Porquê Parei de Comer Carne

Hoje completo dois anos sem comer carne. Muitos dos meus amigos e familiares já ouviram a história por trás dessa decisão. Hoje resolvi escrever sobre isso a fim de compartilhar o motivo pelo qual desde então tenho não apenas cortado por completo o consumo de carne mas também incentivado amigos e familiares a fazer o mesmo.

A verdade é…

Sempre gostei de carne. Na verdade, eu nunca pensei que um dia eu deixaria de comer carne. Nunca. Isso porque eu cresci em uma família com raízes sulistas na qual o churrasco fazia e ainda faz parte da tradição familiar semanal. Domingo sem churrasco não era domingo. Celebrações sem churrasco não eram celebrações de verdade.

Além do churrasco, eu cresci vivenciando uma “liturgia” diária na qual uma das primeiras coisas que minha mãe fazia cedinho de manhã era descongelar um “pedaço de carne” para o almoço. Refeições podiam variar, mas sempre havia carne para comer.

Eu era uma pessoa que julgava e caçoava de pessoas que decidiam não consumir carne. Afinal, que motivo seria bom o suficiente para se privar de comer algo tão maravilhoso? Sempre estive convicto que tal motivo não existia.

Então, sem estar procurando, e honestamente sem querer encontrar, o dia que eu encontrei um motivo para parar de comer carne chegou. Claro que isso não aconteceu como um ato mágico, e eu definitivamente resisti aceitar que esse poderia ser realmente um motivo para não comer carne.

Na verdade, foi um processo. Primeiro, aprendi que comer carne vermelha não era a melhor opção para uma alimentação saudável, e que na verdade podia ser nociva para a saúde. Com a finalidade de melhorar minha alimentação, eu passei então a consumir carnes brancas, como peixe e frango. No entanto, descobri que essa não era uma opção sem suas desvantagens, pois havia muitas toxinas na carne de peixe, e em seguida sobre hormônios em carne de frango.

Mas, sejamos sinceros: quem se importa? Todos vamos morrer um dia, não é mesmo? É melhor aproveitar o que há de bom na vida já que vamos morrer de qualquer jeito. Assim, continuei consumindo carne e insistindo que essa era a forma de aproveitar o tempo de vida que Deus estava me dando aqui no mundo.

Eu insisti nesse pensamento por algum tempo. E, todas as vezes que eu descobria mais motivos para cortar o consumo de carne, eu reafirmava para mim mesmo que esses motivos não eram suficiente para parar. Parafraseando o antigo ditado pagão citado por Paulo em 1 Coríntios, comerei e beberei, porque amanhã morrerei.

Mas…

Até que um dia, através da minha pesquisa de mestrado em teologia, eu aprendi mais a respeito do processo de produção de carne, bem como os impactos dessa produção para o mundo e todos aqueles que vivem nesse mundo.

Não havia como ignorar tudo aquilo que eu havia aprendido. Como eu poderia continuar fazendo parte de um sistema que desconsidera o propósito da criação de Deus? Como poderia continuar contribuindo para um sistema de produção que polui, desmata, destrói a criação de Deus, a qual eu acredito que ele criou e me chamou para cuidar como sua criatura redimida?

Ao mesmo tempo, eu não consegui ignorar o impacto desse sistema de produção na vida dos seres humanos que Deus me chamou para amar e ser um sacrifício vivo a fim de ajudar nas suas necessidades. Diante disso, como eu poderia continuar consumindo algo que impacta negativamente a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo apenas para que eu possa comer algo que me satisfaz?

Tenho que admitir que, no princípio, o meu orgulho não deixou que eu reconhecesse que era necessário repensar meus hábitos alimentícios. Uma das coisas que eu não conseguia parar de pensar era, “O que as pessoas vão dizer de mim? Que me tornei um daqueles ‘malucos’ e ‘estranhos’ que não come carne?” Pensando na minha família, só conseguia pensar no que meus pais e parentes falariam sobre isso. Como visitarei meus pais e não comer churrasco com eles?

