Abuso Sexual Infantil e Cristãos

Diante de um recente caso de abuso sexual infantil ocorrido no estado do Espírito Santo, muitos cristãos agiram de forma lamentável em suas redes sociais. Esse texto fala sobre os três piores erros cometidos por cristãos na internet em relação a esse caso de abuso sexual infantil, e oferece qual deveria ser uma postura cristã diante de casos como esse.

Há algumas semanas, um caso de abuso sexual infantil ocorrido no estado do Espírito Santo repercutiu o Brasil inteiro. Uma menina de 10 anos sofria abusos do próprio tio desde os 6 anos de idade, os quais resultaram na gravidez dessa menina. Quatro anos sofrendo não somente abusos físicos mas também abusos psicológicos, pois o violentador a ameaçava para que essa criança permanecesse em silêncio. Um caso muito triste, muito delicado, e muito difícil de “digerir” e refletir de uma perspectiva cristã.

Alguns amigos cristãos comentaram comigo a decepção que eles tiveram a respeito das atitudes de cristãos com respeito a esse caso de abuso sexual infantil. Ao ouvir a preocupação dos meus amigos, pesquisei sobre quais foram as respostas de cristãos na internet em relação a esse caso.

O resultado foi lamentável. Houve erros muito sérios na postura de cristãs sobre esse caso de abuso. Eu fiz um vídeo no meu canal do YouTube sobre os 3 piores erros que eu vi cristãos fazerem na internet. Clica no vídeo e confere o que eu falei lá!

Novo vídeo no “Cristão na Mídia”.

Os 3 erros foram:

  • falar que a menina “gostou de ser abusada”;
  • protestar e tentar invadir um hospital;
  • fazer descaso ou agir com indiferença.

Ao meu ver, tais erros são deploráveis. Um não é pior do que o outro. Porém, em minhas redes sociais e entre as pessoas que eu tenho contato da minha denominação cristã no Brasil, o terceiro erro foi o mais comum.

Vários pastores e membros da igreja olharam para esse caso horrível de abuso sexual, e infelizmente a única preocupação demonstrada foi em relação ao término da gravidez dessa criança de 10 anos. A postura adotada diante disso não foi de compaixão, empatia, sofrer com os que sofrem, chorar com os que choram (Romanos 12). Não. A postura foi na maior parte de julgamento, com um tom condenatório.

Várias pessoas responderam a esse caso de abuso sexual e tudo o que envolveu essa perversidade apenas apontando para um documento da igreja que fala sobre aborto. Não quero ignorar o fato do aborto, e a necessidade que temos de refletir sobre esse assunto delicado como igreja. No entanto, ignorar todo o sofrimento, a maldade, a perversidade de um caso como esse, e responder apenas ao aspecto do aborto foi algo que me deixou triste e preocupado.

No mínimo, se queremos responder a um caso como esse, que possamos oferecer uma resposta que aborde TODOS os acontecimentos, e não apenas aquilo que nos apetece falar—principalmente se for para reforçar uma posição que comumente é tida contra a prática do aborto. Tudo tem seu espaço e necessidade. Mas, não podemos fazer isso de maneira rasa e mal feita.

Primeiramente, eu acho que a atitude cristã diante de um caso como esse deveria ser de

– se comover com a família que está vivendo um pesadelo;

– lamentar e orar pelo trauma que essa criança tem desde os seus 6 anos de idade;

– orar a Deus confortar as muitas pessoas que sofrem abusos;

– protestar por medidas que protejam as vítimas de uma sociedade onde 76% dos abusos sofridos por pessoas vulneráveis são cometidos por algum parente ou conhecido da família.

Minha dica: se você é cristão e não sabe como pensar ou qual deveria ser a sua postura diante de um caso difícil como esse, não vá para as suas redes sociais para disseminar ódio ou falar a primeira coisa que vem na sua cabeça. Isso não ajuda a missão da igreja de testemunhar para o mundo o amor e a salvação dada por nosso Senhor Jesus.

O que você pode fazer nesse momento?

Feche as suas redes sociais. Esse não é um momento para falar com outros na rede social, mas sim com Deus em oração. Peça a ele que dê sabedoria tanto para você quanto para outros cristãos que também estão com dificuldades de refletir sobre o assunto. Ao mesmo tempo, sempre é uma boa ideia perguntar para o seu pastor ou outros teólogos da igreja como pensar sobre isso. Nem tudo é simples e óbvio. É necessário refletir muito antes de começar a falar sobre algo tão complexo como esse caso de abuso sexual infantil.

