Racismo: Como Lidar com Isso

Nota: Este texto foi escrito pelo Rev. Dr. Leopoldo Sanchez e publicado no site Concordia Theology, o qual é mantido pelo Concordia Seminary de St. Louis. O texto é de Agosto de 2017, quando outro caso público de racismo havia acontecido nos Estados Unidos (Charlottesville, VA). A tradução é livre do inglês.

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Rev. Dr. Leopoldo Sanchez

Em um mundo pecaminoso, o racismo não desaparecerá. De tempos em tempos ele mostra a sua cara feia em público. Mas ao invés de falar o que parece tão obvio—racismo é um pecado—aqui estão algumas formas para confrontar o racismo de frente e lidar com ele.

Arrependimento

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para arrependimento. Não apenas um convite para outra pessoa se arrepender, mas para o meu arrependimento próprio. De fato, isso é mais difícil que condenar o racismo em geral porque isso faz do racismo meu problema pessoal. Aqui nós pecamos por comissão e omissão (isto é, por cometer e omitir o pecado).

Nossa carne pecaminosa encontra orgulhosamente maneiras de evitar pessoas de outras raças ou de olhar para elas de uma forma suspeitosa. Ou simplesmente falha em reconhecer o racismo como um problema real na nossa sociedade, ou mesmo a dor das pessoas que sofreram discriminação por causa da cor da sua pele e ainda sofrem regularmente. A resposta correta para tal situação não é afirmar que “não tenho nem sequer um só osso racista em meu corpo” nem apelar para a inocência ou ignorância do que é chamado de pecado original da América. Ganhar um argumento a respeito do racismo ser ou não um pecado pessoal ou sistêmico também não vai salvar ninguém.

A carne pecaminosa encontra todos as maneiras de evitar encarar e lidar com o racismo e etnocentrismo. Então, a melhor resposta inicial é simplesmente se arrepender: “Pecamos contra ti em pensamentos, palavras, e ações, pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer.” E então esperar pela resposta de Deus, confiando em sua misericórdia: “Eu perdoo todos os teus pecados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Neste ritmo cíclico de arrependimento, de contrição e absolvição, cristãos aprendem a viver diariamente debaixo da marca do seu batismo em Cristo, afogando a carne pecaminosa a fim de que uma nova criatura possa levantar todos os dias.

Vigilância

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para vigilância. Pecado não é somente um estado corrupto mas sim uma forma de viver no mundo. Esta é a razão pela qual não confessamos simplesmente que somos pecadores por natureza (corrompida), mas também que pecamos especialmente em pensamentos, palavras, e ações. Assim, racismo não é apenas a respeito de pessoas demonstrando em público o seu racismo pessoal, mas muito mais frequentemente pessoas pensando e falando sutilmente de maneiras racistas e etnocêntricas.

Ser vigilante é não fechar os olhos para o racismo, fingindo que ele não existe de verdade no meio de pessoas “boas” como nós mas apenas no meio das poucas “maçãs podres” lá fora. Ao invés disso, cristãos abertamente reconhecem que a vida é uma dura peregrinação no deserto, onde estamos constantemente vulneráveis às seduções do maligno, das quais se inclui a ideia que somos superiores aos outros de alguma forma. Se ter um complexo de superioridade não fosse um problema humano permanente, por que os cristãos teriam que ser lembrados constantemente de colocar os outros antes deles mesmos? Portanto, devemos ser cuidadosos para não nos tornarmos confiantes demais em nosso poder próprio de resistir a sedução da supremacia, a fim de que não nos tornemos uma presa fácil para ela sem mesmo notarmos isso.

Outra sedução comum que estamos vulneráveis é a ideia de que se lutarmos contra carne e sangue e matarmos os nossos inimigos (tanto literalmente quanto com nossas palavras), então nós faremos a nossa parte para erradicar da sociedade os mantenedores do racismo. No entanto, sabemos que o ódio apenas gera mais ódio. Aqui, cristãos devem evitar a sedução de imitar a linguagem do mundo, a violência de palavras (mesmo aquelas pronunciadas em nome da liberdade de expressão), as quais apresentam monstros ao passo que negligenciam o potencial dano à suas próprias vidas espirituais de um medo e distanciamento não reconhecido em relação à pessoas que se parecem diferentes de nós mesmos.