Ao mesmo tempo, não podia continuar fazendo algo que sentia que ia contra aquilo que eu estava convencido que fui chamado a fazer. O que poderia ser feito?

A solução foi aderir a uma ideia que na época “caiu como uma luva” para o impasse que eu tinha diante de mim. Li sobre o “Julho sem plástico,” campanha para diminuir a poluição no mundo. No entanto, em 2018 houve uma campanha feita juntamente com o Julho sem plástico, a qual convidava para um “Julho sem carne.”

Ahá! Achei a “desculpa” que eu precisava. Depois de convencer a minha esposa de aderir à essa “loucura” comigo, anunciamos que cortaríamos a carne naquele mês. A grande pergunta que passava pelas nossas cabeças e nas conversas com amigos era, “Será que sobreviveremos?”

Uma semana depois, eu e a minha esposa estávamos tão animados com a ideia que cortamos todos os produtos animais. “Veganos por um mês,” pensamos. Isso levou a um ano sem consumo de produtos animais (carne, leite, queijo, etc.), e depois mais um ano sem consumo de carne.

O que poderia levar alguém a fazer isso?

O Motivo

Eu poderia dizer que fui convertido ao “extremismo” que defende o meio ambiente. Algumas pessoas já deram a entender que eu me tornei um “eco-freak.” Sem fugir da acusação, eu realmente acredito que eu preciso cuidar do meio ambiente, e ver a minha decisão de cortar o consumo de carne como um extremismo seria uma possível opção para entender o que tinha acontecido comigo em meio ao contexto agricultural de onde venho no Mato Grosso.

Outra opção seria pensar que sou um “medroso” que quer cuidar da saúde acima de tudo, e para isso prefere sacrificar “os prazeres que a vida tem a oferecer.” Essa opção também poderia ser válida, principalmente se considerarmos que para muitas pessoas ”ser feliz” é sinônimo de comer aquilo que queremos e que nos traz satisfação. De acordo com essa visão, cuidar da saúde significa sacrificar tudo aquilo que há de bom na vida.

Embora estas sejam opções válidas, nenhuma delas teria o poder de me levar a fazer a decisão que eu fiz. Afinal de contas, além de ter raízes sulistas, eu sou descendente de alemães. Teimosia faz parte da minha natureza.

Mas, qual o motivo para eu ter parado de comer carne?

O motivo para eu parar de consumir carne e atualmente reduzir o consumo de leite ao “queijo da pizza de sexta-feira” foi a minha confissão de fé em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo.

Mas, o que uma coisa tem a ver com a outra? Permita-me explicar o que eu quero dizer.

Sendo cristão, eu creio que Jesus Cristo é o verdadeiro e único Filho de Deus. Isso significa que eu creio na mensagem que ele anunciou e na obra que ele completou quando se tornou um ser humano para fazer a vontade do seu Pai e redimir a criação que havia caído em pecado. Mais especificamente, eu creio que Jesus Cristo—pela sua incarnação, vida, ministério, sofrimento, morte, e ressurreição—redimiu toda a criação, isto é, os “céus e a terra” e tudo o que há neles. Em outras palavras, tudo o que foi criado no início (Gênesis 1.1) foi redimido em e por meio de Cristo.

Um dos principais ensinos deste mesmo Jesus Cristo foi enfatizar que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Especificamente, isso significa cuidar daqueles que estão em necessidade, defender os injustiçados, orar por eles, e sempre que possível agir de uma forma que favoreça aqueles que vivem ao meu redor. Em uma palavra, sou chamado para ser um instrumento, e creio que Deus Pai ensinou que, por meio do seu Filho Jesus Cristo, eu como cristão—uma criatura redimida—devo viver uma vida de amor ao próximo.