Que Deus ilumine e dê sabedoria a todos nós a fim de refletirmos o amor e misericórdia dele ao nosso próximo que sofre pela realidade do pecado.

Niilismo e Cristianismo: A Irrelevância de Deus na Sociedade

Há dez dias eu publiquei um texto aqui no blog sobre a famosa frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “Deus está morto.” (Clique aqui para ler o texto.) Um dos aspectos centrais dessa observação feita por Nietzsche é a crescente irrelevância de Deus na sociedade. Isto é, o papel e a função ocupados por Deus antes da Era Moderna agora passam a ser ocupados pelo ser humano moderno em sua busca por propósito e sentido.

Essa semana eu conversei novamente com o Pr. Lucas Prando sobre o tema da morte de Deus na sociedade moderna. Nesse vídeo, nós refletimos sobre as implicações ou consequências de uma sociedade sem Deus. Ao mesmo tempo, refletimos sobre possíveis maneiras que Deus pode tornar a ser relevante para uma sociedade que já se acostumou a existir sem a presença de Deus. Especificamente, a pergunta que guiou nossa conversa foi, “Como Deus pode ser relevante em nossa sociedade atual? Como nós (cristãos/Igreja) podemos agir e pregar de uma forma que Deus se torne novamente relevante para os dias que estamos vivendo?” Clica no vídeo abaixo e confere o que foi sugerido em nossa reflexão.

Podcast Instante com a Palavra. Clique aqui para assistir o vídeo no YouTube.

Como menciono no Podcast acima, um dos aspectos centrais de uma sociedade onde “Deus está morto” é o desenvolvimento do “Niilismo.” Nietzsche definiu niilismo como um contexto onde os maiores valores se desvalorizam. Isto é, valores como “Verdade,” “Razão,” “Deus,” “Jesus Cristo,” “Alá,” etc. perdem o valor que eles uma vez possuíam na sociedade. Uma forma de explicar o niilismo é através da imagem de um Shopping Center. Isso porque um Shopping Center possui várias lojas que oferecem uma variedade imensa de produtos (valores). No entanto, não há um critério que diz que uma loja (ou os produtos de uma determinada loja) é melhor ou correta para os consumidores. Em outras palavras, um Shopping Center não define qual loja ou quais produtos são “os mais valiosos” para aquele local, mas sim os consumidores daquele Shopping Center que determinam esse valor. Alguém pode até argumentar que uma determinada loja é melhor para nós como consumidores, mas no fim do dia nós somos aqueles que escolhemos qual será a loja que vamos comprar o que queremos comprar.

Aplicando essa imagem do Shopping Center para a sociedade atual, vemos que “a loja” que oferecia aquilo que era “consumido” pelos membros da sociedade perdeu a sua posição de destaque. Isto é, os valores que davam sentido e propósito para toda a vida no mundo passam a ser apenas “um” dos valores disponíveis para aqueles que buscam consumir ou abraçar tais valores. Especificamente, não há um critério absoluto que dirá para nossa sociedade que “precisamos ter esse valor para nossa vida”. Todos os valores estão no mesmo nível. Não há mais um valor que seja considerado mais valioso do que outro. Alguém que adere a um determinado conjunto de valores pode argumentar que os seus valores são “os verdadeiros” ou “os melhores,” mas alguém pode usar o mesmo argumento a respeito de outro conjunto de valores.

Resumidamente, uma sociedade niilista olha para os valores que dão sentido e propósito para a vida sem distinguir entre os valores que estão sendo oferecidos. Se há um critério de escolha, este critério é o benefício próprio do indivíduo. Em outras palavras, “o valor que me beneficiar mais, este é o que eu escolho para mim.” Como resultado, hoje posso escolher viver de acordo com os valores cristãos, pois eles refletem aquilo que eu acho que é certo para mim; mas amanhã isso pode deixar de ser verdade, então escolherei viver de acordo com valores liberais-capitalistas, ou talvez de acordo com preceitos budistas, hinduístas, etc. dependendo de como eu estiver me sentindo. “Tudo é relativo,” se posso usar de um jargão popular. Se você quer acreditar em algo, bom para você. Isso é sua opinião, e não há nada que possa provar que você está certo ou errado.

