O Gado, o Jumento, e o Pastor

Havia um rebanho de ovelhas que pertenciam e eram cuidadas por seu pastor. Entre as ovelhas, havia uma árdua discussão entre o que elas deveriam fazer em relação ao que estava acontecendo na pastagem onde viviam. Isso porque algumas ovelhas ouviram falar de um certo boi que dizia ser o melhor líder que uma ovelha poderia ter. Tal discurso fez com que algumas ovelhas acreditassem em suas promessas e discursos desse tal boi, o que levou elas a seguir este boi como se não fossem mais parte do rebanho mas sim parte do assim chamado “gado” daquela pastagem. Ao ver isso acontecer, outras ovelhas do rebanho criticaram tais ovelhas que passaram a agir como parte do “gado” que seguia e defendia o certo boi líder do grupo. Estas ovelhas argumentavam que as ideias e promessas desse boi eram falsas e erradas. Por isso, elas afirmavam que seria melhor seguir um outro líder que discursava pela pastagem. Este outro líder já havia ocupado o lugar que o boi ocupava atualmente, guiando as ovelhas de acordo com seus discursos sobre o que era melhor para a vida na pastagem. No entanto, ele era atualmente conhecido por ter sido um péssimo líder, o que levou as ovelhas que seguiam o líder boi e cabeça do “gado” a chamar este líder de jumento. De fato, as ovelhas que se tornaram parte do “gado” afirmavam que todos os que apoiavam esse antigo líder jumento eram aquilo que eles apoiavam: “jumentos.” Assim, as ovelhas do rebanho que pertenciam ao “gado” afirmavam orgulhosamente que “preferiam ser gado do que jumentos.” Essa situação trouxe discórdia e desunião ao rebanho. Mais importante ainda, o rebanho que originalmente pertencia a um pastor agora estava dividido entre “gado” e “jumento”, restando poucas ovelhas que continuamente imploravam para as ovelhas de ambos os lados a voltar ao rebanho ao invés de seguir outro líder que não fosse o pastor desse rebanho.

Essa história representa o contexto que tenho observado em meio à Igreja Cristã no Brasil nos últimos tempos. Diante do cenário sociopolítico brasileiro que encontramos desde a última eleição, muitos membros do rebanho de Cristo têm se dividido entre polos completamente separados. De um lado, há cristãos que ouviram a voz de um certo “messias” e decidiram seguir um líder que prometeu uma nova realidade para eles. Do outro lado, há cristãos que desaprovam tanto o líder que estes outros cristãos seguiram como também a decisão de seguir tal “messias” político. O resto da situação reflete o resto da historinha. Resumindo, enquanto alguns cristãos se identificam como seguidores e apoiadores de um líder político, outros se identificam com um antigo líder que se opõe ao atual líder político.

Qual o problema dessa situação? O problema é que ao invés desses cristãos serem o que eles foram chamados e, de fato, recriados para ser—criaturas redimidas de Cristo e ovelhas do seu rebanho—, a maioria dos cristãos se identifica como “gado” ou “jumento”. E, quando alguma das ovelhas do rebanho tenta chamar ambos os lados de volta ao rebanho de Cristo a fim de testemunhar a palavra do seu Pastor ao invés de discursos políticos de um “boi” ou de um “jumento,” estes ouvem respostas como:

“Prefiro ser gado do que ser jumento;”

ou

“Prefiro ser jumento do que ser gado.”

Para ir direto ao ponto, ambas atitudes estão completamente erradas. Quando ele estava ensinando sobre o perigo das riquezas, Jesus disse que “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas,” conclui Jesus (Mateus 6.24, NAA). Aplicando esse ensino para o assunto diante de nós, podemos dizer que

ninguém pode servir a dois líderes—ao boi e o Pastor, ou ao jumento e o Pastor; porque ou irá odiar o boi/jumento e amar o Pastor, ou irá se dedicar ao boi/jumento e desprezar o Pastor. Ninguém pode servir a Deus e a líderes políticos.