Isso não significa apenas sentir pena por quem está sofrendo. Isso também não significa apenas dar esmolas para alguém pedindo no semáforo. Isso significa ter uma vida inteira orientada para esse chamado, isto é, uma vida dedicada a amar o próximo, sendo um instrumento do amor de Deus para o mundo que ele tanto amou por meio do seu Filho.

Eu estou convencido que hoje isso significa, de uma forma bem concreta e objetiva, reduzir o consumo ou mesmo parar de consumir produtos animais. Sim, eu estou dizendo que uma forma pela qual nós podemos amar o próximo hoje é cortando o consumo de carne, leite, queijo, etc. E aqui vai o porquê.

Por que?

Primeiramente, entender o corte do consumo de produtos animais como amor ao próximo hoje é uma questão de testemunho. Pregar, confessar, ensinar, etc. que Cristo disse para a sua Igreja que deveríamos amar o próximo e ao mesmo tempo participar de algo que traz morte, doença, e destruição para o mundo que ele criou e para as pessoas que somos chamados a amar não faz sentido. Uma coisa simplesmente não encaixa com a outra.

Não podemos dizer é parte da identidade cristã amar o próximo e ao mesmo tempo agir de uma forma que mata o próximo. É a mesma coisa que ser pró-vida e matar alguém na primeira oportunidade que temos.

Quando você consome produtos animais, você está (na maioria das vezes) apoiando um sistema que traz morte e destruição a pessoas que estão envolvidas com essa produção. Certamente eu não estou me referindo ao “seu João” que cria seus próprios bichinhos para consumo próprio. Eu me refiro aos produtos que compramos em mercados, os quais procedem de locais que trazem poluição, contaminação, doenças, mortes, etc.

Eu não vou citar artigos aqui para “provar” a base do que eu estou falando, por mais que ficarei feliz em providenciar referências para quem desejar. No entanto, pesquise você mesmo os impactos daquilo que você está consumindo. Garanto que você se surpreenderá com o que você vai achar. Atualmente, há taxas altas de suicídio entre trabalhadores de abatedores, poluição pelo descarte da água utilizada para abatimento dos animais, desmatamento para criação de mais animais. E a lista continua…

Outro motivo porquê cortar o uso de produtos animais é um ato de amor ao próximo é o aquecimento global. Eu sei que você pode ter lido nos grupos de WhatsApp que o aquecimento global não existe. Quem dera se isso fosse verdade! No entanto, fora do WhatsApp a realidade é que milhões de pessoas morrem anualmente por consequências do aquecimento global.

Enchentes, secas, temperaturas altíssimas que chegam perto de não ser possível ter vida humana, nível dos mares subindo, além de doenças causadas por poluição de ar, água, e terra. Mais especificamente, pare pra pensar em quantas doenças nós tivemos na última década por razões de consumo de produtos animais. Várias epidemias, e agora ainda enfrentamos uma pandemia. De fato, nem mesmo achamos a solução para a pandemia atual e especialistas estão alertando para uma nova pandemia transmitida pelo porco.

O último aspecto que nos ensina que explica que cortar o consumo de produtos animais é um ato de amor ao próximo é o fato que biblicamente não somos apenas chamados para amar o próximo humano mas também o próximo não-humano.

Sim, a criação como um todo foi redimida e amada por Deus em Cristo. Além de destruir com a criação que vivemos, o sistema de produção atual de produtos animais tem um desrespeito profundo por tudo aquilo que Deus o Criador criou e declarou como “muito bom.”

Isso porque animais são vistos totalmente como instrumentos para gerar dinheiro. Em menos de 30 dias, um pintinho sai de um ovo e se torna um frango adulto pronto para o abate. Para que isso aconteça, ele não conhece o que é dormir, o que é viver embaixo de uma árvore, o que é correr. Ele só sabe comer um alimento cheio de produtos que vão fazer ele crescer de uma forma que ele nunca cresceria. De uma forma pela qual Deus não criou ele para crescer. O mesmo acontece com porcos, que vivem a vida inteira em uma jaula na qual nem mesmo podem se virar.