Niilismo e Cristianismo

Tal situação tem trazido muitas consequências para o Cristianismo. Isso porque o niilismo tem influenciado a confissão de fé e a prática da vida cristã na sociedade atual. Por um lado, Deus deixa de ser o Deus Criador e passa a ser um “amigão” ou um “camarada” para aqueles que creem nele. Isso é refletido em uma postura “cristã” onde Deus se torna nada mais do que um amigo que me aceita do jeito que eu sou, alguém que está sempre lá para me ajudar e me apoiar. Como explico no vídeo acima, isso é um reflexo da domesticação de Deus por parte dos cristãos, os quais transformam Deus em um objeto de sorte ou alguém que eles podem contar com o apoio para seus projetos pessoais na vida. Assim, Deus não é mais aquele que dá propósito e sentido para a minha vida, o Senhor e Criador do universo, mas sim apenas alguém que pode me ajudar se eu estiver triste, doente, ou mesmo precisando de ajuda para ser promovido em meu trabalho.

Por outro lado, o discurso e a vida cristã passam a refletir idealismos ou filosofias que refletem mais a vontade do ser humano moderno do que a vontade divina revelada por Deus. Basta olharmos para as redes sociais de cristãos e percebermos que o conteúdo frequentemente reflete discursos humanos ao invés dos mandamentos dados por Deus em Cristo, especialmente relacionados ao amor ao próximo. Em outras palavras, cristãos refletem com frequência a vida de pecado da qual eles foram resgatados ao invés da nova vida recebida por meio de Cristo. Consequentemente, palavras e preceitos humanos tomam cada vez mais o lugar das palavras e preceitos divinos em nossa sociedade atual, até mesmo em cristãos.

O resultado disso e de outros aspectos da sociedade niilista após a morte de Deus que vivemos é a crescente irrelevância de Deus. Dentre os vários aspectos que podemos observar, alguns comentados no vídeo acima, um que tenho observado em nossa Igreja é o silêncio diante de eventos atuais que estão repercutindo o mundo todo. Uma das razões para esse silêncio é a privatização do Cristianismo. Isto é, cada vez mais a fé cristã se tornou algo individualista, que é praticada em grupos privados da sociedade. Em outras palavras, a fé cristã passou a ser vista como “boa para mim” mas não “boa para todos,” resultando em um discurso que se aplica para aqueles que frequentam igrejas ao invés de ser aplicável para toda a sociedade. Assim, passamos a ver a função da Igreja como “falar a palavra de Deus para o povo de Deus” ao invés de falar as palavras de Deus para todas as criaturas de Deus. Isso é problemático, porque aquilo que Deus tem para falar precisa ser falado. Se a Igreja não for o instrumento pelo qual Deus fala aquilo que ele tem para falar para o mundo, quem irá ser a voz de Deus para o mundo?

Sendo Igreja

A Igreja precisa ser novamente o instrumento que anuncia a voz de Deus não apenas para aqueles que frequentam os nossos templos mas sim para todos aqueles que estão no mundo, pois a mensagem de Deus em Cristo não inclui apenas os que creem mas orientam toda a criação de acordo com a vontade divina do Criador. Isso significa não ficar em silêncio diante de abusos, injustiças, ou situações difíceis que o mundo está vivendo. Novamente, aquilo que Deus tem para falar precisa ser dito. Mesmo que isso signifique dizer algo que seja polêmico ou “politicamente incorreto,” a Igreja precisa ser a voz de Deus para o mundo. Se a Igreja fica em silêncio, ela torna a si mesma irrelevante e até mesmo o próprio Deus, pois ela cala a voz de Deus para o mundo ao invés de ser um instrumento pelo qual essa voz é ouvida. De fato, estou convencido que o silêncio da Igreja diante da sociedade é um dos principais motivos para a atual irrelevância de Deus e do Cristianismo no mundo.

O que devemos fazer? Precisamos ser a voz de Deus para o mundo hoje. Mesmo que seja uma voz clamando no deserto, a Igreja precisa ser o instrumento que Deus criou ela para ser. Considere os atuais eventos de injustiça e discriminação racial acontecendo no mundo todo. A Igreja precisa se posicionar sobre o que está acontecendo, refletindo o ensinamento bíblico que “Deus trata a todos de modo igual, pois ele aceita todos os que o temem e fazem o que é direito, seja qual for a sua raça” (Atos 10.34-35), e que “não existe nenhuma diferença entre judeus e não judeus” (Romanos 10.12), e ainda “não existe diferença entre judeus e não judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3.28). Se a Igreja não falar para o mundo essa palavra de Deus sobre o que está acontecendo no mundo, quem poderá falar a palavra de Deus? A Igreja precisa continuar sendo a voz de Deus para aqueles que buscam orientação nesse momento. Falhar com a sua função de falar aquilo que Deus é falhar mostrar que Deus tem muito a dizer para o mundo a e sociedade que vivemos.

