Niilismo e Cristianismo: A Irrelevância de Deus na Sociedade

Há dez dias eu publiquei um texto aqui no blog sobre a famosa frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “Deus está morto.” (Clique aqui para ler o texto.) Um dos aspectos centrais dessa observação feita por Nietzsche é a crescente irrelevância de Deus na sociedade. Isto é, o papel e a função ocupados por Deus antes da Era Moderna agora passam a ser ocupados pelo ser humano moderno em sua busca por propósito e sentido.

Essa semana eu conversei novamente com o Pr. Lucas Prando sobre o tema da morte de Deus na sociedade moderna. Nesse vídeo, nós refletimos sobre as implicações ou consequências de uma sociedade sem Deus. Ao mesmo tempo, refletimos sobre possíveis maneiras que Deus pode tornar a ser relevante para uma sociedade que já se acostumou a existir sem a presença de Deus. Especificamente, a pergunta que guiou nossa conversa foi, “Como Deus pode ser relevante em nossa sociedade atual? Como nós (cristãos/Igreja) podemos agir e pregar de uma forma que Deus se torne novamente relevante para os dias que estamos vivendo?” Clica no vídeo abaixo e confere o que foi sugerido em nossa reflexão.

Podcast Instante com a Palavra. Clique aqui para assistir o vídeo no YouTube.

Como menciono no Podcast acima, um dos aspectos centrais de uma sociedade onde “Deus está morto” é o desenvolvimento do “Niilismo.” Nietzsche definiu niilismo como um contexto onde os maiores valores se desvalorizam. Isto é, valores como “Verdade,” “Razão,” “Deus,” “Jesus Cristo,” “Alá,” etc. perdem o valor que eles uma vez possuíam na sociedade. Uma forma de explicar o niilismo é através da imagem de um Shopping Center. Isso porque um Shopping Center possui várias lojas que oferecem uma variedade imensa de produtos (valores). No entanto, não há um critério que diz que uma loja (ou os produtos de uma determinada loja) é melhor ou correta para os consumidores. Em outras palavras, um Shopping Center não define qual loja ou quais produtos são “os mais valiosos” para aquele local, mas sim os consumidores daquele Shopping Center que determinam esse valor. Alguém pode até argumentar que uma determinada loja é melhor para nós como consumidores, mas no fim do dia nós somos aqueles que escolhemos qual será a loja que vamos comprar o que queremos comprar.

Aplicando essa imagem do Shopping Center para a sociedade atual, vemos que “a loja” que oferecia aquilo que era “consumido” pelos membros da sociedade perdeu a sua posição de destaque. Isto é, os valores que davam sentido e propósito para toda a vida no mundo passam a ser apenas “um” dos valores disponíveis para aqueles que buscam consumir ou abraçar tais valores. Especificamente, não há um critério absoluto que dirá para nossa sociedade que “precisamos ter esse valor para nossa vida”. Todos os valores estão no mesmo nível. Não há mais um valor que seja considerado mais valioso do que outro. Alguém que adere a um determinado conjunto de valores pode argumentar que os seus valores são “os verdadeiros” ou “os melhores,” mas alguém pode usar o mesmo argumento a respeito de outro conjunto de valores.

Resumidamente, uma sociedade niilista olha para os valores que dão sentido e propósito para a vida sem distinguir entre os valores que estão sendo oferecidos. Se há um critério de escolha, este critério é o benefício próprio do indivíduo. Em outras palavras, “o valor que me beneficiar mais, este é o que eu escolho para mim.” Como resultado, hoje posso escolher viver de acordo com os valores cristãos, pois eles refletem aquilo que eu acho que é certo para mim; mas amanhã isso pode deixar de ser verdade, então escolherei viver de acordo com valores liberais-capitalistas, ou talvez de acordo com preceitos budistas, hinduístas, etc. dependendo de como eu estiver me sentindo. “Tudo é relativo,” se posso usar de um jargão popular. Se você quer acreditar em algo, bom para você. Isso é sua opinião, e não há nada que possa provar que você está certo ou errado.

Niilismo e Cristianismo

Tal situação tem trazido muitas consequências para o Cristianismo. Isso porque o niilismo tem influenciado a confissão de fé e a prática da vida cristã na sociedade atual. Por um lado, Deus deixa de ser o Deus Criador e passa a ser um “amigão” ou um “camarada” para aqueles que creem nele. Isso é refletido em uma postura “cristã” onde Deus se torna nada mais do que um amigo que me aceita do jeito que eu sou, alguém que está sempre lá para me ajudar e me apoiar. Como explico no vídeo acima, isso é um reflexo da domesticação de Deus por parte dos cristãos, os quais transformam Deus em um objeto de sorte ou alguém que eles podem contar com o apoio para seus projetos pessoais na vida. Assim, Deus não é mais aquele que dá propósito e sentido para a minha vida, o Senhor e Criador do universo, mas sim apenas alguém que pode me ajudar se eu estiver triste, doente, ou mesmo precisando de ajuda para ser promovido em meu trabalho.

