Posicionamento da BCC sobre George Floyd

Nota: Este texto foi originalmente publicado pela Black Clergy Caucus (BCC) da LCMS (Igreja Luterana—Sínodo de Missouri) no Facebook. O mesmo foi traduzido e publicado aqui com a autorização da BCC.

“Nós temos andado sobre um caminho que tem sido regado com lágrimas;
Nós temos andado fazendo nosso caminho através do sangue dos que foram abatidos.”
James Weldon Johnson, “Lift Every Voice and Sing”

“Estou cansado, ó Deus; estou cansado, ó Deus, e exausto.”
Provérbios 30.1

“…para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado.”
Isaías 50.1

O ano era 1967. Há poucos anos atrás, a última universidade e seminário historicamente Preto restante que era dedicado ao treinamento de pastores Luteranos Pretos era fechado pelo Sínodo. A nação estava em agitação. A injustiça racial estava sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tinha negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estavam sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Lynn Blanding. Carl Cooper. Aubrey Pollard. Fred Temple. Tensões raciais se tornaram manifestações em Detroit. Como o tempo testemunharia, pastores Luteranos Pretos sabiam que “Detroit não era um caso isolado,” portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. Como o falecido Rev. Dr. Richard Dickinson, antigo Diretor Executivo do Ministério Preto, descreve, “Todas as cidades nesta nação… estavam fervendo com agitações, com o potencial de explodir em manifestações raciais a qualquer momento. Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” (This I Remember, 27). “Elas tinham absolutamente nenhuma confiança no escritório Distrital… nem mesmo para entender a natureza e o tamanho da crise, e absolutamente nenhum compromisso de tentar resolver ele.” Havia uma falta de representação. Não havia nenhum Luterano Preto no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não tinham pastores Pretos. Até aquele dia, nenhum Preto havia sido Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. “Não havia uma pessoa preta em posições de influência na administração Distrital ou Sinodal. Detroit estava pegando fogo, e o ministério preto naquela cidade não tinha nenhum lugar para procurar alguém com autoridade que poderia entender e trazer esperança e conforto.” (This I Remember, 28).

Avançamos rapidamente 53 anos depois da formação do Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) da Igreja Luterana.

O ano é 2020. Há poucos anos atrás, a última Faculdade e Universidade Historicamente Preta restante que era dedicada ao treinamento de professores Luteranos Pretos foi fechada pelo Sínodo. A nação está em agitação. A injustiça racial está sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tem negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estão sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Breonna Taylor. George Floyd. Ahmaud Arbery. David McAtee. Tensões raciais se tornaram manifestações em Minneapolis. Pastores Luteranos Pretos sabiam que Minneapolis não seria um caso isolado, portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. “Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” Podemos buscar ajuda no Distrito ou no Sínodo? Será que eles poderiam “entender a natureza e o tamanho da crise [e ter um] compromisso de tentar resolvê-lo?” Esta é a nossa autêntica esperança. No entanto, ainda não há Luteranos Pretos no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não têm pastores Pretos. Até a presente data, ainda não houve um Preto que fosse Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. Parafraseando o Dr. Dickinson, quando nossas cidades estão pegando fogo, será que o ministério Preto tem algum lugar para buscar alguém com autoridade que poderá entender e trazer esperança e conforto?

Em meio às manifestações de 1967, o Rev. Dr. Martin Luther King, Jr. disse que “Uma manifestação é a linguagem dos que não são ouvidos. O que é que a América falhou em ouvir?” É o momento para o Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) falar novamente.