Em um mundo niilista e uma sociedade influenciada pela morte de Deus, a Igreja e os cristãos são chamados para ser instrumentos da palavra de Deus para o mundo. Ser um instrumento para Deus ter relevância em um mundo que rejeitou Deus não é uma tarefa fácil. Certamente não há uma fórmula mágica para que Deus torne a ser relevante na sociedade. Porém, esse mesmo mundo carece ouvir a voz do seu Criador. Em meio a tantas vozes que refletem ideologias humanas, a Igreja e os seus membros precisam ser a voz e instrumento da palavra de Deus. Que ele nos conceda o seu Espírito para sermos luz e sal para o mundo.

Foto: Gabriele T. L. Furst.

Posicionamento da BCC sobre George Floyd

Nota: Este texto foi originalmente publicado pela Black Clergy Caucus (BCC) da LCMS (Igreja Luterana—Sínodo de Missouri) no Facebook. O mesmo foi traduzido e publicado aqui com a autorização da BCC.

“Nós temos andado sobre um caminho que tem sido regado com lágrimas;
Nós temos andado fazendo nosso caminho através do sangue dos que foram abatidos.”
James Weldon Johnson, “Lift Every Voice and Sing”

“Estou cansado, ó Deus; estou cansado, ó Deus, e exausto.”
Provérbios 30.1

“…para que eu saiba dizer boa palavra ao cansado.”
Isaías 50.1

O ano era 1967. Há poucos anos atrás, a última universidade e seminário historicamente Preto restante que era dedicado ao treinamento de pastores Luteranos Pretos era fechado pelo Sínodo. A nação estava em agitação. A injustiça racial estava sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tinha negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estavam sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Lynn Blanding. Carl Cooper. Aubrey Pollard. Fred Temple. Tensões raciais se tornaram manifestações em Detroit. Como o tempo testemunharia, pastores Luteranos Pretos sabiam que “Detroit não era um caso isolado,” portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. Como o falecido Rev. Dr. Richard Dickinson, antigo Diretor Executivo do Ministério Preto, descreve, “Todas as cidades nesta nação… estavam fervendo com agitações, com o potencial de explodir em manifestações raciais a qualquer momento. Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” (This I Remember, 27). “Elas tinham absolutamente nenhuma confiança no escritório Distrital… nem mesmo para entender a natureza e o tamanho da crise, e absolutamente nenhum compromisso de tentar resolver ele.” Havia uma falta de representação. Não havia nenhum Luterano Preto no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não tinham pastores Pretos. Até aquele dia, nenhum Preto havia sido Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. “Não havia uma pessoa preta em posições de influência na administração Distrital ou Sinodal. Detroit estava pegando fogo, e o ministério preto naquela cidade não tinha nenhum lugar para procurar alguém com autoridade que poderia entender e trazer esperança e conforto.” (This I Remember, 28).

Avançamos rapidamente 53 anos depois da formação do Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) da Igreja Luterana.

O ano é 2020. Há poucos anos atrás, a última Faculdade e Universidade Historicamente Preta restante que era dedicada ao treinamento de professores Luteranos Pretos foi fechada pelo Sínodo. A nação está em agitação. A injustiça racial está sendo protestada em uma nação que desde muito tempo tem negado a existência de tal injustiça. Homens e mulheres Pretos estão sendo mortos por aqueles que haviam jurado protegê-los. Breonna Taylor. George Floyd. Ahmaud Arbery. David McAtee. Tensões raciais se tornaram manifestações em Minneapolis. Pastores Luteranos Pretos sabiam que Minneapolis não seria um caso isolado, portanto uma resposta isolada não seria o suficiente. “Se tal crise chegasse em Chicago, Los Angeles, Milwaukee ou alguma outra cidade, onde nossas congregações pretas poderiam procurar por ajuda?” Podemos buscar ajuda no Distrito ou no Sínodo? Será que eles poderiam “entender a natureza e o tamanho da crise [e ter um] compromisso de tentar resolvê-lo?” Esta é a nossa autêntica esperança. No entanto, ainda não há Luteranos Pretos no Conselho Administrativo do Sínodo. Os Conselhos de Regentes dos Seminários não têm pastores Pretos. Até a presente data, ainda não houve um Preto que fosse Presidente do Sínodo ou Presidente Distrital. Parafraseando o Dr. Dickinson, quando nossas cidades estão pegando fogo, será que o ministério Preto tem algum lugar para buscar alguém com autoridade que poderá entender e trazer esperança e conforto?

