Nietzsche: “Deus Está Morto”

Deus está morto. Friedrich Nietzsche afirmou esta famosa frase em seu livro A Gaia Ciência em 1887 (2a Ed.) no conhecido conto do “homem louco.” Mas, o que essa frase significa?

Essa semana eu conversei com o Pr. Lucas Prando em um podcast sobre o tema. No vídeo, eu mencionei que há muito desentendimento sobre o que se refere essa famosa frase do filósofo alemão, e tentei explicar que mais do que um convite para negar a existência de Deus, Nietzsche estava observando uma mudança drástica na estrutura da sociedade moderna da sua época ao dizer que Deus estava morto.

Podcast ICP via YouTube.

Ao afirmar, “Deus está morto,” Nietzsche estava observando que o papel e a função que o Deus do Cristianismo ocupava na sociedade até o século XVI já não era mais ocupado por Deus. Nietzsche tinha consciência que Deus era mais do que um ser que ocupava os pensamentos de pessoas religiosas. Ele sabia que Deus era visto como o Criador, o ser supremo que dava significado e propósito para a vida de todos e tudo na sociedade. Com o desenvolvimento da idade moderna, principalmente depois do Iluminismo, o ser humano passa a ocupar o centro das atenções, especialmente por causa da ênfase no indivíduo. Ao invés da vontade divina, a razão passa a ser o que define se algo é bom ou ruim na sociedade moderna. Deus passa a governar apenas o mundo metafísico, o mundo da religião, enquanto o ser humano governa o mundo material através da razão.

Quando chegamos na época em que Nietzsche escreveu sobre a morte de Deus, a sociedade ocidental já havia mudado completamente. Deus passa a ser o Deus do indivíduo ao invés do Senhor e Criador de todo o universo. Uma ilustração é o que ainda se observa com frequência em meio a cristãos. Quando perguntados sobre “quem é Deus?” muitos cristãos respondem que ele é o ser que provê apoio e ajuda sempre que eles necessitam. Em outras palavras, Deus deixa de ser o Governador e Mantenedor do universo para ser um bom camarada, alguém que você pede ajuda para conseguir superar os problemas da sua vida, ou para conseguir uma promoção no trabalho, etc.

Diante disso, percebemos que “Deus” já não é mais Deus na sociedade moderna. Ele passa a ser um ser que está no mesmo nível que nós seres humanos, só que mais legal e compreensível. Nesse sentido, o Deus confessado e crido desde o início da Igreja Cristã até o século XVI é morto pelo indivíduo moderno. Nos termos de Nietzsche, “Deus está morto, e nós o matamos.”

Isso significa que a frase de Nietzsche não é um convite para negar a existência de Deus e abraçar o ateísmo. Diferentemente daquilo que é mostrado no filme “Deus não está morto,” o centro da afirmação feita por Nietzsche não é que Deus não existe. Embora fosse um ateu convicto e tenha afirmado que a melhor coisa que poderia ser feita em favor do ser humano era se livrar da fé em Deus, Nietzsche estava mais que tudo observando que a sociedade moderna havia matado o Deus do Cristianismo reduzindo-o a um mero ser que existe para satisfazer o indivíduo que crê nele.

“Deus” já não é o Deus Criador que governa, mantém, e dá propósito para tudo e todos no mundo moderno. Portanto, “Deus está morto.”

Entendendo o ensino de Nietzsche de forma correta nos mostra que não precisamos ficar na defensiva diante da frase, “Deus está morto.” De fato, nós podemos como cristãos até mesmo concordar com a frase e observação do filósofo. Isto porque negar a observação feita por Nietzsche é simplesmente se negar a ver a realidade que temos no mundo desde o fim do século XIX. Basta olhar para a sociedade ocidental que vivemos atualmente e percebemos que Nietzsche estava certo em sua observação. O ser humano moderno, bem como toda a sociedade moderna, não considera Deus como o ser que dá significado e propósito para as suas vidas. Leis são outorgadas e aplicadas em nossa sociedade sem conexão alguma com a vontade de Deus—tanto por cristãos como também por não-cristãos. O entendimento de bom e mal não consulta o que Deus considera ser bom e mal para sua criação. Mesmo em meio a cristãos percebe-se que o ser que governa e orienta a vida do homem moderno não é Deus e a revelação divina mas sim aquilo que os seres humanos consideram ser o melhor para eles próprios.

Portanto, a melhor resposta para Nietzsche não é afirmar que “Deus não está morto.” Tal afirmação demonstraria que não entendemos a observação feita por Nietzsche, bem como não entendemos a situação e contexto que vivemos atualmente. Pelo contrário, a resposta e postura que precisamos assumir diante da observação que Deus está morto é pensar em como continuar continuar fiéis e pregar de maneira entendível e relevante para uma sociedade influenciada pela ausência de Deus. O desafio dado por Nietzsche não é “como provar que Deus não está morto” mas sim “como pregar e proclamar o Evangelho para uma sociedade em que claramente Deus está morto.” Nesse sentido, Nietzsche se torna um aliado, pois seus escritos observam muito bem o mundo em que vivemos, e oferecem uma imagem clara do que podemos encontrar na sociedade moderna.

Resumindo, um entendimento correto do que Nietzsche estava afirmando com a frase “Deus está morto” nos permite até mesmo concordar com a observação desse filósofo, uma vez que ele nos ajuda entender melhor a mudança que ocorreu na sociedade ocidental e oferece uma boa descrição do desafio que é pregar o Evangelho hoje em dia.

Isto não quer dizer que ao concordarmos com Nietzsche que “Deus está morto” nós estamos negando a ressurreição de Cristo ou mesmo que Deus não existe. De forma alguma! Isso quer dizer que entendemos a sociedade que vivemos, a qual não é mais a sociedade do século XVI que por sua vez era completamente influenciada por valores cristãos. E, entendendo o mundo e sociedade que vivemos, podemos nos preparar melhor para a missão de pregar e anunciar o Evangelho de Cristo, o qual vive e reina hoje e sempre. Somente quando formos capazes de reconhecer o desafio e encarar a realidade que enfrentamos atualmente é que poderemos considerar meios para responder de forma correta e fiel ao chamado de anunciar a Deus Pai, Filho, e Espírito Santo. Que ele nos conceda sensatez e conhecimento para tal fim.

Featured Image: Google Images.

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