George Floyd era conhecido como uma “pessoa de paz” (Lucas 10.6) pelo seu pastor. Firmado em sua identidade baptismal, George levaria a fonte batismal para uma quadra de basquetebol localizada a algumas quadras da sua igreja Luterana Preta. Como o Eunuco Etíope que disse, “Olhe, aqui há água! O que impede que eu seja batizado?” George preparou o caminho para pastores locais pregarem o evangelho. Mais tarde George foi movido para Minneapolis por causa de um programa de trabalho da igreja. Ele era um fruto da igreja. Ele era também um homem Preto. O filho de um homem Preto. O pai de um homem Preto. Eu também sou o filho de um homem Preto. Quando eu tiver filhos, meu filho será Preto. Mas, será que a identidade batismal dele em Cristo será asfixiada pelo mundo por causa da cor da sua pele? Será ele mais uma estatística para um mundo que nem mesmo conhece o número de cabelos da sua cabeça? Para muitos, o pensamento é esmagador, nascido de séculos de racismo. Nas palavras de Fannie Lou Hamer, nós estamos “enojados e cansados de estar enojados e cansados.” Graças a Deus nós não estamos sozinhos em nosso sofrimento. Pois a primeira interação entre Deus e o homem foi quando Deus soprou a vida para dentro de Adão. A última interação (antes da ressurreição) foi quando o homem sufocou Jesus, tirando o último fôlego do Filho de Deus. Jesus morreu de asfixiação na cruz. “Jesus deu um forte grito e respirou pela última vez” (Marcos 15.37). Nós devemos aprender como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de Jesus; então, nós devemos aprender a ver como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de George.

Quando nós vemos vidas sendo tiradas, nós lembramos do Quinto Mandamento, o qual declara, “Não matarás.” No entanto, nós minimizamos a nossa responsabilidade. O Catecismo Maior de Lutero dá dois discernimentos importantes. Em primeiro lugar, nós não devemos usar a nossa língua para defender ou aconselhar dano a alguém.” Se nós defendermos a violência, em redes sociais ou de qualquer outra forma, então nós estaremos violando o mandamento. Em segundo lugar, nós teremos violado o mandamento “não apenas quando fazemos o mal, mas também quando temos a oportunidade de… previnir, proteger, e salvar [o nosso próximo] de sofrer danos ou ferimentos corporais, mas falhamos em fazê-lo.” Nós todos carregamos a responsabilidade neste momento, pois todos nós temos a capacidade de responder a este momento. “Se você ver alguém que está sendo condenado a morte ou em um perigo parecido e não salvar esta pessoa mesmo que você tenha meios e formas de salvá-la, você terá matado essa pessoa. O uso da desculpa que você não participou da morte dessas pessoas por meio de palavras e ações não irá ajudar você, porque você roubou dessas pessoas a bondade pela qual a vida deles poderia ser salva.” Se nós temos a oportunidade de previnir mais vidas de serem perdidas, nós temos que agarrar tal oportunidade.

Agora é o momento. Como um cristão, se você não ajudar a por um fim a um sistema de injustiça que tira a vida de irmãos e irmãs em Cristo como George Floyd mas ao invés disso “usa a desculpa que você não participou da morte deles por meio de palavras e ações,” então “você terá matado essas pessoas.” “Porque embora você não tenha de fato cometido todos estes crimes, ao que diz respeito a você, você todavia terá permitido que o seu próximo fosse debilitado e perecesse em sua desgraça. É como se eu visse alguém perecendo em águas profundas… e eu pudesse estender a minha mão para puxá-lo pra fora e salvá-lo, e eu não fizesse isso. Como eu poderia aparecer diante do mundo se não como um assassino…?” (Catecismo Maior, V, 189-190).

Isso não é um “pensamento radical preto.” Isso é o Catecismo Luterano do tempo da sua Confirmação, quando você afirmou os seus votos batismais, marcando você como alguém reivindicado por Deus—e não o mundo. Amigos e colegas têm entrado em contato comigo, perguntando como aqueles que estavam ao lado do rio e perguntaram a João Batista, “Então, o que nós devemos fazer?” (Lucas 3.10). Desde o nascimento até a hora da morte, nós somos chamados para defender a vida. A vida não é uma prova de múltipla escolha. Ela é tudo o que foi dito acima. Ou você afirma tudo—ou nada. “Lembre daqueles que estão na prisão, como se você estivesse na prisão com eles,” as Escrituras exortam, e “olhe para as vítimas de abuso como se o que tivesse acontecido com elas tivesse acontecido com você.” (Hebreus 13.3). Quando nós não procuramos acabar com a instituição do racismo, o pecado original desta nação, ou pior ainda negamos que o racismo exista, nós não apenas falhamos em reconhecer a humanidade dos nossos irmãos e irmãs em Cristo que são pretos e pardos, mas nós também falhamos em reconhecer o Deus que está neles, o Espírito de Deus que deu fôlego e vida para eles.