Por outro lado, o discurso e a vida cristã passam a refletir idealismos ou filosofias que refletem mais a vontade do ser humano moderno do que a vontade divina revelada por Deus. Basta olharmos para as redes sociais de cristãos e percebermos que o conteúdo frequentemente reflete discursos humanos ao invés dos mandamentos dados por Deus em Cristo, especialmente relacionados ao amor ao próximo. Em outras palavras, cristãos refletem com frequência a vida de pecado da qual eles foram resgatados ao invés da nova vida recebida por meio de Cristo. Consequentemente, palavras e preceitos humanos tomam cada vez mais o lugar das palavras e preceitos divinos em nossa sociedade atual, até mesmo em cristãos.

O resultado disso e de outros aspectos da sociedade niilista após a morte de Deus que vivemos é a crescente irrelevância de Deus. Dentre os vários aspectos que podemos observar, alguns comentados no vídeo acima, um que tenho observado em nossa Igreja é o silêncio diante de eventos atuais que estão repercutindo o mundo todo. Uma das razões para esse silêncio é a privatização do Cristianismo. Isto é, cada vez mais a fé cristã se tornou algo individualista, que é praticada em grupos privados da sociedade. Em outras palavras, a fé cristã passou a ser vista como “boa para mim” mas não “boa para todos,” resultando em um discurso que se aplica para aqueles que frequentam igrejas ao invés de ser aplicável para toda a sociedade. Assim, passamos a ver a função da Igreja como “falar a palavra de Deus para o povo de Deus” ao invés de falar as palavras de Deus para todas as criaturas de Deus. Isso é problemático, porque aquilo que Deus tem para falar precisa ser falado. Se a Igreja não for o instrumento pelo qual Deus fala aquilo que ele tem para falar para o mundo, quem irá ser a voz de Deus para o mundo?

Sendo Igreja

A Igreja precisa ser novamente o instrumento que anuncia a voz de Deus não apenas para aqueles que frequentam os nossos templos mas sim para todos aqueles que estão no mundo, pois a mensagem de Deus em Cristo não inclui apenas os que creem mas orientam toda a criação de acordo com a vontade divina do Criador. Isso significa não ficar em silêncio diante de abusos, injustiças, ou situações difíceis que o mundo está vivendo. Novamente, aquilo que Deus tem para falar precisa ser dito. Mesmo que isso signifique dizer algo que seja polêmico ou “politicamente incorreto,” a Igreja precisa ser a voz de Deus para o mundo. Se a Igreja fica em silêncio, ela torna a si mesma irrelevante e até mesmo o próprio Deus, pois ela cala a voz de Deus para o mundo ao invés de ser um instrumento pelo qual essa voz é ouvida. De fato, estou convencido que o silêncio da Igreja diante da sociedade é um dos principais motivos para a atual irrelevância de Deus e do Cristianismo no mundo.

O que devemos fazer? Precisamos ser a voz de Deus para o mundo hoje. Mesmo que seja uma voz clamando no deserto, a Igreja precisa ser o instrumento que Deus criou ela para ser. Considere os atuais eventos de injustiça e discriminação racial acontecendo no mundo todo. A Igreja precisa se posicionar sobre o que está acontecendo, refletindo o ensinamento bíblico que “Deus trata a todos de modo igual, pois ele aceita todos os que o temem e fazem o que é direito, seja qual for a sua raça” (Atos 10.34-35), e que “não existe nenhuma diferença entre judeus e não judeus” (Romanos 10.12), e ainda “não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Se a Igreja não falar para o mundo essa palavra de Deus sobre o que está acontecendo no mundo, quem poderá falar a palavra de Deus? A Igreja precisa continuar sendo a voz de Deus para aqueles que buscam orientação nesse momento. Falhar com a sua função de falar aquilo que Deus é falhar mostrar que Deus tem muito a dizer para o mundo a e sociedade que vivemos.

Em um mundo niilista e uma sociedade influenciada pela morte de Deus, a Igreja e os cristãos são chamados para ser instrumentos da palavra de Deus para o mundo. Ser um instrumento para Deus ter relevância em um mundo que rejeitou Deus não é uma tarefa fácil. Certamente não há uma fórmula mágica para que Deus torne a ser relevante na sociedade. Porém, esse mesmo mundo carece ouvir a voz do seu Criador. Em meio a tantas vozes que refletem ideologias humanas, a Igreja e os seus membros precisam ser a voz e instrumento da palavra de Deus. Que ele nos conceda o seu Espírito para sermos luz e sal para o mundo.

Foto: Gabriele T. L. Furst.

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