Essa é a nossa sociedade e sistema de produção atual. Animais se tornam objetos. Pessoas se tornam matéria de trabalho. A criação se torna um instrumento que seres humanos pensam que podem fazer o que eles querem. Logo, o que guia a vida de consumo não é amor ou mesmo necessidade mas sim ganância e idolatria, usando tudo e todos para o meu benefício.

Por isso, eu parei de comer carne, e espero cortar o consumo de queijo uma vez por semana que tenho atualmente. Tudo isso não porque eu tenho uma ideologia que me orienta a fazer isso, mas porque eu percebi que reduzir e cortar o consumo de produtos animais faz parte da minha vida de amor ao próximo.

Por fim, decidi seguir o chamado de amar o próximo diante da situação que temos atualmente no mundo. Ouvir a Cristo ao invés do meu desejo pessoal de me satisfazer foi uma decisão difícil, mas que foi definitivamente uma decisão que me fez e ainda me faz muito feliz.

E você, já pensou em como você pode reduzir o seu consumo de carne hoje? Eu ficaria muito feliz de falar com você sobre isso e contar mais sobre a minha experiência.

5 comentários em “Porquê Parei de Comer Carne

  1. Recebi um comentário sobre esse texto porque o leitor não possui conta no WordPress. Gostaria de compartilhar a fim de ajudar outros que talvez tenham dúvidas ou questões parecidas. Eis o comentário:

    “ Caro Alan, que a Graça de Deus ainda seja contigo. O que tu afirmas em teu post pode até ser uma escolha pessoal, e a forma como as coisas acontecem no mundo, não são parte do plano criador, perfeito, de Deus. O pecado entrou no mundo.

    O que afirmas quando à poluição das águas, e do meio ambiente, é justo lutar por um mundo em que haja menos plásticos. Plástico é uma criação humana. O que dizer da criação dos eletrônicos, meios de comunicação social, e aí vamos longe. Toda a produção industrial. Teríamos que voltar ao primitivismo do homem das cavernas. E, ainda assim teríamos o mesmo problema de que Jesus (‘caso ele não esteja errado’) falou sobre fomes, guerras e rumores de guerras, ódios, terremotos, enfermidades, etc, etc…

    Mas da forma como te manifestas concernente às coisas de Deus não parecer condizente com alguém do teu naipe com teologia, mestrado e agora doutorando.

    Parece mais com viés budista ou adventista ou algum outro ‘ismo’, muito próprio do movimento Nova Era, que considera os animais como nossos ‘irmãos menores’. Se são ‘menores’, nisto também já resistiria uma ideologia.

    Para seguir esta linha de ação temos plena liberdade, mas teríamos que rasgar algumas páginas da Bíblia. Lemos em Gn 9.1-3 (ARA): Abençoou Deus a Noé e a seus filhos e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Pavor e medo de vós virão sobre todos os animais da terra e sobre todas as aves dos céus; tudo o que se move sobre a terra e todos os peixes do mar nas vossas mãos serão entregues. Tudo o que se move e vive ser-vos-á para alimento; como vos dei a erva verde, tudo vos dou agora.

    Por outro, como explicar a maior churrascada de todos os tempos quando Povo de Israel saiu do Egito, contando por baixo, para cada homem uma mulher e um filho chegamos ao número 1,8 milhão de pessoas. Há historiador que afirma terem sido mais de 3 milhões de Israelitas que deixaram o Egito. Essa churrascada foi ordenada por Deus. Estaria Deus errado? O que dizer dos Israelitas que, por 1500 anos até Cristo, repetiram anualmente o seu churrasco de Páscoa, louvando assim ao Deus de Israel pela libertação da escravidão Egípcia?

    O que dizer de um texto como o de Isaías 25:6 (ARA) O SENHOR dos Exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete de coisas gordurosas, uma festa com vinhos velhos, pratos gordurosos com tutanos e vinhos velhos bem-clarificados.
    O que dizer de José e Maria que por 30 anos, na presença de Jesus comemoraram a Páscoa; o que dizer de Jesus que mandou os discípulos prepararem a Páscoa? Estaria Jesus errado?