Nós não temos sido os mais hospitaleiros. Desde o fechamento da Concordia Selma, a última HBCU (Historically Black College and University), o Sínodo reduziu o orçamento do Ministério Preto e saiu da Black Ministry Family Convocation (Convocação Familiar do Ministério Preto)—um encontro trienal para estudar a palavra de Deus e celebrar a perseverança de Luteranos Pretos. Sem a HBCU para apoiar Luteranos Pretos, nenhum Luterano Preto entrou no seminário esse ano. Nós não precisamos do Sínodo nos oferecendo pensamentos e orações. Oração é uma disciplina espiritual essencial; as banalidades não são. St. João nos lembra que no amor não é suficiente dizer a coisa certa, nós também devemos fazer a coisa certa: “Vamos amar, não em palavra ou da boca pra fora, mas com ação e em verdade” (1 João 3.18). As Escrituras nos admoestam que falar sem agir é sem sentido, ou pior, hipocrisia: “Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário, e um de vocês lhes disser: ‘Vão em paz! Tratem de se aquecer e de se alimentar bem’, mas não lhes dão o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” (Tiago 2.15-16). Quanto ao jejum, Deus diz, “Vocês não podem jejuar assim como fazem hoje e esperar que o clamor de vocês seja ouvido lá no alto. Seria este o tipo de jejum que escolhi, apenas um dia para que as pessoas se humilhem?” Humildade cerimonial não será o suficiente se quisermos que as nossas vozes sejam ouvidas nos céus. Ao invés disso, Deus diz, “Será que não é este o jejum que escolhi: que vocês quebrem as correntes da injustiça, desfaçam as ataduras da servidão, deixem livres os oprimidos e acabem com todo tipo de servidão?” (Isaías 58.4-6). Como irmãos e irmãs, agora é o momento de se unir em verdadeira oração. Verdadeiro jejum. Verdadeiro lamento. Verdadeira com-paixão. Verdadeiro amor.

A Black Clergy Caucus não fala por todos os pastores Luteranos Pretos; nós advogamos por eles. Eles têm a sua própria voz, seus próprios pensamentos, seus próprios ministérios. Nós não somos um grupo monolítico. Dentro da Igreja Luterana, nós temos uma diversidade maravilhosa de igrejas, pastores, diaconisas, e professores Luteranos Pretos. Conheça um deles. Ouça-os. O primeiro ato de amor é ouvir.

“Assim como o amor de Deus começa com o ouvir da sua Palavra, assim também o começo do amor pelos irmãos é aprender a ouví-los. É o amor de Deus por nós que faz com que Ele não apenas nos dê a sua Palavra mas também nos dê o Seu ouvido. Muitas pessoas estão procurando por um ouvido que irá ouvir elas. Elas não encontram isso entre cristãos porque estes cristãos estão falando onde eles deveriam estar ouvindo… Este é o início da morte da vida espiritual, e no final não resta nada além de tagarelice espiritual e desdenho clerical vestido de palavras piedosas. Alguém que não consegue ouvir longamente e pacientemente logo estará falando de forma irrelevante… Qualquer pessoa que pensa que o seu tempo é valioso demais para permanecer em silêncio eventualmente não terá tempo para Deus ou para seu irmão, mas apenas para si mesmo e suas próprias bobagens.”

Dietrich Bonhoeffer, Vida em Comunhão.