É fácil ir atrás de malfeitores. E, de fato, quando vemos o mal, devemos chamá-lo pelo que ele é. Mas, vamos admitir: é mais difícil ser responsável diante de outras pessoas por nossa maneira de falar, evitando atitudes baseadas em esteriótipos e mitos mantidos por uma mídia sensacionalista em relação a pessoas de raças e etnias diferentes. Ninguém está imune destas seduções. Então, a resposta correta para o racismo é não negar nossa vulnerabilidade diante dele, mas sim ser vigilante e orar: “Não nos deixe cair em tentação,” e “Que o teu santo anjo esteja conosco, para que o inimigo maligno não tenha poder algum sobre nós.”

Sacrifício

Manifestações públicas de racismo oferecem uma oportunidade de serviço. Contrição e perdão carregam os frutos do arrependimento. Unidos à Videira que é Cristo, cristãos carregam os frutos do Espírito de Jesus em suas vidas. Racismo, por outro lado, carrega sinais claros das obras da carne. Racismo promove inimizade, conflito, ódio, egoísmo, discórdia, e espírito de divisão. Em meio a tais paixões e desejos pecaminosos, os cristãos ousam viver e andar pelo Espírito. Fazer isso nunca é fácil. Isso envolve sacrifício.

Onde há ódio, os cristãos demonstram amor. Onde há tristeza, alegria; onde há conflito, paz; onde há ansiedade, paciência; onde há grosseria, gentileza; e assim por diante. Nunca haverá excesso destas coisas em um mundo pecaminoso. Andar no Espírito não ocorre sem sacrifício pessoal. Ao demonstrar amor, nos tornamos alvo de ódio; quando compartilhamos alegria, ouvimos a tristeza de outros; quando pregamos a paz, conflitos vêm em nossa direção; quando ensinamos paciência, carregamos as ansiedades dos outros; quando demonstramos gentileza, pessoas grosseiramente nos ignoram.

Racismo é uma demonstração de egocentrismo. É o amor a si mesmo que ama apenas aqueles que se parecem comigo. É uma forma do que Lutero chamou de nosso ser curvado em nós mesmos. Serviço nos leva para fora de nós mesmos, para longe de um amor a si mesmo mal orientado, e para dentro do mundo dos irmãos que são diferentes de nós. Começamos a ver a vida em termos da dor dos outros, inclusive aqueles que raça e etnia fazem que sejam objetos de palavras e atos danosos, e ousamos falar em favor deles e defendê-los quando são apresentados da pior maneira possível ou quando suas vidas são ameaçadas de alguma maneira—mesmo que nós soframos ao fazer isso. Ninguém disse que ser cristão era fácil.

Hospitalidade

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para hospitalidade. Racismo é uma forma de exclusão e visa a alienação, um pecado que procura destruir a esperança humana de pertencer e ser aceito. Ele ensina que humanos podem justificar suas vidas—sua dignidade e valor—diante de outros com base na cor dos seus corpos e os privilégios que acompanham a identidade racial deles.

Em um mundo onde nossas igrejas e comunidades permanecem frequentemente segregadas de facto, começamos a nos acostumar com aqueles que se parecem e falam como nós. Temos dificuldades de atravessar fronteiras raciais, étnicas, culturais, e sociais para encontrar o próximo no outro lado. Talvez temos medo do desconhecido. Talvez estamos acostumados demais. Podemos chamar isso da forma que quisermos. Mas, seja qual for a razão, nós estamos perdendo algo. E se Deus nos surpreender no outro lado da fronteira e abençoar ricamente nossas vidas com vizinhos que se parecem e falam de uma maneira diferente?

Jesus era de Nazaré na Galiléia, lugar conhecido por nada de bom vir de lá. Por causa da proximidade deles com os gentios, os galileus eram vistos como menos que puros ou sábios. No entanto, Deus nos surpreende e opera a salvação que vem dele por meio de um galileu! E é dessa suspeitosa Galiléia que Jesus envia seus discípulos galileus para fazer discípulos batizando e ensinando. Aqui, novamente, Deus desafia as expectativas comuns do ser humano. Em seu ministério, Jesus imergiu na vida dos samaritanos, os quais eram estranhos e estrangeiros de uma raça mestiça e religião considerada inimiga de Deus. O Espírito de Jesus moveu Filipe em Atos dos Apóstolos a entrar também na terra dos samaritanos, onde o evangelista os recebeu no Reino de Deus através do batismo em nome de Jesus, e os samaritanos receberam o dom do Espírito Santo. A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

Nós também aprendemos a alcançar o próximo fora da nossa área de conforto. Alguém lida com o racismo convidando pessoas de raças diferentes para compartilhar a vida conosco em nossas casas, igrejas, e comunidades. Uma atitude acolhedora nos leva além do reconhecimento do outro ao passo que permanecemos em um universo paralelo. Hospitalidade atravessa fronteiras a fim de aprender e colaborar com novos vizinhos. Você tem tempo para tomar um café?