    Estaria erra João Batista em dizer: “Eis o Cordeiro de Deus”, referindo-se a todos os sacrifícios dos cordeiros, bois e pombas do Antigo Testamento?

    Cara vc precisa rever sua ‘teologia’. Possivelmente se vivesse fora do planeta terra seria uma opção. Vc deve pensar em viver sem carro, sem luz, sem telefone, sem internet, sem computador, sem respirador, sem medicina, e o que dizer dos pobres ratos meros cobaias da ciência e a conversa não para por aí… Deverias inclusive não mais usar a Bíblia, por quantas árvores foram derrubadas, quantas pessoas morreram na derrubada do mato, quanta poluição foi gerada para produzir o papel, a tinta e as máquinas para sua impressão?”

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    1. Eis o que eu respondi para o leitor:

      “Olá [pastor], obrigado pelo retorno. Primeiramente, fico feliz que tenha chegado até você um dos textos do meu blog. Normalmente não tenho muito retorno, mesmo vendo números de pessoas que acessam o conteúdo. Portanto, fico feliz que você teve acesso ao blog.

      Aproveito para lhe convidar a ler os demais textos que escrevi lá. Acredito que deva ser difícil de entender o que eu estou afirmando no texto que você leu sem antes ter lido os demais textos que publiquei. De fato, eu acredito que você teria uma impressão diferente se tivesse lido os demais textos. Tendo um pouco de experiência com leitura, sei que pode ser difícil de entender um capítulo no meio de um livro se não lermos os capítulos anteriores. Por isso, fica o convite para você ler os demais textos e então repensar sobre o texto que você aqui se refere.

      Quanto ao tom da sua mensagem (a qual estou tentando evitar ler como “acusativo”), gostaria de antes de mais nada dizer que se tu se sentiste ofendido com o que escrevi, eu acho que meu intuito com o texto não teve sucesso. Mas, diante de uma acusação, peço a permissão de tentar me explicar.

      Não teríamos que voltar “ao primitivismo do homem das cavernas,” até mesmo porque sabemos que biblicamente tal homem nem existiu. Deus criou o ser humano e toda a criação em uma ordem, a qual em nossa teologia luterana normalmente nos referimos como “ordem da criação.” No entanto, tentar reduzir a ação que destrói a criação que Deus criou não é um atraso para nós cristãos, mas sim uma reflexão do futuro em que tal agressão à criação não mais existirá. Isso porque todo ataque à criação é uma forma de pecado, e sei que tu crês que na nova criação não haverá mais pecado.

      Quanto ao texto citado de Gênesis 9, convido você a ler o contexto da história de Noé antes mesmo do dilúvio, o qual Deus até mesmo se arrepende de ter criado o ser humano, visto o nível de pecaminosidade que ele havia chegado. Por quê aponto para isso? Porque a permissão dada por Deus precisa ser vista nesse contexto de pecado. Da mesma forma que Deus permite o divórcio por causa da maldade do ser humano, assim também ele permite o consumo de carne animal pelo mesmo motivo: a maldade do ser humano. Basta ver o contexto pré-queda para ver que antes do pecado isso era diferente.

      No entanto, tu está correto em afirmar que comer carne não é pecado. De fato, não afirmo isso em momento algum em meu texto, até porque eu estaria indo contra minha própria posição teológica. Como falei em outros momentos (basta ler e ouvir o que tenho publicado em meu blog), comer carne não é pecado. Eu apenas estou convicto que cristãos deveriam reduzir o consumo de carne por amor ao próximo, devido ao resultado que o consumo de carne traz em nosso contexto atual.

      De fato, Deus alimentou o seu povo com carne. E eu acredito que ainda hoje ele alimenta seu povo também por meio de alimentos que contém carne.

