós para nos vivificar. Se há falta de vigilância em meio às seduções do mal, o Espírito nos fará atentos e responsáveis diante uns dos outros em nossos pensamentos, palavras, e ações. Se há falta de serviço e hospitalidade, o Espírito aquecerá nossos corações frios em relação ao outro desconhecido e carregará os seus frutos em nossas vidas, nos levando a engajar em atos de sacrifício e acolhimento em favor do próximo marginalizado. Se há falta de devoção, o Espírito nos dará descanso em Deus para pararmos e nos maravilhar com a beleza colorida da sua criação diante do nosso próximo. Então vem, Espírito Santo! Nós precisamos de você!

Featured image: Ricardo Gomez Angel, “lovely hands,” acessado dia 4 de Junho de 2020 em https://unsplash.com/photos/D9kOnC_1AHw.