Em meio às manifestações de 1967, o Rev. Dr. Martin Luther King, Jr. disse que “Uma manifestação é a linguagem dos que não são ouvidos. O que é que a América falhou em ouvir?” É o momento para o Black Clergy Caucus (Grupo de Pastores Pretos) falar novamente.

George Floyd era conhecido como uma “pessoa de paz” (Lucas 10.6) pelo seu pastor. Firmado em sua identidade baptismal, George levaria a fonte batismal para uma quadra de basquetebol localizada a algumas quadras da sua igreja Luterana Preta. Como o Eunuco Etíope que disse, “Olhe, aqui há água! O que impede que eu seja batizado?” George preparou o caminho para pastores locais pregarem o evangelho. Mais tarde George foi movido para Minneapolis por causa de um programa de trabalho da igreja. Ele era um fruto da igreja. Ele era também um homem Preto. O filho de um homem Preto. O pai de um homem Preto. Eu também sou o filho de um homem Preto. Quando eu tiver filhos, meu filho será Preto. Mas, será que a identidade batismal dele em Cristo será asfixiada pelo mundo por causa da cor da sua pele? Será ele mais uma estatística para um mundo que nem mesmo conhece o número de cabelos da sua cabeça? Para muitos, o pensamento é esmagador, nascido de séculos de racismo. Nas palavras de Fannie Lou Hamer, nós estamos “enojados e cansados de estar enojados e cansados.” Graças a Deus nós não estamos sozinhos em nosso sofrimento. Pois a primeira interação entre Deus e o homem foi quando Deus soprou a vida para dentro de Adão. A última interação (antes da ressurreição) foi quando o homem sufocou Jesus, tirando o último fôlego do Filho de Deus. Jesus morreu de asfixiação na cruz. “Jesus deu um forte grito e respirou pela última vez” (Marcos 15.37). Nós devemos aprender como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de Jesus; então, nós devemos aprender a ver como o nosso pecado tirou o fôlego da vida de George.

Quando nós vemos vidas sendo tiradas, nós lembramos do Quinto Mandamento, o qual declara, “Não matarás.” No entanto, nós minimizamos a nossa responsabilidade. O Catecismo Maior de Lutero dá dois discernimentos importantes. Em primeiro lugar, nós não devemos usar a nossa língua para defender ou aconselhar dano a alguém.” Se nós defendermos a violência, em redes sociais ou de qualquer outra forma, então nós estaremos violando o mandamento. Em segundo lugar, nós teremos violado o mandamento “não apenas quando fazemos o mal, mas também quando temos a oportunidade de… previnir, proteger, e salvar [o nosso próximo] de sofrer danos ou ferimentos corporais, mas falhamos em fazê-lo.” Nós todos carregamos a responsabilidade neste momento, pois todos nós temos a capacidade de responder a este momento. “Se você ver alguém que está sendo condenado a morte ou em um perigo parecido e não salvar esta pessoa mesmo que você tenha meios e formas de salvá-la, você terá matado essa pessoa. O uso da desculpa que você não participou da morte dessas pessoas por meio de palavras e ações não irá ajudar você, porque você roubou dessas pessoas a bondade pela qual a vida deles poderia ser salva.” Se nós temos a oportunidade de previnir mais vidas de serem perdidas, nós temos que agarrar tal oportunidade.

Agora é o momento. Como um cristão, se você não ajudar a por um fim a um sistema de injustiça que tira a vida de irmãos e irmãs em Cristo como George Floyd mas ao invés disso “usa a desculpa que você não participou da morte deles por meio de palavras e ações,” então “você terá matado essas pessoas.” “Porque embora você não tenha de fato cometido todos estes crimes, ao que diz respeito a você, você todavia terá permitido que o seu próximo fosse debilitado e perecesse em sua desgraça. É como se eu visse alguém perecendo em águas profundas… e eu pudesse estender a minha mão para puxá-lo pra fora e salvá-lo, e eu não fizesse isso. Como eu poderia aparecer diante do mundo se não como um assassino…?” (Catecismo Maior, V, 189-190).