      Para deixar isso mais específico possível, minha critica é em relação ao consumo de carne atualmente, o processo de produção, e o desrespeito à criação que existe por meio de tal sistema de produção. De fato, como estou conversando com outros pastores que entraram em contato comigo sobre o texto, tenho explicado que a critica não é diretamente ao “consumo de carne” em si, mas ao sistema que transformou a carne em um instrumento de ganância para bens financeiros.

      Em todo caso, sinceramente te agradeço pela mensagem. Como você verá ao ler meus outros textos, teologia se faz em comunidade, não sozinho. Considero a sua mensagem uma oportunidade para dialogar e construir uma teologia saudável.

      No entanto, quero retribuir o seu convite. Convido você a repensar e rever a sua teologia. De fato, acho que não refletir sobre os impactos que nossos hábitos consumistas e alimentares trazem para a criação de Deus e ao próximo que somos chamados a amar é o que seria uma atitude de alguém que vive fora desse planeta. Cada vez mais vemos os reflexos de uma economia que destrói a criação de Deus e oprime o próximo que precisa de nossa ajuda. De fato, não acho que precisamos viver “sem internet, sem luz, sem telefone, sem carro, etc.” porque isso seria acreditar que precisamos escolher entre dois extremos. Entenda que eu não estou oferecendo extremos. Eu estou falando que existe essa UMA opção que podemos adotar para o bem da criação de Deus e do nosso próximo.

      Sobre a Bíblia, acredito que estamos chegando a um momento em que poderíamos, de fato, repensar sobre imprimir a Bíblia. Não totalmente, mas por quê não incentivar meios virtuais para a leitura e acesso da Bíblia? Fico feliz que você está até tendo ideias boas quanto ao problema que apresento, criativa de fato, pois muitas árvores e poluição seria evitada por meio disso. Veja que, de qualquer forma, isso se refere (pelo menos em minha ênfase) ao chamado de amarmos o próximo e à criação como um todo. As promessas de uma nova criação sem morte não são apenas para os seres humanos, mas para todos as criaturas. Basta ler os profetas, os ensinamentos de Jesus, e mesmo dos apóstolos.

      Enfim, Deus abençoe o seu refletir teológico. Se eu puder lhe ajudar, estou aqui. Abraço em Cristo.”

      Acrescento que abordarei alguns aspectos em textos futuros, os quais percebo que necessitam uma explicação mais aprofundada.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Olá. Parabéns pelo texto! Confesso que esta é uma reflexão que não vem naturalmente pra mim, talvez por minhas próprias predileções gastronômicas, ou por influência de teologia pouco luterana, pouco bíblica, onde o próximo e a criação de Deus como um todo são cada vez mais esquecidos.

    Obrigado por compartilhar tua decisão de forma coerente e clara, narrando o processo. Me fez pensar, e espero que isso te traga paz quanto ao teu objetivo ao publicar esse texto.

    Ficou bastante claro que a tua crítica não é contra comer carne em si, embora há razões legítimas pra se fazer essa crítica. Realmente, a carne é uma concessão pós-queda, e a partir daí cada um faz o que bem entender, para a glória de Deus (1Co 10:31). A dor do parto veio para as mulheres após a queda, mas nem por isso as pessoas se resignam a permitir que essa dor esteja presente sempre que há um parto. Logicamente, será que a pessoa que condena a tua decisão de não comer carne por refletir que isso é uma consequência do pecado e uma concessão de Deus a partir de Gn 9, também não deveria evitar a epidural na hora do parto (ou forçar a esposa a evitar? Afinal de contas, até a mãe do Senhor Jesus sentiu dores, quem somos nós pra querer evitar? Exagero no exemplo, mas o ponto é mostrar como o que estamos defendendo nem sempre é a lógica bíblica, mas a “lógica do conforto”. Mas entendo que o texto também não exagera como eu fiz, é mais sutil. E como ficou explicado no teu comentário, a tua decisão é uma tentativa de viver a lei do amor como nova criatura, olhando para as coisas do alto, refletindo a eternidade já aqui. É admirável, e realmente me fez pensar.

