“Jericho March”: O Perigo da Idolatria entre Cristãos

Foto: The Associated Press

Sabe aquelas coisas que você vê cristãos fazendo e logo você entende o porquê pessoas criticam cristãos, o porquê elas não querem pertencer à Igreja Cristã, e o porquê muitos acham que a fé cristã é ou irrelevante ou hipócrita diante do mundo atual? Esse foi o meu sentimento ao ter conhecimento da “Jericho March” (=Marcha de Jericó) que aconteceu no último sábado (12 de dezembro de 2020) na capital dos Estados Unidos, Washington D.C.

Embora o site oficial da “Jericho March” descreva a sua “missão” como “chamar pessoas de fé para orar, jejuar, e protestar pacificamente em serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça” (to call upon people of faith to prayer, fasting, and peaceful protest in the service of God, and in defense of life, liberty, and justice), a prática dessa “marcha” foi um completo exercício de idolatria que contradiz a fé e o ensinamento cristão de tantas formas e em tantos níveis que uma análise muito mais profunda é necessária a fim de entendermos o que aconteceu.

De fato, tal análise foi feita e oferecida por alguns escritores cristãos americanos que assistiram a “Jericho March” no último sábado. Um deles é o escritor cristão Rod Dreher, editor chefe do site The American Conservative, o qual escreveu um extenso texto que analisa o evento que ocorreu no último sábado na capital americana. De acordo com Dreher, a “Marcha de Jericho” não refletiu a “missão” do movimento, mas sim foi

“um protesto em favor de Trump por cristãos (e judeus simpáticos) projetado para imitar a história bíblica do exército israelita marchando ritualmente ao redor da cidade murada de Jericó, tocando trombetas e observando enquanto Deus demolia as defesas da cidade para que os israelitas pudessem conquistar. A ideia da Marcha de Jericó é que os verdadeiros crentes circulariam as instituições corruptas do governo dos Estados Unidos, aquelas que promulgavam a farsa de que Trump perdeu a eleição.”

Dreher, “What I Saw At The Jericho March.” Tradução minha.

Em outras palavras, a ideia da “marcha” era circular ao redor das “instituições corruptas” americanas a fim de que assim como as muralhas pagãs de Jericó foram destruídas por Deus e o verdadeiro povo escolhido conquistou a cidade, assim também Deus destruiria os poderes pagãos do governo americano a fim de que o verdadeiro povo escolhido possa conquistar o governo — isto é, o ex-presidente Donald Trump.

Se você está achando isso tudo uma maluquice, você não faz a mínima ideia de tudo o que aconteceu. A tal “marcha” apresentou uma série de líderes conservadores (cristãos e não-cristãos) que assumiram o microfone e se dirigiram à multidão presente na capital americana. (Se você já se perguntou “mas o que essas pessoas estavam fazendo reunidas em meio à uma pandemia que está matando milhares de pessoas todos os dias nos Estados Unidos, parabéns: você está correto em se perguntar isso.) Esses líderes, no entanto, não chamaram as “pessoas de fé para orar, jejuar, e protestar pacificamente em serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça,” mas sim chamaram as pessoas para lutar até a morte se fosse necessário para defender a “clara eleição” do candidato republicano, Trump. Tal é a mensagem pacífica em “serviço a Deus e em defesa da vida, da liberdade, e da justiça.” Você consegue perceber a ironia?

Ou seja, a “Jericho March” mostrou-se uma marcha “cristã” que busca servir a Deus fazendo tudo aquilo que Deus reprova, e defendendo a vida através de lutas até a morte, da liberdade através do desrespeito à liberdade de quem votou de uma forma diferente, e da justiça através de desrespeitos a mais de 50 juízes e jurados que já rejeitaram os processos do ex-presidente americano. Sim, esse é o exemplo de “defesa da vida, da liberdade, e da justiça” dado por CRISTÃOS que apoiam o republicano Donald Trump. Você nota algo errado nessa postura e discurso?

Mas, o que isso tem a ver com você que está lendo esse texto no conforto da sua casa em plena quarentena no Brasil?

Se você acha que “nada,” você está muito enganado. Se você é cristão, você deveria se preocupar MUITO quando pessoas que se chamam “cristãs” passam a adotar uma postura igual a essa vista na “Jericho March.” Isso porque tal atitude NÃO É CRISTÃ. Nada — eu repito, NADA! — que você viu ou encontrou na “Marcha de Jericó” reflete a fé cristã. Ela não foi pacífica, mas sim promoveu um discurso de ódio; ela não foi em defesa da vida, da liberdade, e da justiça, mas sim em defesa de uma teoria conspiracionista; e ela não foi em serviço a Deus, pois toda a base e postura da “marcha” reflete uma idolatria contrária ao serviço e culto ao Deus Triuno — Pai, Filho, e Espírito Santo. Pelo contrário, ela foi em defesa e serviço a Donald Trump e ao “deus” do nacionalismo americano.