Isso não é um “pensamento radical preto.” Isso é o Catecismo Luterano do tempo da sua Confirmação, quando você afirmou os seus votos batismais, marcando você como alguém reivindicado por Deus—e não o mundo. Amigos e colegas têm entrado em contato comigo, perguntando como aqueles que estavam ao lado do rio e perguntaram a João Batista, “Então, o que nós devemos fazer?” (Lucas 3.10). Desde o nascimento até a hora da morte, nós somos chamados para defender a vida. A vida não é uma prova de múltipla escolha. Ela é tudo o que foi dito acima. Ou você afirma tudo—ou nada. “Lembre daqueles que estão na prisão, como se você estivesse na prisão com eles,” as Escrituras exortam, e “olhe para as vítimas de abuso como se o que tivesse acontecido com elas tivesse acontecido com você.” (Hebreus 13.3). Quando nós não procuramos acabar com a instituição do racismo, o pecado original desta nação, ou pior ainda negamos que o racismo exista, nós não apenas falhamos em reconhecer a humanidade dos nossos irmãos e irmãs em Cristo que são pretos e pardos, mas nós também falhamos em reconhecer o Deus que está neles, o Espírito de Deus que deu fôlego e vida para eles.

Nós não temos sido os mais hospitaleiros. Desde o fechamento da Concordia Selma, a última HBCU (Historically Black College and University), o Sínodo reduziu o orçamento do Ministério Preto e saiu da Black Ministry Family Convocation (Convocação Familiar do Ministério Preto)—um encontro trienal para estudar a palavra de Deus e celebrar a perseverança de Luteranos Pretos. Sem a HBCU para apoiar Luteranos Pretos, nenhum Luterano Preto entrou no seminário esse ano. Nós não precisamos do Sínodo nos oferecendo pensamentos e orações. Oração é uma disciplina espiritual essencial; as banalidades não são. St. João nos lembra que no amor não é suficiente dizer a coisa certa, nós também devemos fazer a coisa certa: “Vamos amar, não em palavra ou da boca pra fora, mas com ação e em verdade” (1 João 3.18). As Escrituras nos admoestam que falar sem agir é sem sentido, ou pior, hipocrisia: “Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário, e um de vocês lhes disser: ‘Vão em paz! Tratem de se aquecer e de se alimentar bem’, mas não lhes dão o necessário para o corpo, qual é o proveito disso?” (Tiago 2.15-16). Quanto ao jejum, Deus diz, “Vocês não podem jejuar assim como fazem hoje e esperar que o clamor de vocês seja ouvido lá no alto. Seria este o tipo de jejum que escolhi, apenas um dia para que as pessoas se humilhem?” Humildade cerimonial não será o suficiente se quisermos que as nossas vozes sejam ouvidas nos céus. Ao invés disso, Deus diz, “Será que não é este o jejum que escolhi: que vocês quebrem as correntes da injustiça, desfaçam as ataduras da servidão, deixem livres os oprimidos e acabem com todo tipo de servidão?” (Isaías 58.4-6). Como irmãos e irmãs, agora é o momento de se unir em verdadeira oração. Verdadeiro jejum. Verdadeiro lamento. Verdadeira com-paixão. Verdadeiro amor.

A Black Clergy Caucus não fala por todos os pastores Luteranos Pretos; nós advogamos por eles. Eles têm a sua própria voz, seus próprios pensamentos, seus próprios ministérios. Nós não somos um grupo monolítico. Dentro da Igreja Luterana, nós temos uma diversidade maravilhosa de igrejas, pastores, diaconisas, e professores Luteranos Pretos. Conheça um deles. Ouça-os. O primeiro ato de amor é ouvir.

“Assim como o amor de Deus começa com o ouvir da sua Palavra, assim também o começo do amor pelos irmãos é aprender a ouví-los. É o amor de Deus por nós que faz com que Ele não apenas nos dê a sua Palavra mas também nos dê o Seu ouvido. Muitas pessoas estão procurando por um ouvido que irá ouvir elas. Elas não encontram isso entre cristãos porque estes cristãos estão falando onde eles deveriam estar ouvindo… Este é o início da morte da vida espiritual, e no final não resta nada além de tagarelice espiritual e desdenho clerical vestido de palavras piedosas. Alguém que não consegue ouvir longamente e pacientemente logo estará falando de forma irrelevante… Qualquer pessoa que pensa que o seu tempo é valioso demais para permanecer em silêncio eventualmente não terá tempo para Deus ou para seu irmão, mas apenas para si mesmo e suas próprias bobagens.”

Dietrich Bonhoeffer, Vida em Comunhão.