Claro que você pode levantar a objeção que uma correta distinção entre os Dois Governos permitiria que isso fosse possível. Você estaria parcialmente correto. Isso porque se fosse mantida uma correta distinção entre os Dois Governos o senhorio de Cristo não estaria ameaçado na vida das ovelhas do seu rebanho. O problema é que tal distinção não é mantida. Frequentemente vejo cristãos defendendo e apoiando seu líder político unicamente com base em seus idealismos políticos, ou mesmo utilizando argumentos teológicos para embasar sua posição política. Em outras palavras, cristãos usam suas lentes político-ideológicas para interpretar a sua fé ao invés de usar a sua fé como lente para interpretar e se posicionar politicamente. De fato, às vezes essas defesas são feitas com tanta veemência que surgem dúvidas se tais cristãos já fizeram ou fariam tal defesa com tanta veemência em relação à sua fé em Cristo. Com isso eu não quero dizer que alguém precisa defender com unhas e dentes a sua fé para provar que acredita em Cristo. O que eu quero dizer com isso é que cristãos agem de tal forma que demonstram fidelidade em assuntos políticos não mais ao Senhor e Salvador do mundo mas sim a um mero líder político que promete coisas vãs e vazias que se vão com o tempo. É como se cada um pudesse ter a fé que desejar, mas a posição política “tem que ser igual a minha”.

Mais importante, tal postura dos cristãos prova o nível de separação e estrago que tal polarização política traz para a Igreja Cristã. Assim como na história oferecida como ilustração no início deste texto, as ovelhas do rebanho de Cristo estão priorizando ser parte de um “gado” ou de qualquer outro grupo ao invés de fazer parte e agir como alguém que pertence ao rebanho do Pastor Jesus Cristo. Isso é errado e precisa ser corrigido.

Ignorar os problemas existentes em nossa realidade sociopolítica brasileira não é uma opção. Nesse sentido, eu entendo a frustração de muitos cristãos em relação a tudo o que está acontecendo em nosso país. No entanto, quando cristãos se pronunciam—seja em conversas ou postagens em redes sociais—eles refletem sua identidade não como “gado” ou “jumento” ou qualquer outro idealismo mas sim como ovelhas que foram compradas e redimidas pelo Bom Pastor Jesus Cristo. Assim, a preferência do cristão não é “ser gado” ou “ser jumento” mas sim ser parte do rebanho daqueles que anunciam as boas novas de Cristo.

Se você leu até aqui, eu gostaria de fazer um pedido a você, e eu oro para que Deus lhe conceda o Espírito Santo a fim de que você possa fazer isso:

Lembre-se da sua identidade como filho de Deus, comprado por meio do sacrifício de Cristo, redimido por meio do Batismo, o qual faz parte do rebanho daqueles que têm a promessa da salvação e da vida eterna.

Não se pronuncie contra um grupo ou o outro, mas ame aqueles que divergem de você do mesmo modo que o seu Senhor amou aqueles que o rejeitaram e o mataram na cruz. Não semeie o ódio de um grupo político contra o outro, mas semeie o amor demonstrado pelo nosso Deus a todo o mundo. Ao passo que pessoas testemunham em favor de um boi ou de um jumento, testemunhe em favor do Pastor Jesus Cristo, o qual te salvou e quer salvar toda a humanidade, tanto os que se identificam como esquerda ou direita.

Por fim, siga o Pastor e se identifique como ovelha do seu rebanho. Não seja “gado;” não seja “jumento.” Seja aquilo que Jesus Cristo te fez através da sua obra: uma nova criatura redimida, ovelha do seu rebanho, luz para o mundo, e uma imagem presente do amor de Deus para todos aqueles que estão ao seu redor.

Featured image by kailash kumar from “public domain photos” on Pexels.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s