Devoção

Demonstrações publicas de racismo oferecem uma oportunidade para devoção. Quando pessoas de raças diferentes lutam contra si mesmas, ou mais provavelmente (e talvez mais problematicamente) mantém distância umas das outras, nós perdemos todo os respeito pela criação de Deus. Nós não mais reconhecemos que quando estamos diante de outro ser humano nós estamos diante da criação de Deus. E já que adoração inclui fé e seus frutos (amor), o racismo impede a correta adoração a Deus. Ele desrespeita tanto o Criador quanto sua criação.

A verdadeira adoração recebe com alegria os dons de Deus da criação e redenção. Quando dedicamos tempo para nos regozijar em tais dons? O dia do descanso era exatamente o momento para fazer isso. O povo de Deus manteve o Sabbath (Sábado) não apenas deixando de trabalhar, mas agradecendo a Deus pela obra das suas mãos, e por ter salvo o seu povo através do Êxodo. No entanto, o ponto mais abrangente do dia do descanso era tirar um tempo de qualquer dia em meio à vidas cheias de coisas para fazer e observar a grandiosidade desses dons divinos com ações de graças e louvor, alegria e celebração. Hoje em dia estamos tão ocupados que já não paramos para nos maravilhar na beleza da obra de Deus, inclusive no dom de ter vizinhos, e celebrar tal dom.

O racismo impede a correta adoração a Deus porque ele nega a beleza da criação, a qual vem de nenhuma outra forma a não ser por meio de várias cores. O racismo também nega o dom da igreja na qual Deus tem unido a si mesmo através de sua Palavra um povo de nações, raças, e linguagens diferentes. Fundamentados nas promessas de Deus de uma criação e uma nova criação, os cristãos aprendem novamente a olhar para o próximo de raças diferentes por meio dos olhos da fé e do amor—isto é, como criaturas preciosas do próprio Deus pelas quais Cristo entregou a sua vida. Eles também aprendem a dar graças e louvar a Deus pelas vidas e dons que novos vizinhos trazem para eles pessoalmente, bem como também para a igreja e para o nosso mundo. E sim, eles aprendem a se alegrar na companhia uns dos outros e viver em união.

Vem, Espírito Santo!

Portanto, como respondemos ao racismo, seja sútil ou grosseiro, não somente em público mas também em todos os momentos? Olhando para o espelho com olhos de arrependimento, para as nossas vidas espirituais com olhos de vigilância, para fora de nós mesmos com olhos de serviço, para o próximo excluído com olhos de acolhimento, e para o Doador de todos os dons com olhos de devoção. Esta imagem da vida é certamente um peso para qualquer pessoa cumprir por conta própria. Inevitavelmente, nós falharemos diante da tarefa de lidar com impulsos racistas e etnocêntricos.

No entanto, a graça de Cristo é abundante e ele nos dá o seu Espírito que providencia o que é necessário para a jornada. Se há falta de arrependimento, o Espírito irá matar o pecador em nós para nos vivificar. Se há falta de vigilância em meio às seduções do mal, o Espírito nos fará atentos e responsáveis diante uns dos outros em nossos pensamentos, palavras, e ações. Se há falta de serviço e hospitalidade, o Espírito aquecerá nossos corações frios em relação ao outro desconhecido e carregará os seus frutos em nossas vidas, nos levando a engajar em atos de sacrifício e acolhimento em favor do próximo marginalizado. Se há falta de devoção, o Espírito nos dará descanso em Deus para pararmos e nos maravilhar com a beleza colorida da sua criação diante do nosso próximo. Então vem, Espírito Santo! Nós precisamos de você!

Featured image: Ricardo Gomez Angel, “lovely hands,” acessado dia 4 de Junho de 2020 em https://unsplash.com/photos/D9kOnC_1AHw.

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