Eu encorajo você a ler mais, a aprender mais, a ouvir mais. A pastores e leigos Luteranos Pretos. A autores Pretos. A músicos Pretos. A empresários Pretos. A pessoas que você normalmente não lê, aprende, ou ouve. Com um coração que ouve a fim de entender. Tão frequentemente o que nos divide é um coração defensivo que nasceu do medo, da raiva, ou do orgulho. Mas como irmãos e irmãs em Cristo, Deus diz, “Eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne.” (Ezequiel 36.26). Este mundo é incapaz de resolver os problemas que nos molestam, mas Deus é capaz de fazer isso. Este mundo pode procurar nos dividir, mas Deus é capaz de nos dar a paz “que excede todo entendimento” (Filipenses 4.7).

Às nossas igrejas Luteranas Pretas, eu digo isto para vocês: Obrigado. Obrigado por ser o Corpo de Cristo no mundo. Obrigado por demonstrar hospitalidade mesmo quando hospitalidade não é demonstrada a vocês. Obrigado por sua perseverança, porque nós sabemos que “perseverança produz caráter, e caráter produz esperança, e esperança não nos desaponta, porque o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações por meio do Espírito Santo” (Romanos 5.4-5). Obrigado por amarem os nossos filhos e filhas. Obrigado por lembrá-los quem e de quem eles são—que eles são de valor irrevogável para Deus. Eu encorajo você a falar com o seu pastor ou diácono/diaconisa. Ouça a eles. Ore por eles. Trabalhe com eles. Deixe a igreja ser a igreja, especialmente em tempos como estes. E deixe Deus ser Deus.

E aos pastores Pretos da nossa Igreja Luterana, eu digo isto para vocês: “O seu trabalho não é em vão.” Continue a cuidar da sua igreja local. Ore por ela. Lamente com ela. Ame-a. Você é o pastor que a sua igreja precisa. Não outro. Você é o pastor que esse Sínodo precisa. Sua presença e dedicação para continuar continuando é o que nós precisamos nesse momento. “Você é importante para mim; eu preciso que você sobreviva.” Vamos nos unir, agora mais do que nunca, enquanto nos lembramos das origens do Black Clergy Caucus e continuamos a “equipar os santos para o trabalho do ministério, para a construção do Corpo de Cristo.” Saiba que não importa o que esse mundo possa fazer ou trazer, a sua “alma foi ancorada no Senhor.”

“Há um bálsamo em Gileade para tornar o ferido completo;
Há um bálsamo em Gileade para curar a alma adoecida pelo pecado.

Às vezes eu me sinto desencorajado e penso que o meu trabalho é em vão,
Mas então o Espírito Santo revive novamente a minha alma.”
Espiritual Afro-Americana

Seu irmão em Cristo,

Rev. Warren Lattimore, Jr.
Pastor: St. Paul’s Lutheran Church – New Orleans, LA
Presidente: Black Clergy Caucus da Igreja Luterana, Inc.

Featured image: Black Clergy Caucus on Facebook.

Nietzsche: “Deus Está Morto”

Deus está morto. Friedrich Nietzsche afirmou esta famosa frase em seu livro A Gaia Ciência em 1887 (2a Ed.) no conhecido conto do “homem louco.” Mas, o que essa frase significa?

Essa semana eu conversei com o Pr. Lucas Prando em um podcast sobre o tema. No vídeo, eu mencionei que há muito desentendimento sobre o que se refere essa famosa frase do filósofo alemão, e tentei explicar que mais do que um convite para negar a existência de Deus, Nietzsche estava observando uma mudança drástica na estrutura da sociedade moderna da sua época ao dizer que Deus estava morto.

Podcast ICP via YouTube.

Ao afirmar, “Deus está morto,” Nietzsche estava observando que o papel e a função que o Deus do Cristianismo ocupava na sociedade até o século XVI já não era mais ocupado por Deus. Nietzsche tinha consciência que Deus era mais do que um ser que ocupava os pensamentos de pessoas religiosas. Ele sabia que Deus era visto como o Criador, o ser supremo que dava significado e propósito para a vida de todos e tudo na sociedade. Com o desenvolvimento da idade moderna, principalmente depois do Iluminismo, o ser humano passa a ocupar o centro das atenções, especialmente por causa da ênfase no indivíduo. Ao invés da vontade divina, a razão passa a ser o que define se algo é bom ou ruim na sociedade moderna. Deus passa a governar apenas o mundo metafísico, o mundo da religião, enquanto o ser humano governa o mundo material através da razão.