Eu encorajo você a ler mais, a aprender mais, a ouvir mais. A pastores e leigos Luteranos Pretos. A autores Pretos. A músicos Pretos. A empresários Pretos. A pessoas que você normalmente não lê, aprende, ou ouve. Com um coração que ouve a fim de entender. Tão frequentemente o que nos divide é um coração defensivo que nasceu do medo, da raiva, ou do orgulho. Mas como irmãos e irmãs em Cristo, Deus diz, “Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” (Ezequiel 36.26). Este mundo é incapaz de resolver os problemas que nos molestam, mas Deus é capaz de fazer isso. Este mundo pode procurar nos dividir, mas Deus é capaz de nos dar a paz “que excede todo entendimento” (Filipenses 4.7).

Às nossas igrejas Luteranas Pretas, eu digo isto para vocês: Obrigado. Obrigado por ser o Corpo de Cristo no mundo. Obrigado por demonstrar hospitalidade mesmo quando hospitalidade não é demonstrada a vocês. Obrigado por sua perseverança, porque nós sabemos que “perseverança produz caráter, e caráter produz esperança, e esperança não nos desaponta, porque o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo” (Romanos 5.4-5). Obrigado por amarem os nossos filhos e filhas. Obrigado por lembrá-los quem e de quem eles são—que eles são de valor irrevogável para Deus. Eu encorajo você a falar com o seu pastor ou diácono/diaconisa. Ouça a eles. Ore por eles. Trabalhe com eles. Deixe a igreja ser a igreja, especialmente em tempos como estes. E deixe Deus ser Deus.

E aos pastores Pretos da nossa Igreja Luterana, eu digo isto para vocês: “O seu trabalho não é em vão.” Continue a cuidar da sua igreja local. Ore por ela. Lamente com ela. Ame-a. Você é o pastor que a sua igreja precisa. Não outro. Você é o pastor que esse Sínodo precisa. Sua presença e dedicação para continuar continuando é o que nós precisamos nesse momento. “Você é importante para mim; eu preciso que você sobreviva.” Vamos nos unir, agora mais do que nunca, enquanto nos lembramos das origens do Black Clergy Caucus e continuamos a “equipar os santos para o trabalho do ministério, para a construção do Corpo de Cristo.” Saiba que não importa o que esse mundo possa fazer ou trazer, a sua “alma foi ancorada no Senhor.”

“Há um bálsamo em Gileade para tornar o ferido completo;
Há um bálsamo em Gileade para curar a alma adoecida pelo pecado.

Às vezes eu me sinto desencorajado e penso que o meu trabalho é em vão,
Mas então o Espírito Santo revive novamente a minha alma.”
Espiritual Afro-Americana

Seu irmão em Cristo,

Rev. Warren Lattimore, Jr.
Pastor: St. Paul’s Lutheran Church – New Orleans, LA
Presidente: Black Clergy Caucus da Igreja Luterana, Inc.

Featured image: Black Clergy Caucus on Facebook.

Racismo: Como Lidar com Isso

Nota: Este texto foi escrito pelo Rev. Dr. Leopoldo Sanchez e publicado no site Concordia Theology, o qual é mantido pelo Concordia Seminary de St. Louis. O texto é de Agosto de 2017, quando outro caso público de racismo havia acontecido nos Estados Unidos (Charlottesville, VA). A tradução é livre do inglês.

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Rev. Dr. Leopoldo Sanchez

Em um mundo pecaminoso, o racismo não desaparecerá. De tempos em tempos ele mostra a sua cara feia em público. Mas ao invés de falar o que parece tão obvio—racismo é um pecado—aqui estão algumas formas para confrontar o racismo de frente e lidar com ele.

Arrependimento

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para arrependimento. Não apenas um convite para outra pessoa se arrepender, mas para o meu arrependimento próprio. De fato, isso é mais difícil que condenar o racismo em geral porque isso faz do racismo meu problema pessoal. Aqui nós pecamos por comissão e omissão (isto é, por cometer e omitir o pecado).