    Eu não vivo esse estilo de vida, e nem sei se um dia vou vier. Eu sou teólogo e pastor também, e sempre fico agradecido quando desafiado a pensar de uma perspectiva que não é a minha. E agradecido pelo aprendizado.

    O que eu estou fazendo aqui, escrevendo, se nem costumo refletir sobre isso? Confesso que estou aqui mais pelos comentários anteriores. Fico muito triste em ver que alguém (não sei se pastor) tenta te levar a uma reflexão diferente enquanto ignora totalmente um princípio bem claro da Bíblia sobre as diferentes perspectivas quanto a algumas coisas, incluindo a alimentação (Rm 14:1-8). Por isso decidi escrever. Pra te agradecer por ter colocado o teu texto de forma clara, que me provocou à reflexão, mas sem questionar se sou cristão ou não só por viver da mesma forma. É positivo o debate e a discordância, mas lamento e me envergonho por um irmão (suponho) ter julgado tua fé e ter questionado tua teologia. Ainda mais com argumentos que não levam em conta tua crítica diretamente, mas apenas despejam “provas bíblicas irrefutáveis” de que tua posição é antibíblica e anticristã. Ao ler o questionamento que te fizeram, me pergunto se há um problema profundo no nosso entendimento de teologia luterana ao considerarmos a criação de Deus como uma simples mina de recursos para satisfazer aos nossos desejos. Ou talvez se estamos fazendo teologia “em outro planeta”, como algo puramente teológico e divorciado de qualquer reflexão e ação direta em benefício do próximo. Vou ter que refletir mais a respeito.
    Mas tem um lado positivo em tudo isso. Tua resposta foi uma aula de teologia e maturidade pastoral, ao se manter num nível digno de um cristão que quer conversar, aprender, causar reflexão, sem simplesmente julgar a fé dos outros. Obrigado por compartilhar esse diálogo, mais uma oportunidade de aprendizado pra quem ler, mesmo que discorde profundamente das tuas ideias.

    Pra terminar eu apenas colo aqui o texto que eu mencionei acima. Acho que você seguiu esse princípio no seu texto e na sua resposta. Obrigado, e segue firme, compartilhando seus conhecimentos e respondendo com amor.

    Romanos 14
    1Acolham quem é fraco na fé, não, porém, para discutir opiniões. 2Um crê que pode comer de tudo, mas quem é fraco na fé come legumes. 3Quem come de tudo não deve desprezar o que não come; e o que não come não deve julgar o que come de tudo, porque Deus o acolheu. 4Quem é você para julgar o servo alheio? Para o seu próprio dono é que ele está em pé ou cai; mas ficará em pé, porque o Senhor é poderoso para o manter em pé.
    5Alguns pensam que certos dias são mais importantes do que os demais, mas outros pensam que todos os dias são iguais. Cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente. 6Quem pensa que certos dias são mais importantes faz isso para o Senhor. Quem come de tudo faz isso para o Senhor, porque dá graças a Deus. E quem não come de tudo é para o Senhor que não come e dá graças a Deus. 7Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. 8Porque, se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor.

    Curtido por 2 pessoas

  3. Alan, parabéns pelo texto. É lúcido, traz argumentos muito sólidos, e és respeitoso e acolhedor em tuas palavras. Concordo contigo em especial no que diz respeito as escolhas que fazemos: ao comer carne, estamos, de alguma forma, apoiando um sistema que aceita e até promove o sofrimento animal, por assim dizer. A questão da saúde também é relevante, visto que há muitas doenças associadas ao consumo de produtos de origem animal. Não sou vegetariana, mas tenho feito escolhas mais conscientes na minha alimentação, e tenho procurado reduzir o consumo – poderíamos dizer o “consumismo” dos nosso tempos. De novo, excelente texto, bela contribuição e reflexão para todos nós.
    Neca

    Curtido por 2 pessoas

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