Quando chegamos na época em que Nietzsche escreveu sobre a morte de Deus, a sociedade ocidental já havia mudado completamente. Deus passa a ser o Deus do indivíduo ao invés do Senhor e Criador de todo o universo. Uma ilustração é o que ainda se observa com frequência em meio a cristãos. Quando perguntados sobre “quem é Deus?” muitos cristãos respondem que ele é o ser que provê apoio e ajuda sempre que eles necessitam. Em outras palavras, Deus deixa de ser o Governador e Mantenedor do universo para ser um bom camarada, alguém que você pede ajuda para conseguir superar os problemas da sua vida, ou para conseguir uma promoção no trabalho, etc.

Diante disso, percebemos que “Deus” já não é mais Deus na sociedade moderna. Ele passa a ser um ser que está no mesmo nível que nós seres humanos, só que mais legal e compreensível. Nesse sentido, o Deus confessado e crido desde o início da Igreja Cristã até o século XVI é morto pelo indivíduo moderno. Nos termos de Nietzsche, “Deus está morto, e nós o matamos.”

Isso significa que a frase de Nietzsche não é um convite para negar a existência de Deus e abraçar o ateísmo. Diferentemente daquilo que é mostrado no filme “Deus não está morto,” o centro da afirmação feita por Nietzsche não é que Deus não existe. Embora fosse um ateu convicto e tenha afirmado que a melhor coisa que poderia ser feita em favor do ser humano era se livrar da fé em Deus, Nietzsche estava mais que tudo observando que a sociedade moderna havia matado o Deus do Cristianismo reduzindo-o a um mero ser que existe para satisfazer o indivíduo que crê nele.

“Deus” já não é o Deus Criador que governa, mantém, e dá propósito para tudo e todos no mundo moderno. Portanto, “Deus está morto.”

Entendendo o ensino de Nietzsche de forma correta nos mostra que não precisamos ficar na defensiva diante da frase, “Deus está morto.” De fato, nós podemos como cristãos até mesmo concordar com a frase e observação do filósofo. Isto porque negar a observação feita por Nietzsche é simplesmente se negar a ver a realidade que temos no mundo desde o fim do século XIX. Basta olhar para a sociedade ocidental que vivemos atualmente e percebemos que Nietzsche estava certo em sua observação. O ser humano moderno, bem como toda a sociedade moderna, não considera Deus como o ser que dá significado e propósito para as suas vidas. Leis são outorgadas e aplicadas em nossa sociedade sem conexão alguma com a vontade de Deus—tanto por cristãos como também por não-cristãos. O entendimento de bom e mal não consulta o que Deus considera ser bom e mal para sua criação. Mesmo em meio a cristãos percebe-se que o ser que governa e orienta a vida do homem moderno não é Deus e a revelação divina mas sim aquilo que os seres humanos consideram ser o melhor para eles próprios.

Portanto, a melhor resposta para Nietzsche não é afirmar que “Deus não está morto.” Tal afirmação demonstraria que não entendemos a observação feita por Nietzsche, bem como não entendemos a situação e contexto que vivemos atualmente. Pelo contrário, a resposta e postura que precisamos assumir diante da observação que Deus está morto é pensar em como continuar continuar fiéis e pregar de maneira entendível e relevante para uma sociedade influenciada pela ausência de Deus. O desafio dado por Nietzsche não é “como provar que Deus não está morto” mas sim “como pregar e proclamar o Evangelho para uma sociedade em que claramente Deus está morto.” Nesse sentido, Nietzsche se torna um aliado, pois seus escritos observam muito bem o mundo em que vivemos, e oferecem uma imagem clara do que podemos encontrar na sociedade moderna.

Resumindo, um entendimento correto do que Nietzsche estava afirmando com a frase “Deus está morto” nos permite até mesmo concordar com a observação desse filósofo, uma vez que ele nos ajuda entender melhor a mudança que ocorreu na sociedade ocidental e oferece uma boa descrição do desafio que é pregar o Evangelho hoje em dia.

Isto não quer dizer que ao concordarmos com Nietzsche que “Deus está morto” nós estamos negando a ressurreição de Cristo ou mesmo que Deus não existe. De forma alguma! Isso quer dizer que entendemos a sociedade que vivemos, a qual não é mais a sociedade do século XVI que por sua vez era completamente influenciada por valores cristãos. E, entendendo o mundo e sociedade que vivemos, podemos nos preparar melhor para a missão de pregar e anunciar o Evangelho de Cristo, o qual vive e reina hoje e sempre. Somente quando formos capazes de reconhecer o desafio e encarar a realidade que enfrentamos atualmente é que poderemos considerar meios para responder de forma correta e fiel ao chamado de anunciar a Deus Pai, Filho, e Espírito Santo. Que ele nos conceda sensatez e conhecimento para tal fim.

Featured Image: Google Images.