Quando essa postura começa a ser vista como “cristã” no mundo em que vivemos, isso significa que quando você confessa a sua fé em Cristo TODO MUNDO acha que você é um dos idólatras que participam de “marchas” que defendem e servem não a Deus mas sim a líderes políticos de estimação. E, consequentemente, vemos como Nietzsche estava realmente certo ao dizer que “Deus está morto,” e nós mesmos que matamos Ele.

Por outro lado, posturas como essa deveriam nos preocupar no Brasil porque não estamos distantes de uma idolatria parecida com a que já é observada claramente nos Estados Unidos. Há algum tempo eu vejo cristãos praticamente cultuando e servindo um certo líder político como se esse tivesse sido escolhido por Deus para salvar a nação. Esses cristãos — sim, eles estão dentro da igreja luterana também — acreditam que somente quem apoia esse certo líder político ama o país “de verdade.” Mais preocupante ainda, há pouco tempo vi sinais de pessoas falando que “cristãos de verdade” apoiam esse candidato, e qualquer crítica ao mesmo nada mais é do que falta de fé. Eu me pergunto: será que não estaremos vendo a mesma postura vista nesse final de semana nos Estados Unidos em cristãos na próxima eleição presidencial no Brasil daqui a 2 anos?

Repito: nada que é refletido nessa postura vista na “Jericho March” é cristão. Nada. Visões “divinas” que dizem que um certo candidato é o escolhido de Deus para salvar o país soam muito distoantes da fé confessada na revelação em Jesus Cristo e nos livros canônicos da Bíblia. Lutar até a morte por um líder político soa para mim como um discurso muito diferente do que encontramos em Cristo e os apóstolos. Mais especificamente, estes discursos soam MUITO diferente do discurso pró-vida pregado pelos mesmos cristãos algumas semanas antes destes estarem se armando para matar o seu próximo por amor ao seu político de estimação.

Não, isso não é cristianismo. Isso não é fé cristã. Isso é reduzir a fé cristã até o ponto que ela sirva as minhas ideologias políticas. Como Dreher escreve em seu artigo, nós precisamos rejeitar a visão que prega o alinhamento da nossa fé com nossa visão política. Isso porque o contrário deve ser feito! Nossa visão política deve ser moldada à luz da nossa fé. E é exatamente isso que o pastor Dr. Samuel Fuhrmann escreve em seu recente artigo sobre o tema. Vale a pena a leitura!

Em resumo, eu gostaria de deixar claro a minha visão e postura diante de tais eventos como a “Jericho March”, principalmente aos meus amigos não-cristãos:

A minha visão de mundo e do que significa ser cristão NÃO é a mesma dos participantes, líderes ou organizadores dessa “marcha” que aconteceu no último final de semana na capital americana. Honestamente, isso não é cristianismo, como enfatizei acima. Cristãos não pensam assim. Cristãos não agem assim. O Deus confessado pelos cristãos não pede e não apoia tal pensamento, tal postura, e tal atitude. De fato, o Deus revelado em Jesus Cristo e confessado pelos cristãos pede e aprova um pensamento/postura/atitude completamente diferente desses apoiadores do Trump. Cristãos são guiados e moldados pela Verdade revelada em Cristo, não mentiras inventadas por conspiracionistas que criam um ídolo à sua própria imagem ao invés de pregar o único e verdadeiro Deus — Pai, Filho, e Espírito Santo.

Uma última palavra: está na hora (de fato, já passou da hora) de começarmos a falar como Igreja e em nome da Igreja diante de tais mentiras comuns atualmente. Como já afirmei em outros momentos, quando a Igreja se silencia, ela não apenas se silencia a si própria mas também o próprio Deus que fala através da Igreja. Que Deus nos dê força para falarmos a vontade dEle, revelada em Jesus Cristo e nas sagradas Escrituras, e não a nossa vontade própria que reflete opiniões políticas ou sonhos conspiracionistas. Em resumo, que Deus nos conceda a graça de sermos cristãos à luz de Cristo, não de políticos de estimação.

Referências

Rod Dreher, What I Saw At The Jericho March. Disponível em (https://www.theamericanconservative.com/dreher/what-i-saw-at-the-jericho-march/). Acesso em 14 Dec. 2020.

David French, The Dangerous Idolatry of Christian Trumpism. Disponível em (https://frenchpress.thedispatch.com/p/the-dangerous-idolatry-of-christian?fbclid=IwAR13DLwKV6tr9IAw3gRdvFsBPYxmQGSL78x9Dy8mxmEiCRJDhk-sM8gybzs). Acesso em 13 Dec. 2020.

Samuel Fuhrmann, “A IGREJA ESTÁ NA PÓS-MODERNIDADE”: EM DIREÇÃO A UMA RESPOSTA LUTERANA AO RELATIVISMO ÉTICO. Disponível em (http://revistaigrejaluterana.com.br/index.php/revista/article/view/64). Acesso em 14 Dec. 2020.

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