Nossa carne pecaminosa encontra orgulhosamente maneiras de evitar pessoas de outras raças ou de olhar para elas de uma forma suspeitosa. Ou simplesmente falha em reconhecer o racismo como um problema real na nossa sociedade, ou mesmo a dor das pessoas que sofreram discriminação por causa da cor da sua pele e ainda sofrem regularmente. A resposta correta para tal situação não é afirmar que “não tenho nem sequer um só osso racista em meu corpo” nem apelar para a inocência ou ignorância do que é chamado de pecado original da América. Ganhar um argumento a respeito do racismo ser ou não um pecado pessoal ou sistêmico também não vai salvar ninguém.

A carne pecaminosa encontra todos as maneiras de evitar encarar e lidar com o racismo e etnocentrismo. Então, a melhor resposta inicial é simplesmente se arrepender: “Pecamos contra ti em pensamentos, palavras, e ações, pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer.” E então esperar pela resposta de Deus, confiando em sua misericórdia: “Eu perdoo todos os teus pecados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” Neste ritmo cíclico de arrependimento, de contrição e absolvição, cristãos aprendem a viver diariamente debaixo da marca do seu batismo em Cristo, afogando a carne pecaminosa a fim de que uma nova criatura possa levantar todos os dias.

Vigilância

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para vigilância. Pecado não é somente um estado corrupto mas sim uma forma de viver no mundo. Esta é a razão pela qual não confessamos simplesmente que somos pecadores por natureza (corrompida), mas também que pecamos especialmente em pensamentos, palavras, e ações. Assim, racismo não é apenas a respeito de pessoas demonstrando em público o seu racismo pessoal, mas muito mais frequentemente pessoas pensando e falando sutilmente de maneiras racistas e etnocêntricas.

Ser vigilante é não fechar os olhos para o racismo, fingindo que ele não existe de verdade no meio de pessoas “boas” como nós mas apenas no meio das poucas “maçãs podres” lá fora. Ao invés disso, cristãos abertamente reconhecem que a vida é uma dura peregrinação no deserto, onde estamos constantemente vulneráveis às seduções do maligno, das quais se inclui a ideia que somos superiores aos outros de alguma forma. Se ter um complexo de superioridade não fosse um problema humano permanente, por que os cristãos teriam que ser lembrados constantemente de colocar os outros antes deles mesmos? Portanto, devemos ser cuidadosos para não nos tornarmos confiantes demais em nosso poder próprio de resistir a sedução da supremacia, a fim de que não nos tornemos uma presa fácil para ela sem mesmo notarmos isso.

Outra sedução comum que estamos vulneráveis é a ideia de que se lutarmos contra carne e sangue e matarmos os nossos inimigos (tanto literalmente quanto com nossas palavras), então nós faremos a nossa parte para erradicar da sociedade os mantenedores do racismo. No entanto, sabemos que o ódio apenas gera mais ódio. Aqui, cristãos devem evitar a sedução de imitar a linguagem do mundo, a violência de palavras (mesmo aquelas pronunciadas em nome da liberdade de expressão), as quais apresentam monstros ao passo que negligenciam o potencial dano à suas próprias vidas espirituais de um medo e distanciamento não reconhecido em relação à pessoas que se parecem diferentes de nós mesmos.

É fácil ir atrás de malfeitores. E, de fato, quando vemos o mal, devemos chamá-lo pelo que ele é. Mas, vamos admitir: é mais difícil ser responsável diante de outras pessoas por nossa maneira de falar, evitando atitudes baseadas em esteriótipos e mitos mantidos por uma mídia sensacionalista em relação a pessoas de raças e etnias diferentes. Ninguém está imune destas seduções. Então, a resposta correta para o racismo é não negar nossa vulnerabilidade diante dele, mas sim ser vigilante e orar: “Não nos deixe cair em tentação,” e “Que o teu santo anjo esteja conosco, para que o inimigo maligno não tenha poder algum sobre nós.”

Sacrifício

Manifestações públicas de racismo oferecem uma oportunidade de serviço. Contrição e perdão carregam os frutos do arrependimento. Unidos à Videira que é Cristo, cristãos carregam os frutos do Espírito de Jesus em suas vidas. Racismo, por outro lado, carrega sinais claros das obras da carne. Racismo promove inimizade, conflito, ódio, egoísmo, discórdia, e espírito de divisão. Em meio a tais paixões e desejos pecaminosos, os cristãos ousam viver e andar pelo Espírito. Fazer isso nunca é fácil. Isso envolve sacrifício.

