Seja Estranho

Ser estranho não é a aspiração “número um” para nossa vida. Pelo contrário, me ariscaria em dizer que todos nós queremos fazer parte e agir da maneira que todos estão agindo. Em outras palavras, não queremos ser estranhos. Queremos nos adaptar ao ambiente que vivemos, camuflar entre os demais, ser como todas as outras pessoas que vivem ao nosso redor.

No entanto, desde que a pandemia do coronavírus atingiu tanto os Estados Unidos (país onde eu moro) e o Brasil (país de origem), tenho tido a experiência de ser “estranho.” Isto começou pelo fato de que o COVID-19 obrigou que mudássemos nosso modo de viver na sociedade, especialmente em relação à outras pessoas. Especificamente, a quarentena nos fez ficar em casa ao invés de ir trabalhar, estudar, passear, etc. Não só isso, ela também nos orientou a não ter contato com outras pessoas, até mesmo amigos e parentes.

O objetivo de tal postura era simplesmente evitar a propagação do vírus que ameaçava—e ainda ameaça—milhões de pessoas ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, visava proteger a nós mesmos e as pessoas ao nosso redor.

Se isso fosse seguido à risca, a quarentena seria o nosso novo “normal.” Em outras palavras, usar máscaras, lavar as mãos e vias nasais, não sair de casa, não ter contato com outras pessoas que não moram com você, etc. deveria ser normal em tempos de pandemia que estamos vivendo.

No entanto, isso não aconteceu dessa forma. Reconhecendo que isso talvez aconteceu por uma ou até mesmo duas semanas (nos Estados Unidos e no Brasil), após isso parece que seguir as orientações necessárias para um contexto de pandemia era “demais” para ser seguido.

Hoje, já existem mais de 15 milhões de casos confirmados no mundo inteiro, dos quais mais de 6 milhões são soma dos casos dos Estados Unidos e do Brasil. Mais de 600 mil pessoas já morreram infectadas pelo vírus, das quais quase 230 mil pertencem a esses dois países. Ainda mais preocupante, nas últimas semanas o número de casos confirmados têm aumentado consideravelmente nesses países. Ontem, dia 22 de Julho, houveram mais de 130 mil novos casos confirmados só nos Estados Unidos e no Brasil, além de quase 2,5 mil mortes nos dois países.

Em meio a tudo isso, percebo que eu sou o “estranho.” Isto porque todos e tudo ao meu redor parece continuar como se nada estivesse acontecendo. No seminário onde moro, as pessoas fazem churrascos públicos que aglomeram mais de 30 pessoas logo ao lado da minha casa, totalmente sem seguir as medidas necessárias para o momento—isto é, uso de máscaras, distanciamento social, etc. O próprio seminário já retornou às aulas presenciais, mesmo que outras instituições de ensino demonstraram taxas muito elevadas de novos casos entre alunos que voltaram às aulas presenciais. Resultado: diariamente mais de 70 mil novos casos aqui nos Estados Unidos, hospitais e estados declarando situação de emergência, e milhares de famílias em luto pela perda de amigos e familiares.

No Brasil, a situação é a mesma, se não pior. Ontem, mais de 65 mil novos casos no país, e quase 1,3 mil mortes. No entanto, isso não é o suficiente para conscientizar as pessoas de seguir as orientações necessárias para evitar a proliferação dos vírus. Em locais onde há “bandeira vermelha” no país, até mesmo igrejas continuam abertas e realizando cultos presenciais. Em cidades onde já não há vagas em hospitais, o comércio continua aberto, e muitas pessoas se negam a usar máscaras em locais públicos. Além disso, muitos se reúnem em grandes grupos para fazer festa. Outros vão para a praia. Em uma palavra, a quarentena parece uma piada de mal gosto.

Nesse contexto, aquilo que deveria ser normal se torna “estranho.” Seguir as orientações e manter-se em quarentena parece ser um “exagero.” De fato, muitas pessoas perto de mim refletem a mentalidade deturpada do atual presidente do Brasil, o qual considera que o coronavírus é apenas uma “gripezinha,” e que o vírus não é tão ruim quanto parece.

Infelizmente, essa “gripezinha” já matou e ainda vai matar muita gente. De fato, muitos estão aprendendo isto da pior maneira. Isto porque com o passar do tempo, os números começam a ter nomes, e logo começam a ter caras conhecidas. Particularmente, já soube de pessoas MUITO próximas de mim que pegaram e ainda sofrem com o vírus. Irmã, tio, tia, amigos, avós de amigos, etc. De repente, aqueles números “sem significado” que os telejornais informam todos os dias passam a lembrar da irmã que sofreu, do tio que está quase morrendo infectado, ou do avô do amigo que faleceu por causa do coronavírus.

Embora essa seja a realidade, levar a sério a ameaça do COVID-19 ainda parece ser “estranho.” Aqui onde moro, vejo no olhar e nas interações com colegas do seminário que eu sou o “estranho” que está levando muito a sério tudo o que está acontecendo. Ficar “preso” dentro de casa, não se encontrar com amigos, gastar dinheiro extra para não ir em mercados, se privar de ir em restaurantes, etc. me faz parecer o “crazy Brazilian” daqui.

Talvez você também esteja experienciando essa situação onde você é o “estranho” em meio a tudo o que está acontecendo. Isto é, enquanto todos estão vivendo como se nada estivesse acontecendo, você é o “estranho” que continua ficando em casa e seguindo as recomendações da quarentena. Talvez você até mesmo se pergunte, “será que eu realmente preciso fazer tudo isso?” Afinal, será que eu realmente estou exagerando em me preocupar e me cuidar do jeito que eu estou me cuidando?

Eu não posso responder essas perguntas por você. Honestamente, você precisa refletir e decidir se você quer ou não ser o “estranho” em meio a tudo o que está acontecendo nessa pandemia. No entanto, eu posso te dizer que você não está sozinho. Eu tenho enfrentado esse pensamento frequentemente. De fato, tenho rejeitado oportunidades que iam contra meu entendimento do que é necessário ser feito agora, o que me levou a ser “o estranho” da comunidade onde moro. Porém, eu acredito que nesse momento todos nós somos chamados para sermos “estranhos.” De fato, estou convicto que a situação no mundo só não está ainda pior do que está porque há ainda muitos “estranhos” espalhados pelo mundo que se importam e cuidam de si mesmos e das pessoas que estão ao seu redor. O momento não é para ser “normal.” O momento que vivemos pede que sejamos “estranhos,” tanto para o nosso bem quanto para o bem daqueles que dependem da nossa postura para viver e combater esse vírus que ameaça todo o mundo.

Seja estranho. Eu sei que esse pedido pode parecer “estranho” agora, mas é sendo estranho que podemos evitar que mais pessoas se contaminem, sofram, e até mesmo percam suas vidas para o coronavírus. Eu vou continuar sendo “estranho.” Seja “estranho” comigo.

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