Onde há ódio, os cristãos demonstram amor. Onde há tristeza, alegria; onde há conflito, paz; onde há ansiedade, paciência; onde há grosseria, gentileza; e assim por diante. Nunca haverá excesso destas coisas em um mundo pecaminoso. Andar no Espírito não ocorre sem sacrifício pessoal. Ao demonstrar amor, nos tornamos alvo de ódio; quando compartilhamos alegria, ouvimos a tristeza de outros; quando pregamos a paz, conflitos vêm em nossa direção; quando ensinamos paciência, carregamos as ansiedades dos outros; quando demonstramos gentileza, pessoas grosseiramente nos ignoram.

Racismo é uma demonstração de egocentrismo. É o amor a si mesmo que ama apenas aqueles que se parecem comigo. É uma forma do que Lutero chamou de nosso ser curvado em nós mesmos. Serviço nos leva para fora de nós mesmos, para longe de um amor a si mesmo mal orientado, e para dentro do mundo dos irmãos que são diferentes de nós. Começamos a ver a vida em termos da dor dos outros, inclusive aqueles que raça e etnia fazem que sejam objetos de palavras e atos danosos, e ousamos falar em favor deles e defendê-los quando são apresentados da pior maneira possível ou quando suas vidas são ameaçadas de alguma maneira—mesmo que nós soframos ao fazer isso. Ninguém disse que ser cristão era fácil.

Hospitalidade

Demonstrações públicas de racismo oferecem uma oportunidade para hospitalidade. Racismo é uma forma de exclusão e visa a alienação, um pecado que procura destruir a esperança humana de pertencer e ser aceito. Ele ensina que humanos podem justificar suas vidas—sua dignidade e valor—diante de outros com base na cor dos seus corpos e os privilégios que acompanham a identidade racial deles.

Em um mundo onde nossas igrejas e comunidades permanecem frequentemente segregadas de facto, começamos a nos acostumar com aqueles que se parecem e falam como nós. Temos dificuldades de atravessar fronteiras raciais, étnicas, culturais, e sociais para encontrar o próximo no outro lado. Talvez temos medo do desconhecido. Talvez estamos acostumados demais. Podemos chamar isso da forma que quisermos. Mas, seja qual for a razão, nós estamos perdendo algo. E se Deus nos surpreender no outro lado da fronteira e abençoar ricamente nossas vidas com vizinhos que se parecem e falam de uma maneira diferente?

Jesus era de Nazaré na Galiléia, lugar conhecido por nada de bom vir de lá. Por causa da proximidade deles com os gentios, os galileus eram vistos como menos que puros ou sábios. No entanto, Deus nos surpreende e opera a salvação que vem dele por meio de um galileu! E é dessa suspeitosa Galiléia que Jesus envia seus discípulos galileus para fazer discípulos batizando e ensinando. Aqui, novamente, Deus desafia as expectativas comuns do ser humano. Em seu ministério, Jesus imergiu na vida dos samaritanos, os quais eram estranhos e estrangeiros de uma raça mestiça e religião considerada inimiga de Deus. O Espírito de Jesus moveu Filipe em Atos dos Apóstolos a entrar também na terra dos samaritanos, onde o evangelista os recebeu no Reino de Deus através do batismo em nome de Jesus, e os samaritanos receberam o dom do Espírito Santo. A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

A casa de Deus é grande, e todas as raças têm um lugar à mesa dele. Através destas histórias de acolhimento divino, aprendemos que justificação diante de Deus não é por raça mas sim por graça.

Nós também aprendemos a alcançar o próximo fora da nossa área de conforto. Alguém lida com o racismo convidando pessoas de raças diferentes para compartilhar a vida conosco em nossas casas, igrejas, e comunidades. Uma atitude acolhedora nos leva além do reconhecimento do outro ao passo que permanecemos em um universo paralelo. Hospitalidade atravessa fronteiras a fim de aprender e colaborar com novos vizinhos. Você tem tempo para tomar um café?

Devoção

Demonstrações publicas de racismo oferecem uma oportunidade para devoção. Quando pessoas de raças diferentes lutam contra si mesmas, ou mais provavelmente (e talvez mais problematicamente) mantém distância umas das outras, nós perdemos todo os respeito pela criação de Deus. Nós não mais reconhecemos que quando estamos diante de outro ser humano nós estamos diante da criação de Deus. E já que adoração inclui fé e seus frutos (amor), o racismo impede a correta adoração a Deus. Ele desrespeita tanto o Criador quanto sua criação.

A verdadeira adoração recebe com alegria os dons de Deus da criação e redenção. Quando dedicamos tempo para nos regozijar em tais dons? O dia do descanso era exatamente o momento para fazer isso. O povo de Deus manteve o Sabbath (Sábado) não apenas deixando de trabalhar, mas agradecendo a Deus pela obra das suas mãos, e por ter salvo o seu povo através do Êxodo. No entanto, o ponto mais abrangente do dia do descanso era tirar um tempo de qualquer dia em meio à vidas cheias de coisas para fazer e observar a grandiosidade desses dons divinos com ações de graças e louvor, alegria e celebração. Hoje em dia estamos tão ocupados que já não paramos para nos maravilhar na beleza da obra de Deus, inclusive no dom de ter vizinhos, e celebrar tal dom.

O racismo impede a correta adoração a Deus porque ele nega a beleza da criação, a qual vem de nenhuma outra forma a não ser por meio de várias cores. O racismo também nega o dom da igreja na qual Deus tem unido a si mesmo através de sua Palavra um povo de nações, raças, e linguagens diferentes. Fundamentados nas promessas de Deus de uma criação e uma nova criação, os cristãos aprendem novamente a olhar para o próximo de raças diferentes por meio dos olhos da fé e do amor—isto é, como criaturas preciosas do próprio Deus pelas quais Cristo entregou a sua vida. Eles também aprendem a dar graças e louvar a Deus pelas vidas e dons que novos vizinhos trazem para eles pessoalmente, bem como também para a igreja e para o nosso mundo. E sim, eles aprendem a se alegrar na companhia uns dos outros e viver em união.

Vem, Espírito Santo!

Portanto, como respondemos ao racismo, seja sútil ou grosseiro, não somente em público mas também em todos os momentos? Olhando para o espelho com olhos de arrependimento, para as nossas vidas espirituais com olhos de vigilância, para fora de nós mesmos com olhos de serviço, para o próximo excluído com olhos de acolhimento, e para o Doador de todos os dons com olhos de devoção. Esta imagem da vida é certamente um peso para qualquer pessoa cumprir por conta própria. Inevitavelmente, nós falharemos diante da tarefa de lidar com impulsos racistas e etnocêntricos.

No entanto, a graça de Cristo é abundante e ele nos dá o seu Espírito que providencia o que é necessário para a jornada. Se há falta de arrependimento, o Espírito irá matar o pecador em nós para nos vivificar. Se há falta de vigilância em meio às seduções do mal, o Espírito nos fará atentos e responsáveis diante uns dos outros em nossos pensamentos, palavras, e ações. Se há falta de serviço e hospitalidade, o Espírito aquecerá nossos corações frios em relação ao outro desconhecido e carregará os seus frutos em nossas vidas, nos levando a engajar em atos de sacrifício e acolhimento em favor do próximo marginalizado. Se há falta de devoção, o Espírito nos dará descanso em Deus para pararmos e nos maravilhar com a beleza colorida da sua criação diante do nosso próximo. Então vem, Espírito Santo! Nós precisamos de você!

Featured image: Ricardo Gomez Angel, “lovely hands,” acessado dia 4 de Junho de 2020 em https://unsplash.com/photos/D9kOnC_1AHw.